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11.1.09

Três macacos



Neste seu terceiro filme a estrear por cá (salvo erro), Nuri Bilge Ceylan mantém as características que o destacaram: uma cinematografia primorosa, com planos (muitos deles fixos) elaborados meticulosamente e enquadramentos tirados ao milímetro; e um certo mal-estar existencial, com personagens melancólicas e de poucas falas que lhe valeram o epíteto de Antonioniano.

Aqui esse qualificativo é menos justificado que no excelente 'Climas', até porque ‘Três macacos’ tem muito menos força e é, dentro das premissas autorais referidas, muito mais indistinto. Tem algumas boas ideias (como o uso dos telemóveis – e a cena em que Eyüp procura interminavelmente o seu na carteira, enquanto ele toca exuberantemente uma música romântica turca, é de antologia), mas a sua beleza formal parece um bocadinho decorativa e a história (a decomposição de uma família depois do sacrifício do patriarca – por dinheiro, por um politico que não o merece) não tem a impressividade do seu anterior filme.

Não quer dizer que não valha a pena ver 'Três macacos' ou continuar a seguir Nuri Bilge Ceylan: apenas que esta é uma sua obra menor.

Üç maymun/Three Monkeys, Turquia/França/Itália, 2008. Realização: Nuri Bilge Ceylan. Com: Yavuz Bingöl, Hatice Aslan, Ahmet Rifat Sungar, Ercan Kesal.

7.1.09

Austrália



‘Austrália’ começa mal, num tom paródico que me pareceu francamente despropositado. Mas depois, de repente, transforma-se num western. Com uma travessia de gado pelo deserto, com um baile, com nativos, com racismo, com proprietários gananciosos, com paisagens a perder de vista, com um cowboy solitário e uma mulher cheia de força. E é difícil eu não gostar de um western.

Claro que depois vem a guerra e a coisa perde fôlego, dispersa-se, desequilibra-se. E há coisas que nunca batem muito bem, como aquele lado místico (e os ‘especialistas’ que criticaram Bruce Chatwin por ter simplificado o canto aborígene no magnífico ‘Songlines’, aqui devem arrepelar o cabelo).

Mas entretanto já houve romance, aventura, tragédia, drama. E aquele prazer primordial de ver cinema por causa dos actores (chamem o que chamarem a Nicole Kidman, vale sempre o bilhete), das paisagens, do romanesco.

Esteja em cima da mesa um concurso de danças de salão ou Shakespeare, um musical ou um épico, uma coisa é certa: Baz Luhrmann nunca fará um filme convencional. Bebo um copo de Poor Fella a isso.

Australia, Austrália/E.U.A., 2008. Realização: Baz Luhrmann. Com: Hugh Jackman, Nicole Kidman, Bryan Brown, Brandon Walters, David Wenham, Jack Thompson.

4.1.09

Sim!



Porque cada 'Homem na lua', Jim Carrey faz meia dúzia de comédias palermas como esta. Depois de ser um homem que dizia sempre a verdade em 'O mentiroso compulsivo', agora é um homem que diz sempre que sim a tudo. Original...

Mais careta menos careta faz sempre o mesmo papel, e já é cansativo vê-lo desperdiçar assim o seu talento, estando-se a tornar uma espécie de Adam Sandler, nem mais nem menos.

Tirando meia dúzia de cenas divertidas que nos arrancam umas gargalhadas, o que salva este filme da irrelevância é o terno romance que por lá há (verdade!) entre Jim e a luminosa Zooey Deschanel. Todas as cenas em que ela entra valem a pena.

Yesman, E.U.A., 2008. Realização: Peyton Reed. Com: Jim Carrey, Zooey Deschanel, Bradley Cooper, John Michael Higgins, Rhys Darby, Terence Stamp.

22.12.08

Caos calmo



Se, na ignorância, me fizessem um Pepsi Challenge com este filme, eu provavelmente apostaria que o realizador não era Nanni Moretti. Há algo na realização, na banda sonora por exemplo (que podia ser mais discreta), que denunciam outra mão. Mas não há duvida que este é um filme de Moretti, no sentido em que a sua personagem se insere completamente na linhagem que vem de Michele Apicella no já distante 'Io sono un autarchico' (1976), se prolongou por meia dúzia filmes e passou testemunho a Nanni himself em 'Querido diário'.

Será porventura impossível Moretti ser um mero actor num filme, como o será com Woody Allen ou como era até certo ponto com Orson Welles, mas é mais do que isso: o Moretti obsessivo, irritado com os outros (mas mais moderadamente), egoísta, de praticamente todos os seus filmes, cá está novamente. Não importa que o argumento seja baseado num livro (mas o próprio escritor Sandro Veronesi já admitiu que inconscientemente se pode ter inspirado em aspectos da personalidade de Moretti!), nem que esteja outro realizador por trás da câmara (Antonio Grimaldi): este Pietro Paladini é Nanni Moretti, ou a persona de Moretti.

Posto isto, diga-se que é um muito bom filme, esta história do executivo que após a morte da mulher passa os dias sentado num banco em frente à escola da filha, sendo os amigos, colegas e conhecidos que se habituam a ir lá ter com ele. O realizador Antonio Grimaldi gere as coisas com mão segura, Moretti continua Moretti e a sua persona não nos cansa, sendo que curiosamente parece que precisou de outro realizador para a continuar, depois dos algo atípicos 'O quarto do filho' e 'O caimão'.

PS: Não deixa de ser curiosa a polémica que houve em Itália por causa da cena de sexo 'cru' envolvendo Moretti. A cena per si não tem nada que não se veja todos os dias noutros filmes; quanto ao facto de ser Moretti a interpretá-la (as pessoas vê-lo-ão como 'um pai'), é esquecer que uma das suas personas, o Michele Apicella de 'Bianca', era... um assassino em série!

Caos Calmo, Itália, 2008. Realizador: Antonio Grimaldi. Com: Nanni Moretti, Valeria Golino, Isabella Ferrari, Alessandro Gassman, Blu Yoshimi, Hippolyte Girardot, Kasia Smutniak, Denis Podalydès, Charles Berling.

12.12.08

Baile de Outono



Às tantas, durante ‘Baile de Outono’, uma mulher diz ao seu companheiro: ‘pareces uma personagem do Bergman’. Também poderia ter dito que ele parecia uma personagem de Antonioni. E ao espectador ocorre também Tarkovsky (pelo formalismo ‘poético’); ou Kaurismäki (pelo ambiente gélido); ou até o P.T.Anderson de ‘Magnolia’ (e não só pela estrutura do filme). E, numa das cenas iniciais, é-nos mostrado um poster de um filme de Cassavetes.

Inicialmente parece-nos que o filme não é mais do que isto: uma acumulação de referências, transferindo as angústias existenciais e a incomunicabilidade de Antonioni para os frios ambientes nórdicos (o filme passa-se nos arrabaldes de Tallin). Mas a realidade é que o realizador estónio vale mais do que isso, e o filme encontra um tom próprio, acabando as suas geométricas deambulações, entre ambientes elegantes e refinados e os feios subúrbios soviéticos, por nos agarrar algo hipnoticamente. Talvez sejam os esparsos toques de humor que surgem para lá do meio do filme, bem como uma espécie de happy end (para uma personagem!), que nos alertem para o facto de o realizador ter uma capacidade de nos manipular (no bom sentido) superior ao que estaríamos à espera. O seu nome não é fácil de fixar, mas vale a pena tentar: Veiko Õunpuu.

Sügisbal/Autumn Ball, Estónia, 2007. Realização: Veiko Õunpuu. Com: Rain Tolk, Taavi Eelmaa, Juhan Ulfsak, Sulevi Peltola, Tiina Tauraite, Maarja Jakobson.

3.12.08

A turma



Apesar de ter gostado bastante dos dois filmes de Laurent Cantet que haviam estreado em Portugal, ‘Recursos humanos’ e 'O emprego do tempo’, foi com alguma relutância que me dispus a ir ver ‘A Turma’. A ‘escola’ ou o ‘sistema de ensino’ está certamente entre os temas à face da terra que menos me interessam e filmes ‘sociológicos’ que pretendem ‘contribuir para o debate’ provocam-me pele de galinha. Mas a verdade, é que como dizia François Bégaudeau, que escreveu o livro em que o filme se baseia e neste se interpreta a si mesmo, é difícil detestar ‘A turma’. Eu vou mesmo mais longe: é difícil, pegue-se por onde se pegar, não gostar deste filme.

Embora eu me identifique infinitamente mais com o professor de informática que na sala dos professores desabafa, desesperado, ‘estou farto de aturar estes anormais’ (os alunos, bem entendido), do que com o simpático, tolerante, super-paciente e por isso mesmo vastas vezes irritante François, a verdade é que tudo bate bem neste filme.

A verdadeira guerrilha que o grupo multi-étnico de adolescentes, mais finos que um coral, movem ao professor, é digna de ser vista e revista. Achando-se cheios de direitos, mas com quase nenhuns deveres, sentem-se à vontade para perguntar ao professor se ele é gay, para lhe dizerem que ele está a implicar com eles só porque os mandou ler um texto, para lhe explicarem que só ‘pães com manteiga’ (i.e. brancos) snobs usam o imperfeito do conjuntivo, por isso não há razão para o aprenderem, para protestarem porque usou o nome 'Bill' num exemplo e não 'Ahmed' ou outro que reflectisse o 'multiculturalismo' da turma, para discutirem em plena aula sobre as selecções de futebol do ‘seu’ país (i.e. Marrocos, o Mali ou outro), etc.,etc. É estarrecedor. E na única ocasião em que o quase-Santo e hiper-paciente François perde a paciência e se excede, eles aproveitam diligentemente o deslize para lhe causarem problemas junto dos colegas (que colaboram alegremente) e da direcção. E o que podem os professores fazer no meio disto tudo? Nada, ou quase nada – podem expulsar o aluno da sua escola, o que fazem a uma dúzia deles por ano.

Ou seja, a extraordinária perseverança e empenho de François, só servem para realçar o enorme falhanço que é a escola (pelo menos uma escola como aquela) hoje em dia. Nem uma pessoa com o seu charme e vocação consegue fazer algo daquele grupo de adolescentes, que já têm os piores defeitos dos pais, que não aceitam a autoridade nem a disciplina, que estão interessados em tudo menos em aprender, muito menos a língua e cultura francesa (a maior parte nem se considera francês). E não deixa de ser irónico que um dos raros exemplos de aproveitamento escolar e bom comportamento, o chinês Wei, esteja em risco de ser devolvido à procedência por os pais não terem os papeis em ordem…

Como retrato da escola, e claro, como retrato da sociedade de que a escola é um microcosmos, este filme é todo um programa, bastante mais pessimista do que a sua aparente descontracção e humor (um milagre) podem fazer supor.

François Bégaudeau, que foi crítico de cinema, queixava-se numa entrevista que 90% das análises ao filme eram ‘sociológicas’, não cinematográficas, mas isso é inevitável numa ficção tão ancorada na realidade. Mas fazendo-lhe a vontade, diga-se que o trabalho de Cantet é extraordinário: todas, mas todas as personagens são absolutamente credíveis, o ambiente da sala de aula é absolutamente realista e quase parece que o realizador se limitou a pôr uma câmara escondida algures e registar o que se passava… Maior elogio à mise en scéne é difícil fazer.

Tal como no caso de ‘O segredo de um Cuscus’, outro filme francês, temos aqui um magnífico exemplo de grande cinema popular (mais de um milhão de espectadores em França).

Entre les Murs, França, 2008. Realização: Laurent Cantet. Com: François Bégaudeau, Lucie Landrevie, Agame Malembo-Emene, Rabah Naït Oufella, Carl Nanor, Esméralda Ouertani, Burak Özyilmaz, Eva Paradiso, Rachel Régulier, Angélica Sancio, Samantha Soupirot, Boubacar Touré, Justine Wu, Atouma Dioumassy, Nitany Gueyes.

1.12.08

Wackness - À Deriva



Luke Shapiro, que está a acabar o liceu e é um pequeno passador de droga, tem dificuldade em arranjar namoradas e pensa demasiado nas coisas: vê sempre o ‘lado complicado’ das situações em vez de se ‘deixar ir’, como lhe diz uma rapariga.
O Dr. Squires é um excêntrico psiquiatra, que aceita mal o facto de estar a envelhecer: o seu casamento com uma mulher mais jovem está em ponto morto e ele sente inclusive ciúmes dos rapazes que andam com a sua enteada. O seu meio de combater a depressão é encharcar-se em drogas, aceitando que Luke, seu paciente, lhe pague em ‘produto’.

Entre estas duas almas à deriva na Nova Iorque dos anos 90, que Giuliani quer ‘limpar’, cria-se uma estranha amizade (ou algo que o valha) que serve de motor a este filme.

'Wackness - À Deriva ' tem um ritmo próprio, a que podemos demorar algum tempo a aderir, mas tem uma série de virtudes que geralmente associamos ao agora mal afamado ‘cinema independente’: argumento inteligente (simultaneamente sobre a chegada à idade adulta e sobre o deixar de ser jovem, com as complicações amorosas/sexuais no centro, num tom não exactamente optimista mas sempre com humor - qualidade que redime muita coisa), diálogos impecáveis, câmara próxima das personagens (e uma excelente fotografia, em tons sépia, de Petra Korner ), banda sonora bem esgalhada (com o Hip hop a liderar) e um muito sólido conjunto de actores, com destaque para o diálogo que se estabelece entre o jovem Josh Peck e o veterano Ben Kingsley, que tem aqui o seu melhor papel em anos.

The Wackness, E.U.A., 2008. Realização: Jonathan Levine. Com: Josh Peck, Ben Kingsley, Olivia Thirlby, Famke Janssen, Mary-Kate Olsen.

22.11.08

O Corpo da mentira



‘O corpo da mentira’ é mais um filme que se encaixa na categoria ‘guerra contra o terrorismo’.
Leonardo di Caprio é um agente da CIA no Médio Oriente, movendo-se entre o Iraque, o Dubai, a Jordânia e outros países da zona que albergam radicais islâmicos. Ele é inteligente, eficaz e duro q.b., mas tem um certo espírito de missão, uma certa crença em fazer as coisas da melhor maneira possível (isto é, prejudicando o menor numero de pessoas possível), que o distingue do seu cínico e pragmático chefe que está em Washington (um belo papel de Russell Crowe) ou do seu aliado de circunstância, o frio e elegante chefe dos serviços secretos jordanos.

‘O corpo da mentira’ oscila entre o thriller político e o filme de acção, e dá-nos uma perspectiva menos esquemática do que o habitual dos grupos locais da Al Qaeda, das dificuldades dos agentes da CIA no terreno, meras peças de uma engrenagem tortuosa e esguia, e da capacidade embasbacante da panfernália tecnológica americana – Crowe no seu gabinete, segue num ecrã todos os passos do seu agente nos desertos árabes (mais uma ideia roubada ao filme mais pilhado dos últimos tempos - ‘The Bourne Ultimatum’).

Ridley Scott dirige a fita com mão segura, e quem não pedir mais do que duas horas de entretenimento sólido, não se poderá queixar muito. Já quem esteja farto de ver sempre a mesma coisa e exija dum filme um módico de originalidade e fulgor estético, terá que procurar noutro lado. Que este nem aquece nem arrefece.

Body Of Lies, E.U.A., 2008. Realização: Ridley Scott. Com: Leonardo DiCaprio, Russell Crowe, Mark Strong, Golshifteh Farahani, Oscar Isaac, Ali Suliman.

18.11.08

Ensaio sobre a cegueira



Nunca li ‘Ensaio sobre a cegueira’, mas como qualquer pessoa que já tenha lido algo de Saramago, percebo a dificuldade de adaptar ao cinema um escritor com um estilo tão vincado.

O enredo, sobre uma epidemia que começa a cegar toda a gente, pode ser lido como uma metáfora de uma data de coisas. Mas isso fica mais para o final do filme. Até lá, este tem uma espécie de primeira parte, que ocupa a maior parte da fita, e que se passa num antigo hospício onde os afectados pela cegueira são postos em quarentena pelo governo.

Aqui, o argumento não se distingue muito do de uma data de filmes de suspense/terror/catástrofe, em que um grupo confinado a um espaço limitado, sujeito a uma ameaça, em vez de cooperar para se tentar salvar, rapidamente se desmorona, vindo ao de cima tudo o que de pior há no homem: o egoísmo, a ganância, a inveja, a irracionalidade. O facto de estarem cegos pouco importa neste contexto: a natureza humana é sempre a mesma.

Na minha opinião, o filme aguenta-se bem nesta parte, transmitindo com força este ambiente hostil, degradado, sujo, inumano. Julianne Moore suporta bem a parte de leão que lhe calha e Ruffalo e Bernal não deslustram.

Os problemas chegam quando o grupo sai para a rua. Nesta última meia hora há uma série de opções do realizador que me parecem bastante questionáveis, desde a banda sonora a algumas cenas ‘etéreas’, que transmitem um ambiente assim para o lamechas e pegajoso, que ‘fecha’ mal a metáfora e destrói alguma da tensão que o filme tinha indubitavelmente conseguido criar até aí.

Penso que terão sido estas e outras opções do realizador (como as ‘manchas brancas’, que não me parecem funcionar mal, apesar de não ‘marcarem’) que criaram tantos anticorpos ao filme, mas também me parece que a colecção de bolas pretas que tem coleccionado em muito lado se deve a alguma má vontade generalizada, como a que aconteceu em relação a ‘Babel’, por exemplo. Achei o virtuosismo de Meirelles bem mais irritante em ‘Cidade de Deus’ do que aqui, em que me parece que apesar de tudo se sentiu mais ‘amarrado’ ao texto de Saramago.

Blindness, Canadá/Brasil/Japão, 2008. Realização: Fernando Meirelles. Com: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura, Gael García Bernal, Don McKellar, Maury Chaykin, Mitchell Nye, Danny Glover, Scott Anderson, Sandra Oh.

15.11.08

Busca implacável



Bryan (nunca saberemos o sobrenome de ninguém neste filme) é um ex-agente dos serviços especiais americanos que se preocupa excessivamente com a filha adolescente (que vive com a mãe e o novo e milionário marido desta). Quando ela lhe pede para ir passar umas férias a Paris com uma amiga ele fica relutante, mas acaba por concordar. Mas os seus maus pressentimentos estavam certos, e ela mal chega é raptada. Brian mexe uns cordelinhos, e a partir de algo que ela lhe conseguiu dizer, rapidamente descobre que a rapariga foi levada por uma rede albanesa de tráfico de mulheres. Mete-se então num avião e vai a Paris procurá-la.

Os seus contactos disseram-lhe que tem 96 horas para a encontrar antes que o seu rasto se perca e ele não perde tempo, usando todos - mas mesmo todos - os meios para o conseguir.

À semelhança da sua principal personagem (o excelente Liam Neeson num papel a la Eastwood), ‘Busca implacável’ é um thriller sóbrio, negro e eficaz. Não obstante a brutalidade dos meios empregues e a verdadeira carnificina que é perpetrada, tudo é mais entrevisto do que exposto, não havendo qualquer plano gratuito ou supérfluo. Tudo aqui é conciso, despachado e profissional.

Mesmo tendo alguns buracos no argumento (toda a gente fala inglês em Paris...) e diversos momentos bastante inverosímeis, ‘Busca implacável’ é um excelente thriller muito, mas mesmo muito, acima do que para aí anda.

Taken, França, 2008. Realização: Pierre Morel. Com: Liam Neeson, Maggie Grace, Famke Janssen, Xander Berkeley, Holly Valance, Katie Cassidy, Olivier Rabourdin.

12.11.08

007 — Quantum of Solace



Não há uma única cena de cama neste 007. E Bond não diz uma única vez ‘My name is Bond, James Bond’. E não pede uma única vez um Martini ‘shaked, not stirred’. E se diz alguma piada afiada, eu não me lembro.

É certo que continua a haver uma data de mortandade e umas quantas cenas de acção estilosas. Como as que abrem o filme, que aliás me fizeram lembrar bastante ‘The Bourne Ultimatum’. E há uma belíssima Bond Girl (a russa Olga Kurylenko a fazer de boliviana), mas é uma mera agente secreta e eu tenho saudades das Bond Girls que eram físicas nucleares em short pants. E há um grande actor a fazer de vilão (Mathieu Amalric), que faz parte duma organização que derruba ditadores sul-americanos entre outras malfeitorias, mas eu tenho saudades da Spectre e dos vilões com palas num olho.

O que fica não é suficiente para fazer um bom filme de acção? É, mas o herói chama-se James Bond como se podia chamar Jason Bourne. E como filme de acção 'Quantum of Solace' não é tão bom como o 'Ultimatum'. Será que o velho Bond misógino e sem angústias algum dia vai voltar?

Quantum of Solace, E.U.A./Grã-Bretanha, 2007. Realização: Marc Forster. Com: Daniel Craig, Olga Kurylenko, Mathieu Amalric, Judi Dench, Giancarlo Giannini, Gemma Arterton, Jeffrey Wright.

6.11.08

Em Bruges



Imagine-se um filme que à primeira vista se poderia inserir no ‘realismo britânico’, com uma fotografia à realismo britânico, com actores à realismo britânico (Ralph Fiennes só entra lá para o final), mas que se passa na medieval e turística cidade de Bruges (pois claro), entre assassinos profissionais e... é uma comédia. E bastante divertida por sinal, com alguns dos diálogos mais afiados do ano, as piadas mais politicamente incorrectas e um argumento metodicamente inventivo. E que ainda se dá ao luxo de às tantas se transformar numa espécie de filme noir; e que pelo meio até mete uma história de amor.
Está facilmente encontrado o ovni do ano, nesta primeira longa-metragem do dramaturgo inglês Martin McDonagh.

In Bruges, E.U.A./Grã-Bretanha, 2008. Realização: Martin McDonagh. Com: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Clémence Poésy, Jérémie Renier.

3.11.08

Paris



Nunca tinha visto nenhum filme de Cédric Klapisch, tendo passado ao largo dos seus sucessos decorridos em ambiente Erasmus. No entanto, quer o título deste filme, quer os seus actores - desde logo Juliette Binoche e Romain Duris - chamaram-me a atenção.

Duris é um dançarino que descobre sofrer de uma doença de coração, fechando-se em casa, apenas se entretendo imaginando as vidas das pessoas que vê da sua varanda parisiense. Binoche é a sua irmã, que vem tomar conta dele, trazendo dois filhos pequenos - está separada, e algo ressentida com os homens.

Está assim lançado mais um filme-mosaico, em que diversas personagens e vidas se vão entrecruzando. O maior encanto de 'Paris' (que em boa verdade se poderia passar noutra cidade qualquer), é uma espécie de leveza melancólica que emana. Não tem a profundidade psicológica de um 'Magnólia' nem a beleza formal de um 'Corações', mas o seu tom suave, o optimismo moderado que sobressai apesar de tudo, acabam por nos marcar algo mais que superficialmente.

Binoche e Duris são actores magníficos, e todas as cenas em que estão presentes valem a pena. As outras histórias que preenchem o filme não são tão fortes, havendo algumas mal resolvidas, outras que parece ficarem-se pela rama, mas não comprometendo ainda assim o quadro geral, merecendo mesmo saliência o subplot de Fabrice Luchini (actor de vários filmes de Rohmer), um deprimido professor de história de meia-idade que pensa ter descoberto o amor.

No cômputo geral, uma boa surpresa.

Paris, França, 2008. Realização: Cédric Klapisch. Com: Juliette Binoche, Romain Duris, Fabrice Luchini, Albert Dupontel, François Cluzet, Karin Viard, Gilles Lellouche, Mélanie Laurent, Zinedine Soualem.

29.10.08

Do outro lado



Depois do desequilibrado mas muito interessante ‘A esposa turca’, Fatih Akin está de volta com um filme mais convencional (haverá quem diga mais 'maduro').
‘Do outro lado’ ganhou o prémio de melhor argumento em Cannes, e de facto é um filme em que a realização – funcional, competente – é totalmente posta ao serviço do argumento: uma vez mais sobre as relações de emigrantes turcos (de primeira e segunda geração) com o seu país de origem e com o que habitam – a Alemanha.

Nejat nasceu na Alemanha e até é professor de literatura alemã numa universidade local, mas acaba por se instalar em Istambul. Ayten é perseguida na Turquia por razões politicas, foge para a Alemanha onde arranja uma namorada que a protege, mas acaba por ser deportada. Os dois nunca se cruzam, mas as suas histórias acabam por se interligar indirectamente, numa tapeçaria cuidadosamente entrelaçada, mas sem grandes rasgos, repetindo o esquema do filme-mosaico, que teima em não sair de moda.

Akin confirma-se como bom realizador (e argumentista), a seguir, mas não cumpre totalmente o que a obra anterior prometia. O próximo filme poderá tirar-nos as dúvidas.

Auf der anderen Seite/The Edge of Heaven, Turquia/Alemanha, 2007. Realização: Fatih Akin. Com: Baki Davrak, Nursel Kose, Hanna Schygulla, Tunkel Kurtiz, Nurgul Yesilçay, Patrycia Ziolowska.

27.10.08

W.



Como é que alguém que aos quarenta anos ainda era um estroina alcoólico, passado pouco tempo chega a homem mais poderoso do mundo?

Oliver Stone dá-nos o seu retrato de George W. Bush: um homem impulsivo, que demorou imenso tempo a assentar, que apesar de vir de uma família da ‘elite’ é essencialmente um homem do povo (‘tens um toque humano’, diz-lhe a mulher), que é pouco articulado a falar, tem pouca cultura, gosta é de basebol e cervejas; um homem perpetuamente angustiado pela desconfiança que o pai lhe vota, um pai que nunca acredita nele e prefere nitidamente o irmão Jeb, mais bem comportado e inteligente; mas também um ingénuo bem-intencionado, um cristão ‘renascido’, rodeado de falcões iluminados (Karl Rove, Dick Cheney, Donald Rumsfeld), que dão uma perigosa base teórica às suas intuições (o propagar da Democracia pelo Médio Oriente; uma politica musculada à Reagan; um certo desprezo por tudo que cheire a ‘esquerda’).

Stone é nitidamente das bandas do Partido Democrata, mas o seu retrato de Bush é bastante humano. Não obstante alguma ironia (notoriamente na duvidosa utilização recorrente da música ‘Robin Wood’..), o seu retratado mais do que diabolizado, é de certa forma objecto de compaixão: é o tal homem ingénuo (acreditava mesmo na existência de armas de destruição massiva), mal preparado, com a sombra do pai sempre a pairar sobre ele, com um certo misticismo cândido (acha que Deus quer que ele seja presidente). Mas não uma figura tenebrosa (como a maioria do seu séquito de maquiavélicos conselheiros, excepção feita ao sensato Colin Powell, que acabará no entanto por também ceder), nem sequer trágica.

Stone nem sempre escapa ao estilo telefilme, mas no global o esquema de alternar entre passado e presente, mostrando uns episódios e saltando outros (como a campanha para presidente) funciona bem, e consegue interessar-nos verdadeiramente por esta figura algo patética mas muito humana, evitando completamente o lado panfletário que eventualmente se poderia esperar dele.

Uma última palavra para os actores: Josh Brolin mimetiza na perfeição George W. Bush, Richard Dreyfuss está magnífico como o sinistro Dick Cheney e Toby Jones é o perfeito anão maligno Karl Rove.

W., E.U.A./Hong-Kong/Alemanha/Grã-Bretanha/Austrália, 2008. Realização: Oliver Stone. Com: Josh Brolin, Elizabeth Banks, Ioan Gruffudd, Thandie Newton, Rob Corddry, Scott Glenn, Ellen Burstyn, James Cromwell, Richard Dreyfuss, Toby Jones.

24.10.08

Olhos de Lince



Depois de ter realizado uma espécie de versão adolescente de 'Janela Indiscreta', 'Paranóia', J.D.Caruso volta a uma intriga Hitchcockiana por excelência: um cidadão comum encontra-se subitamente envolvido em algo que lhe escapa completamente e é obrigado a encetar uma fuga (de um bando de criminosos, da polícia, ou de ambos) enquanto tenta descobrir o que se passa (e entretanto conhece uma mulher que também é envolvida na fuga).

A primeira diferença significativa para Hitch, que levou este leit motif aos píncaros da excelência em 'Intriga Internacional', é que enquanto este se estava a borrifar no quem e no porquê (o famoso McGuffin), Caruso está bastante interessado nisso. O 'porquê': o filme tem uma mensagem, que uma personagem de encarrega de enunciar no final, caso alguém tenha adormecido a meio e a não tiver percebido: 'os meios que usamos para nos proteger podem-se virar contra nós' (crítica mais que directa aos excessos securitários dos States pós 11 de Setembro). O 'quem': curiosamente Caruso mata um dos poucos pontos de interesse do filme, ao desvendar a meio deste o vilão (que é bastante bem achado, diga-se) - donde se prova que não basta imitar o mestre, que seguiu este procedimento mais que uma vez, mas é preciso ter ideias de cinema próprias.

E aqui é que a porca torce o rabo. Não tivesse 'Intriga Internacional' nenhum outro interesse (e se o tem!), bastariam as antológicas cenas de Cary Grant bêbado no carro, o ataque da avioneta, a perseguição do monte Rushmore, etc., etc., para o tornar inesquecível. Mas quem ao fim deste 'Olhos de Lince' for capaz de se lembrar de uma única sequência memorável que levante o dedo. É que não há uma mera ideia original de cinema em toda a fita! É cena de perseguição estafada, após cena de perseguição estafada.

Posto isto, que fica deste thriller? Quase nada, pois. Voltando à redução por absurdo, se nada mais tivesse, 'Intriga Internacional' valeria ainda a pena só por causa de Cary Grant e Eva Marie Saint. Mas que dizer de Shia Labeouf (quando for grande quer ser o Harrison Ford) e de Michelle Monaghan (quanto a mim, o facto de me fazer lembrar o Michael Jackson, retira-lhe inapelavelmente qualquer tipo de sex appeal)? Que não têm grandes personagens para defender, mas que, verdade verdadinha, também não conseguem acrescentar nenhuma mais valia...

A vida segue difícil para os fãs de thrillers que insistem em deslocar-se regularmente às salas: por cada 'Ultimato', apanhamos com dez 'Olhos de Lince'.

Eagle Eye, E.U.A., 2008. Realização: D.J. Caruso. Com: Shia Labeouf, Michelle Monaghan, Rosario Dawson, Billy Bob Thornton, Michael Chiklis.

17.10.08

A ronda da noite


Martin Freeman, excelente como Rembrandt.

Confesso que fui ver este filme de Peter Greenaway (que saiu em 2007, chegou cá em Maio passado, e a que eu só agora tive oportunidade de assistir) com expectativas moderadas.

Apesar de ter boas recordações de filmes como ‘Maridos à água’, do clássico ‘O Cozinheiro, o ladrão…’ ou de ‘Os livros de Prospero’ (a sua idiossincrática versão de ‘A Tempestade’), a última obra dele que cá estreara em sala (há quase 10 anos!), ‘8 mulheres e meia’, era de fugir, uma espécie de versão caricatural do seu universo barroco, excessivo, erótico. A sensação de esgotamento formal da sua obra, que já se sentia há algum tempo, era aqui levada a um extremo grotesco.

Visto este ‘A ronda da noite’, interpretação pessoalissíma de Greenaway do famoso quadro de Rembrandt (com ele o pintor pretenderia denunciar um crime levado a cabo pelos mercadores nele representados…), somos surpreendidos pela contenção de Greenaway. Talvez inspirado pela paleta do mestre holandês, pela sua estrutura do claro-escuro, a fotografia do filme é sombria, discreta, e toda a mise en scene é mais recatada que o habitual no exuberante realizador inglês.

O seu universo profundamente teatral continua presente (a representação está mesmo no cerne do filme), mas sem dúvida que Greenaway controlou a mão. ‘Ronda da noite’ não está ao nível das suas obras máximas, mas vê-se muito bem (não obstante a intriga 'policial' ser por vezes algo monótona) e nota-se que o realizador teve o cuidado de dar um passo atrás no caminho sem saída para onde se dirigia.
Esperemos para ver se é para dar dois em frente no próximo filme - e em que direcção.

PS.: Vejo que entretanto já estrearam mais dois filmes de Greenaway que não chegaram cá, o último dos quais se intitula 'Rembrandt's J'accuse' e segundo o IMDB J'accuse is an essayistic documentary in which Greenaway's fierce criticism of today's visual illiteracy is argued by means of a forensic search of Rembrandt's Nightwatch

Nightwatching, França/Polónia/Grã-Bretanha/Canadá/Alemanha/Holanda, 2007. Realização: Peter Greenaway. Com: Martin Freeman, Emily Holmes, Jodhi May, Eva Birthistle, Toby Jones, Natalie Press.

7.10.08

Yella



‘Yella’ é a nona longa-metragem (e a última de uma chamada ‘Trilogia dos Fantasmas’) de Christian Petzold - nome de proa da chamada Nova Escola de Berlim - e tem recebido vários prémios, onde avulta o Urso de Prata para melhor actriz (Nina Hoss) na última Berlinale.

A primeira sensação que atinge um perfeito desconhecedor da obra de Petzold como eu, é a estranheza deste ‘Yella’.
Yella é a protagonista do filme (a estupenda Nina Hoss), que vagueia por ele como um fantasma: tanto é extremamente passiva (nomeadamente perante a agressividade do seu ex-marido), como revela dotes surpreendentes, rapidamente dominando os tortuosos meandros dos negócios de alto risco onde é introduzida por um desconhecido. Às tantas já toma mesmo iniciativas surpreendentes.
Mas sempre com um ar ausente, com uma frieza distante (que encontra ressonância na magnífica e gélida fotografia de Hans Fromm) e denotando aqui e ali sinais inquietantes (e o leitor que há tempos se queixou dos meus spoilers pode ficar por aqui). E são estes sinais (um copo de água quebrado; uma surdez momentânea) que vão intrigando o espectador. Será que há algo de estranho no meio deste desenrolar algo enfadonho de reuniões de negócios, de análises de balanços, de percentagens de risco?

O final mais do que aberto do filme dá azo a todas as interpretações possíveis, e o realizador deita a sua acha na fogueira nomeando como forças inspiradoras deste filme um documentário sobre capital de risco (‘Nicht ohne risiko’ de Harun Farocki) e o clássico de terror ‘Carnival of Souls’ de Herk Harvey...

Resumindo e simplificando – e não obstante os elogios já referidos – eu diria que os pressupostos são mais interessantes que o resultado final. A crítica ao ‘capitalismo’, que se fica mais por um retrato de pessoas individualistas, solitárias, alienadas, resulta algo frágil e monótona e o lado fantástico, chamemos-lhe assim, acaba por ser demasiado rarefeito e inconsequente.

Quase que parece estarmos perante uma curta-metragem: há um argumento interessante, filmado de uma forma concisa e imaculada, mas ficamos com a sensação de que tudo é algo superficial, nunca chegando as personagens e as situações a ganhar consistência.

Yella, Alemanha, 2007. Realização: Christian Petzold. Com: Nina Hoss, Devid Striesow.

2.10.08

Destruir depois de ler



O filme dos irmãos Coen de que mais me lembrei ao ver ‘Destruir depois de ler’ foi ‘Fargo’: pelo absurdo das situações, pelo argumento (um par de cromos cria uma confusão incrível), pelo tom ‘low-key’ (apesar do leque de estrelas, talvez por ser uma comédia, parece claramente um filme menos ambicioso que ‘Este país não é para velhos’), até pelo papel dominante de Mrs.Joel Coen, Frances McDormand.

Já alguém definiu o pessoalíssimo universo dos irmãos Coen como sendo uma mistura de ‘hard boiled’ com ‘screwball’, sendo que neste filme é a segunda componente que domina, numa proporção inversa à de ‘Fargo’.

Não obstante os seus notáveis méritos – elenco fantástico; realização impecável, fluida, cheia de ritmo (os manos estão em grande forma); argumento engenhoso, inteligente, observador – que o tornam um grande divertimento, não me parece ter a gravitas de um clássico como ‘Fargo’. Pareceu-me mais um excelente ‘filme de intervalo’, uma inteligente variação dos temas de sempre dos realizadores, do que um dos seus filmes topo de gama.

Por outras palavras, achei-o um grande filme menor dos Coen.

Burn After Reading, E.U.A., 2008. Realização: Ethan e Joel Coen. Com: George Clooney, Frances McDormand, Brad Pitt, John Malkovich, Tilda Swinton, Richard Jenkins, David Rasche, J.K. Simmons, Olek Krupa.

25.9.08

Tempestade tropical



Quem viu ‘Zoolander’ sabe qual é o estilo de humor de Ben Stiller atrás da câmara: excessivo, hiper-paródico, hiper-referencial e sempre no limite do xunga. Mas não bronco (a la 'Knocked Up') nem imbecil (a la 'Uns Espartanos do Pior').

‘Tempestade Tropical’, sátira desvairada a Hollywood, não foge destes parâmetros. É bastante palerma (o argumento, sobre um grupo de prima donnas de Hollywood perdidas na selva vietnamita, é inenarrável), mas é uma palermice razoavelmente divertida e sempre inteligente. Enquanto que na nova comédia Americana há muita gente a quem foge o pé para o chinelo, Stiller faz o papel de sofisticado a fazer de bronco. Nem sempre escapa a fazer de bronco a fazer de sofisticado, mas no geral safa-se melhor que a maioria.

E tem um grande mérito: escolhe os seus actores a dedo e proporciona-lhes papelões. O melhor de ‘Tempestade Tropical’ são precisamente os seus actores, com natural destaque para o genial Robert Downey Jr. (a fazer de actor australiano a fazer de negro no filme dentro do filme!) e para um irreconhecível Tom Cruise, que confirmando a sua tendência para brilhar quando faz papéis secundários, saca aqui uma performance antológica.

Tropic Thunder, E.U.A., 2008. Realização: Ben Stiller. Com: Ben Stiller, Jack Black, Robert Downey Jr., Brandon T. Jackson, Jay Baruchel, Danny McBride, Steve Coogan, Nick Nolte, Tom Cruise, Matthew McConaugh.