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13.3.10

New York, I Love You



Embora, como se pode notar, acabe mais vezes a dizer mal que bem, a verdade é que não resisto a ver estes filmes em segmentos, cada um dirigido por um realizador diferente (aqui, aqui, aqui, aqui). Embora tenha perdido nas salas 'New York, I Love You', segundo episódio do franchise  'Cities of Love', depois de 'Paris Je t'aime', eis que o escolhi para uma noite chuvosa em casa.

De todos os projectos anteriormente citados, este é talvez o mais enigmático. Não tem própriamente um ponto alto, mas também não tem - e isso faz toda a diferença - pontos baixos. Os episódios vão-se ora sucedendo, ora se entrelaçando, numa fluidez melancólica, sem quebras de ritmo nem de tom, embalando o espectador no seu cadenciar morno mas próximo, com uma homogeneidade surpreendente. E depois vão desfilando uma série de caras, de várias gerações, que é sempre bom rever: Natalie Portman, Christina Ricci, Ethan Hawke, Chris Cooper, Robin Wright Penn, James Caan, Drea de Matteo, Julie Christie, John Hurt, Eli Wallach (o Don Altobello do 'Padrinho III'), Cloris Leachman (a mulher do treinador Popper,  que tem o romance com Sonny, no extraordinário 'The Last Picture Show')...

Donde, além de um retrato das muitas vidas de Nova Iorque, 'New York, I Love You' é também uma espécie de 'Hollywood I Love You' ,  vindo ainda por cima de um conjunto de realizadores que inclui um Japonês, um Chinês, dois Indianos, um Turco-Alemão e um Franco-Israelita!

New York, I love You, E.U.A., 2009. Realização: Realização: Fatih Akin, Yvan Attal, Allen Hughes, Shunji Iwai, Wen Jiang, Shekhar Kapur, Joshua Marston, Mira Nair, Natalie Portman, Brett Ratner.

9.3.10

Estado de guerra

'Estado de guerra' começa com uma cena muito boa, plena de tensão angustiante, que o resto do filme não desmerece. Exceptuando uma única cena escusada - a da morte do médico 'ingénuo' - por demais previsível e explicativa - deixa a acção falar por si, dando-nos um excelente retrato da guerra. A imagem recorrente dos soldados americanos sobre enorme tensão, a terem de tomar decisões em segundos, enquanto são observados por rostos locais mudos e impassíveis é das mais emblemáticas que me lembro de entre os filmes sobre o Iraque. Aliás, este é o melhor filme sobre a actual guerra no local (tem havido bons filmes sobre o regresso dos soldados - 'No vale de Elah', por exemplo) - também porque é, coisa que nem sempre tem sido salientada, um muito bom filme de acção.

'The Hurt Locker' centra-se no Sargento William James, Will (excelente Jeremy Renner), um desadaptado (um viciado em adrenalina, chama-lhe um colega), que prefere a guerra à família. Não a 'defesa da pátria' ou algo no género, entenda-se, mas a emoção de desarmadilhar bombas no terreno à tranquilidade da vidinha com a mulher e o filho na terra. Repare-se que isto não nos é mostrado glorificando o campo de batalha, a la Rambo. Isto é-nos mostrado enquanto também nos é mostrada a dureza da guerra e percebemos que para a maioria do contingente é um sítio insuportável donde se quer pôr a andar o mais depressa possível (veja-se a cena da espera interminável dos soldados numa posição no deserto, enquanto não têm a certeza de que o campo está totalmente livre de inimigos). Will não é uma personagem de computador, é uma pessoa que põe constantemente a vida em risco, e sentimos que anda a abusar demais da sorte. Dar-nos a compreender Will- e personagem mais politicamente incorrecta no actual cinema americano é difícil - é o derradeiro trunfo deste filme.

The Hurt Locker, E.U.A., 2008. Realização: Kathryn Bigelow. Com: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geraghty, Guy Pearce, Ralph Fiennes, David Morse, Christian Camargo.

31.1.10

Bem-Vindo a Zombieland

















'Zombieland' é uma divertida e despretensiosa comédia de zombies, que vai buscar o seu modelo mais ao road movie que aos filmes apocalípticos. Os zombies aqui são quase figurantes, pretexto apenas para as piadas e para pôr na estrada os pares Jesse Eisenberg /Woody Harrelson e Emma Stone/Abigail Breslin (sendo que há um claro desiquilíbrio a favor do par de actores masculino, muito mais carismático).

É o lado 'busca pessoal' das personagens que interessa ao realizador, ignorando o lado 'crítica social' com tanta tradição nos filmes de zombies menos mainstream (o zombie como representante do estranho, do irracional, do Outro em suma). Mas nem essa busca, motivada pela ansiedade de integração numa 'família', de que todas a personagens sofrem, é levada muito a sério, sendo a procura de uma boa piada o objectivo numero um. E aqui o filme cumpre bem os seus desígnios: é bem filmado, inteligente e divertido q.b., e termina num tour de force passado num parque de diversões, que merece figurar nas antologias do género. Last but not least proporciona ainda um cameo completamente desmiolado ao nosso actor favorito.

Em suma, é o filme ideal para ver num Domingo à tarde chuvoso. (sempre tive vontade de usar esta frase)

Zombieland, E.U.A., 2009. Realização: Ruben Fleischer. Com: Woody Harrelson, Jesse Eisenberg, Emma Stone, Abigail Breslin, Amber Heard, Bill Murray, Derek Graf.

7.1.10

Um Profeta



















Malik El Djebena chega à prisão com 19 anos, sem saber ler nem escrever (literal e metaforicamente). Mas tem várias qualidades: aprende depressa, é orgulhoso, adapta-se que nem um camaleão e sabe fazer das fraquezas forças. Para a Máfia Corsa que domina a cadeia ele é o Árabe que faz os trabalhos menores, para os Árabes ele é um Corso. Ele diz sempre que não trabalha para ninguém: apenas para si próprio. A seu tempo todos perceberão isso.

Audiard (o realizador de 'De tanto bater o meu coração parou') filma esta história de aprendizagem num tom seco e eficaz, características também da sua personagem principal (o estupendo Tahar Rahim) e, quase somos tentados a dizer, documental - embora só seja 'documental' (ou 'realista') quando lhe convém. Basta dizer que Djebena nunca deixa de ver fantasmas.

'Um profeta' é muita coisa: é um filme de prisão (e é preciso coragem para pegar num género moribundo), é um filme de gangsters, é um filme social - sobre a França, sobre os Árabes, sobre o racismo. E safa-se muitíssimo bem em todas estas vertentes. É um dos grandes filmes por cá estreados em 2009.

Un Prophète, França/Itália, 2009. Realização: Jacques Audiard. Com: Tahar Rahim, Niels Arestrup, Gilles Cohen, Reda Kateb, Adel Bencherif, Hichem Yacoubi.

20.12.09

Avatar
















'Avatar' é uma espécie de cruzamento entre 'O Senhor dos anéis' e 'Rambo', em formato ficção científica e embrulhado numa parábola ecológica.

Assim dito não soa a grande coisa, mas a verdade é que Cameron leva o empreendimento a bom porto. Notoriamente que no meio de tantos efeitos especiais e 3D (e na minha modesta opinião é mais ou menos indiferente ser em 3D), a maioria das personagens acabam por ser um bocado... unidimensionais, raramente escapando ao estereotipo. Mas, apesar de tudo, Cameron não de deixa submergir pelo aparato tecnológico, e mantém-se sempre atento ao 'contar da história' (não muito original, diga-se), conseguindo-nos envolver no seu universo onírico e visualmente muito cativante.

Resumindo, sem deslumbrar, pareceu-me um bom filme de FC, um blockbuster claramente acima da média - mas, que devido aos custos, aos meios, e ao realizador envolvido, está condenado a despertar opiniões extremas.

Avatar, E.U.A., 2009. Realização: James Cameron. Com: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Michelle Rodriguez, Giovanni Ribisi, Joel David Moore, CCH Pounder, Wes Studi.

14.12.09

Histórias de Caçadeira

















Um homem morre e no seu funeral aparecem os três filhos de um primeiro casamento, que ele abandonou. O mais enigmático, Son (Michael Shannon, actor com carisma de estrela) mostra o seu repúdio pelo morto. Os filhos do segundo casamento do homem, da sua segunda vida, após se ter tornado um cristão devoto e um pai de família consciencioso, não gostam.

'Histórias de Caçadeira' é um filme de ódios e vinganças, um olhar sobre a América profunda inserido numa linhagem que o cinema independente americano tem sabido prolongar desde os Westerns.

É um filme melancólico e minimalista, apoiado nos actores, na paisagem, e na memória de um certo cinema (americano). Não o perca.

P.S.: Dado o desfasamento temporal entre as estreias dos filmes e a sua referência aqui, que tem sido apanágio desta segunda vida do Duelo, quando eu digo 'Não o perca', leia-se, 'arranje-o em dvd ou na net', bem entendido...).

Shotgun Stories, E.U.A., 2007. Realização: Jeff Nichols. Com: Michael Shannon, Douglas Ligon, Natalie Canerday, Glenda Pannell, Lynnsee Provence, Michael Abbott Jr., David Rhodes, Travis Smith.

7.12.09

Actividade paranormal





















O fenómeno em que este filme se tornou é conhecido: foi rodado numa semana em casa do realizador, com quatro ou cinco actores amigos, e custou 10.000 dólares. Foi comprado pela Deamworks apenas para dele fazer um remake, esteve dois anos na prateleira do estúdio, mas acabou por ser lançado numa dúzia de salas, na sessão da meia-noite. E eis senão quando um marketing sabiamente orquestrado e o passa-palavra dos espectadores foram criando uma bola de neve, que neste momento se cifra na bela quantia de 107 milhões de dólares facturados, só nos States. (o slogan promocional foi "Não veja este filme sózinho", conselho que não pude seguir até porque, ironicamente... estava sozinho na sala de cinema!)

O argumento? Um casal ouve barulhos estranhos durante a noite. Ela, que já tem experiência de actividades paranormais desde criança (mas nunca lhe contou a ele) fica assustadíssima. Ele, que é ultra-racional, só pensa em desvendar o mistério. Compra então uma câmara  (pois claro) e coloca-a a filmar o tempo todo, mormente durante a noite (supostamente vemos todo o filme através desta câmara).

O resultado? Bom, confesso que passei dois terços do filme a pensar "tanto barulho por isto"? Mas, tal como o protagonista masculino, depois de tanta espera, de tantas imagens fixas nocturnas, de tantos ruídos e estremecimentos vagos (o realizador tem a inteligência de nunca mostrar demasiado), quando as coisas começaram a aquecer, senti alguma angústia. E, admito, os dez minutos finais conseguem levar a tensão a níveis acima da média, acabando o filme em grande (se bem que eu preferisse que acabasse numa cena anterior). E, talvez a intenção do realizador fosse mesmo pôr-nos a marinar até este crescendo final.

Tudo somado, diria que é um filme simpático, nos antípodas do 'gore' actual, que não desapontará os fãs de terror e é capaz de assustar verdadeiramente (e é esse o objectivo de um filme como este) o espectador menos batido...

Paranormal Activity, E.U.A., 2007. Realização:Oren Peli. Com: Katie Featherston, Micah Sloat, Mark Fredrichs, Ashley Palmer e Amber Armstrong.

30.11.09

Tetro



















Desde 'O Vigilante' (1974) que Coppola não escrevia um argumento original. E desde 'Rumble Fish' (1983) que não filmava a preto e branco. Não quero dizer que haja aqui um regresso às "origens". Há uma parte operática em 'Tetro' que remete para o universo de 'O Padrinho', para não falar do tal argumento, basicamente, uma vez mais, sobre a família. Apenas pretendo sublinhar que nesta "2ª fase" da carreira, Coppola faz o que muito bem lhe dá na veneta.

E se não há duvida que se mantém uma coerência com a obra passada, não é menos verdade que, tal como em 'Uma segunda juventude, ‘ há uma sensação de estranheza ao ver esta obra que não nos abandona. Há um lado onírico, espectral, que a torna diferente dos trabalhos anteriores a 'Uma segunda juventude'. Não provém tanto do argumento (Vicente Gallo, o filho de um maestro famoso, tenta lidar com o 'fantasma' do pai), nem do preto e branco (extraordinário), nem da maneira de filmar (Coppola continua um mestre); é algo de mais ténue, que tem a ver com alguma indefinição própria dos sonhos, em que nem tudo encaixa na perfeição, há buracos, zonas de sombra, momentos surreais, impressões fugidias. Lembrei-me várias vezes de Orson Welles, do desequilíbrio de vários dos seus filmes, ainda assim sempre belos, com planos que redimiam quase tudo.

Mas o exemplo mais próximo que me ocorre é o das obras finais de Hitchcock, em que este não parou de desconcertar os seus fãs com filmes insólitos e surpreendentes. E se eu não vou ao ponto de pôr 'Intriga em família' (ou 'Tetro') acima de 'Vertigo' (ou 'O Padrinho’), a verdade é que é um filme que não deixa de me fascinar.

Tetro, E.U.A./Itália/Espanha/Argentina, 2009. Realização:Francis Ford Coppola. Com: Vincent Gallo, Alden Ehrenreich, Maribel Verdú, Klaus Maria Brandauer, Carmen Maura, Rodrigo de la Serna, Leticia Brédice, Mike Amigorena.

24.11.09

Ou Morro ou Fico Melhor



















O pai de Martial abandonou o lar para ir viver com uma mulher muito zen. A mãe preocupa-se com ele, mas acima de tudo com ela própria e com o seu romance com um homem que conheceu num bar.

Martial tem 16 anos e tem que se adaptar a uma nova escola e a uma nova vida e nada disso lhe agrada. Uma loirinha engraça com ele, mas ele é que não lhe liga nenhuma. Apenas as fantásticas gémeas Colette e Ernestine despertam o seu interesse. Andam sempre juntas, não ligam a ninguém e parecem saídas de um filme mudo. Aliás, durante metade do filme, uma delas só segreda ao ouvido da outra, que é por assim dizer a porta-voz do dueto.

Elas vão envolvendo Martial no seu mundo, nomeadamente no seu hobby que é penetrarem em casas de estranhos. Este sente-se desconcertado com o seu comportamento, mas ao mesmo tempo fascinado. Ou morre ou fica melhor.

Durante meio filme, esta nova obra (de 2008) de Laurence Ferreira Barbosa é uma muito divertida comédia sobre a adolescência, mas também sobre o mundo moderno, sobre as famílias disfuncionais. Depois engonha um bocado, normaliza-se - e nem vou repisar no lugar-comum que associa (filmes) franceses e sexo - e acaba de uma forma um bocado chocha. Mas, tal como para Martial, se o final não é brilhante, a experiência do que passamos vale a pena.

Talvez seja por ver(mos)  tantos filmes americanos, mas a verdade é que mesmo um filme 'corrente' francês como este me traz sempre um sabor diferente. Não saio de lá a pensar que vi mais do mesmo.

Soit je meurs, soit je vais mieux, França, 2008. Realização: Laurence Ferreira Barbosa. Com: Florence Thomassin, François Civil, Marine Barbosa, Carine Barbosa, Thomas Cerisola, Valérie Lang, Emile Berling.

21.11.09

Longe da Terra Queimada



















Um dos ódios de estimação de parte da crítica portuguesa e não só, é o mexicano Alejandro González Iñárritu, realizador de 'Amor Cão', '21 Gramas' ou 'Babel'. Todos estes filmes têm em comum o argumentista, Guillermo Arriaga, e este é sem dúvida um dos principais 'culpados' da marca autoral destes filmes, caracterizados por  narrativas não lineares, hiatos temporais, episódios segmentados.

Tal como outros argumentistas 'autores', também Arriaga não resistiu a passar para trás da câmara e realizar um seu argumento. Arriaga é acima de tudo um bom contador de histórias, e essa característica mantém-se nesta obra, em que dois segmentos espaçados temporalmente se vão encandeando, até formarem o puzzle completo, retratando um drama familiar, numa zona de fronteira.

A realização é 'neutra', pondo-se ao serviço do argumento, há um bom naipe de actores, destacando-se Kim Basinger e Charlize Theron, e no global é um filme sólido e adulto, em que o espectador não dá o seu tempo por perdido. Mas, de facto, talvez não ultrapasse o nível de um episódio médio de 'Californication' ou de 'Dexter'...

The Burning Plain, E.U.A., 2008. Realização: Guillermo Arriaga. Com: Kim Basinger, Charlize Theron, Joaquim de Almeida, José María Yazpik, Jennifer Lawrence

12.11.09

Os limites do controlo
















Jim Jarmush leva aqui o seu minimalismo discreto (nos dois sentidos da palavra) e melancólico quase ao nível da abstracção.

O impassível Isaach De Bankolé, assassino contratado, pose à samurai (o de Melville e os outros), vagueia por Madrid, por Sevilha, por uma aldeola andaluza, até finalmente cumprir a sua missão. O seu rosto de pedra, os seus fatos elegantes, os seus rituais (2 cafés em chávenas separadas, as trocas de caixas de fósforos com diversas personagens, etc.) é o que interessa ao realizador. E a fotografia (de Christopher Doyle) e a banda sonora (Boris, Earth, Sunn O))),.. ) dão o tom adequado. O argumento não passa de um vago pretexto.

Jarmush permanece igual a si próprio e não sou eu que me queixarei: cada vez gosto mais dos seus filmes.

The Limits of Control, E.U.A./Espanha/Japão, 2009. Realização: Jim Jarmusch. Com: Isaach De Bankolé, Luis Tosar, Tilda Swinton, John Hurt, Gael García Bernal, Bill Murray, Paz de la Huerta.

8.11.09

Os Irmãos Bloom



















Durante 10 minutos, mais exactamente durante o período em que a personagem de Adrien Brody toma conhecimento com a de Rachel Weisz, pareceu-me estar a ver um filme de Wes Anderson. Pelo próprio Brody, por causa das famílias, dos objectos, do guarda-roupa, do tom melancolicamente excêntrico. E isso é bom, claro. Mas essa impressão foi-se desvanecendo por culpa do realizador: a câmara é muito vistosa e é dada muita importância ao argumento, uma história meia confusa que faz lembrar Guy Ritchie. E isso já não é tão bom, claro.

Tal como os dois irmãos Bloom têm dificuldade em cortar o laço umbilical que os liga, apesar das personalidades opostas, Ruffalo teatral, exibicionista, cheio de ideias, e Brody melancólico, sedutor, recatado, também Rian Johnson não se consegue livrar desta bipolaridade. E tem dificuldade em encontrar o tom certo entre a história de golpes cheia de reviravoltas e a história de amor entre dois desadaptados; em conseguir canalizar alguma da energia dispersa numa realização ostensiva para se concentrar mais na atenção aos pormenores, aos sentimentos.

No meio disto tudo o filme perde-se e Johnson acaba por desbaratar algum do crédito ganho com a sua muito boa estreia, ‘Brick’. Um terceiro filme servirá para tirar as dúvidas sobre o caminho que seguirá.

The Brothers Bloom, E.U.A., 2008. Realização: Rian Johnson. Com: Rachel Weisz, Adrien Brody, Mark Ruffalo, Rinko Kikuchi, Maximilian Schell, Robbie Coltrane.

14.10.09

Deixa-me entrar


Ao fim de 10 minutos a ver 'Deixa-me entrar' já me tinha lembrado tanto de Kaurismaki (andam por lá umas lacónicas personagens secundárias que vieram directamente dos seus filmes) como de Donnie Darko (esta é mais difícil de explicar). E, note-se, estas são duas referências muito caras nesta casa. Começo por aqui para que os mais snobs (e inocentes) não fujam deste texto quando eu falar em vampiros, tema bastante respeitável mas que ultimamente se tornou sinónimo de praga, que vem invadindo cinema e literatura.

É que este filme trata da história de amor, nas belas paisagens suecas, sempre cobertas de neve,  entre um rapaz de 12 anos e uma vampirinha da mesma idade ('tenho 12 anos, mas já tenho 12 anos há muito tempo'). E, surpresa, fá-lo com um romantismo raro. E, extraordinário, com um erotismo tocante - de todo impossível em Hollywood, diga-se (quando se lembrarem de fazer um remake vão ter obliterar esta parte).

'Deixa-me entrar' trata de adolescentes e de amores adolescentes e de diferença como só Gus Van Sant ou Larry Clark (e este só nos seus melhores momentos) o têm feito. Aqui tanto há lugar para momentos de uma ternura surda, como há para uma cena de bullying ao som de 'A flash in the night' (lembram-se?) que termina com membros decepados a voarem. Sim, como em qualquer grande história de amor, aqui também há sangue e violência e vingança (mas não gore nem coisas demasiado explicitas).

Assim de repente, o único defeito que lhe posso apontar é o de por vezes ser demasiado 'bonitinho', de o realizador ser demasiado 'virtuoso', de escolher sempre o ângulo mais original ou o melhor plano (quando a gente repara demais nelas, estas coisas deixam de ser uma virtude). Mas, diga-se, até isso contribui para o grau de estranheza que o filme provoca, pois são elementos de que não estaríamos à espera neste género. Que o tornam ainda mais um objecto estranho. E, certamente, umas das surpresas do ano e um forte candidato a filme de culto.

Låt den rätte komma in , Suécia, 2008. Realização: Tomas Alfredson. Com: Kare Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist.

9.10.09

Distrito 9
















No papel, ‘Distrito 9’ tem tudo para ser um filme de que eu gostaria: uma colónia de extra-terrestres subnutridos, que chega numa nave espacial a Joanesburgo, é colocada num ‘campo de refugiados’ que rapidamente se transforma num ghetto, explorado por uma espécie de máfia local. Embora a alegoria com o Apartheid não seja muito subtil, os ingredientes até me fizeram lembrar uma boa sci-fi série B de outros tempos, com uns toques Carpentianos .

Mas, na prática, esta permissa é rapidamente esbanjada, e por muitos motivos. Desde logo já acho um bocado cansativo o tom de falso documentário que agora está na moda. Não digo que não confira um tom algo angustiante à fita, mas também reforça a sensação de déjà vu e, paradoxalmente, contribuiu para enfraquecer a minha ‘suspensão da descrença’.

Depois, nunca me identifiquei com o ‘herói’, um funcionário da Comissão para os Alienígenas, promovido pelo sogro a responsável pela relocação dos ‘gafanhotos’ (como os ETs são simpaticamente tratados pela população), que é um palerma completo durante meio filme, sendo depois difícil criar empatia com ele.

E, finalmente, o caminho que o argumento toma a partir do momento da transferência dos ditos gafanhotos - e nem falo dos mais que muitos buracos que apresenta; exemplo: porquê tanta obsessão com as armas dos alienígenas, que nem parecem especialmente destruidoras? Bom, a dita transferência, para um local fora da cidade, é conduzida por uma ‘corporation’ paramilitar que entra literalmente a matar e, enfim, penso que já estão a ver o filme... a parábola sobre o modo como o mundo ocidental trata os imigrantes passa agora a mais uma estafada crítica às multinacionais, ao capitalismo, ao militarismo, etc., etc. A partir daqui, confesso, desliguei.

Onde raio se meteu a sci-fi série B que me prometeram no início?

District 9, E.U.A./Nova Zelândia, 2008. Realização: Neill Blomkamp. Com: Sharlto Copley, Jason Cope, John Sumner, Vanessa Haywood, Marian Hooman, David James, Robert Hobbs.

7.10.09

Abraços desfeitos


















Talvez o argumento deste ‘Abraços desfeitos’ enrole um pouco, talvez haja um desequilíbrio entre os dois blocos temporais, o do presente com o realizador cego (imagem já utilizada por Woody Allen, recordemo-nos), e o de 14 anos atrás com a sua paixão por Penélope. Almodóvar é um grande argumentista mas não tem aquela precisão cirúrgica de Tarantino.

Mas depois há planos - de um conjunto de fotografias rasgadas, de uma praia, do rosto de Penélope - que nos fazem sentir mais do que filmes inteiros. Que nos lembram que há um cineasta atrás da câmara. E dos grandes. Daqueles cujos filmes em ritmo de cruzeiro estão acima de quase tudo o que para aí anda.

Los Abrazos Rotos, Espanha, 2008. Realização: Pedro Almodóvar. Com: Penélope Cruz, Rubén Ochandiano, Blanca Portillo, Ángela Molina, Alejo Sauras, Lola Dueñas.

14.4.09

A mulher sem cabeça




Depois de atropelar algo (um cão, um miúdo?), Verónica ‘desliga’. Como que tem um apagão.
Esquece-se das coisas, não se lembra da filha, move-se como um fantasma. Os raios X que faz não revelam nada. Será que o cérebro obliterou algo? Ou o acidente foi apenas o pretexto para saltar de um vida programada, de gestos automáticos e rotineiros? Ou será que não foi o acidente mas a mudança de cor do cabelo? (para loiro, e é impossível não pensar em Madeleine/Judy).

Partindo deste argumento mínimo, Lucrecia Martel regressa aos seus temas de sempre: a alienação, o tédio, a rotina de uma certa classe média/alta argentina. Daí se convocar por vezes Antonioni a propósito da realizadora sul-americana.

Mas só num sentido muito lato a filiação faz sentido, pois o universo de Lucrecia Martel é pessoalíssimo e inconfundível. Embora ao terceiro filme mostre sinais de algum esgotamento. ‘A mulher sem cabeça’ é uma variação de ‘O pântano’ sem o efeito surpresa que este provocava no espectador, e não obstante os seus méritos (desde logo a realizadora filma muitíssimo bem – vejam-se os planos pouco convencionais; ou o som sempre em ‘primeiro plano’) eu senti algum cansaço ao ver o filme, uma sensação de déjà vu que se sobrepôs a tudo o resto.
E presumo que não fosse intenção da realizadora transferir de forma tão directa os sentimentos das suas personagens para o espectador.

La Mujer sin Cabeza, Argentina/México/Itália/Espanha, 2008. Realização: Lucrecia Martel. Com: Mercedes Morán, Maria Onetto, Ines Efron, Claudia Cantero, Cesar Bordon, Daniel Genoud, Guillermo Arengo, Maria Vaner.

7.4.09

Vicky Cristina Barcelona (2)



'Vicky Cristina Barcelona' poder-se-ia chamar sem prejuízo (excepto o da musicalidade do titulo) 'Vicky Cristina Espanha'. Porque são essas as personagens do filme: Vicky, Cristina e Espanha, sendo que Espanha é representada, mais que pelas paisagens barcelonesas, pelas personagens arquetípicas de Javier Barden e principalmente Penelope Cruz. Ele é o artista boémio, galã, mas não machista e ainda nostálgico da ex-mulher. De certa forma, podia ser de outra nacionalidade qualquer. Ela não. Ela representa o cliché da mulher latina de sangue quente, de coração na boca, exaltada, sexy, fervilhante. Só podia ser espanhola.

Eu acho que Woody Allen se deve ter divertido bastante a criar esta personagem estereotipada, que é uma espécie de McGuffin: permite complicar e impossibilitar as relações amorosas entre Bardem/Juan Antonio e Vicky e Cristina, as que verdadeiramente interessam a Woody.


Vicky (que viu abrir-se e fechar-se uma nesga na sua vida pré-programada) e Cristina (a eterna insatisfeita) poderiam ter saído de qualquer outro filme de Allen, fazem parte do seu universo e é a sua história, como o próprio título indicia, que ele quer contar, analisando a sua personalidade fora do seu habitat natural (NY), em Barcelona, neste caso. E para isso serve-se de Barden e de Penelope. Compreendendo isto, a personagem de Penelope Cruz já não me irritou como da primeira vez que vi o filme e vi com outros olhos o desempenho da actriz (que cumpre o que lhe foi pedido: fazer de mulher à beira dum ataque de nervos).

Volto a isto após a revisão do filme, aquele de que mais gostei do que leva até agora 2009, porque aquando do meu primeiro post estas duas meninas chamaram-me simpaticamente de maluco para cima (ou para baixo) por ter menorizado Maria Elena e Penelope. De certa forma mantenho a opinião, mas espero ter-me explicado melhor desta vez.

29.3.09

Um dia de cada vez



Já não é a primeira vez que Mike Leigh foge ao 'realismo social' que o tornou famoso, basta lembrar 'Topsy-Turvy', que misturava vários géneros, da comédia ao musical.

Em 'Happy-Go-Lucky' a fuga ao seu universo da working class inglesa não é tão radical: é certo que nos movemos por entre a classe média (a protagonista é uma professora primária) e que estamos certamente perante uma comédia (muito divertida), mas o olhar analítico e muito humano do realizador mantém-se focado nas suas personagens com uma lente poderosa e próxima.

Poppy é uma optimista profissional, que não deixa que nada nem ninguém estrague a sua disposição. Se inicialmente nos parece irritante e algo tonta, depressa percebemos que é inteligente, sensível e arreigadamente convicta das suas opções: levar o melhor possível a sua vida, sempre com um olhar positivo e uma saudável despreocupação perante as 'responsabilidades'. Quando a irmã mais nova, já casada e grávida, lhe diz que ela tem que deixar de andar em noitadas, assentar, pensar no futuro, fazer planos a médio prazo, Poppy responde-lhe alegremente: 'planos quinquenais como o Stalin?'.

Mas não é só a irmã a sentir-se perturbada com a sua liberdade e independência: o seu instrutor de condução, um homem frustrado, racista, paranóico, solitário, que Poppy trata com a boa disposição habitual, acaba por confundir tudo, acabando por descarregar sobre ela todas as suas frustrações, não conseguindo digerir a saudável anarquia que aquela mulher traz à sua vida medíocre e rotineira.

Mike Leigh quando não se deixa enredar em demasia em argumentos cheios de boas intenções e preocupações sociais, que por vezes o asfixiam, é um óptimo realizador e excelente director de actores, e aqui mostra-se ao seu nível máximo: a Poppy de Sally Hawkins é uma personagem tão inesquecível como a de David Thewlis em 'Naked', e 'Happy-Go-Lucky' tem entrada directa na galeria dos melhores filmes do realizador inglês.

Happy-Go-Lucky, Grã-Bretanha, 2008. Realização: Mike Leigh. Com: Sally Hawkins, Eddie Marsan, Alexis Zegerman, Samuel Roukin, Andrea Riseborough.

23.3.09

Che - O Argentino



Esta primeira parte do díptico que Steven Soderbergh realizou baseado nas memórias do mítico Che Guevara é, não direi apologética, mas demasiadamente respeitadora do mito.

Che é um intelectual brilhante, um guerreiro corajoso e determinado, um médico generoso, um camarada cheio de boas intenções, que quer levar a revolução não só a Cuba mas a toda a América Latina, que não quer o povo escravizado nem perante os Estados Unidos nem perante a União Soviética. É certo que ordena uns fuzilamentos aqui e ali, mas só contra desertores que violam e abusam do povo. Quando às tantas Che fala à jovem Aleida (uma das raríssimas mulheres que se destaca num mundo de guerreiros barbudos) da sua mulher e filha que estão no México, até nos surpreendemos ao pensar que aquele herói melancólico tem família e vida privada.

Não obstante os esforços de Benicio del Toro (impecável), jamais conseguimos penetrar no homem por trás do mito.

Mais interessante, parece-me, é o retrato apenas esboçado, que vai surgindo em fundo, de Fidel, o líder incontestado, respeitado mas temido, que não hesita em despromover o já famoso Che (a quem os populares pedem autógrafos) quando este falha uma operação. Em três ou quatro cenas ficamos a conhecer melhor a sua personalidade (ou a visão que dela tem Soderbergh) do que nas inúmeras cenas passadas nos montes ficamos a conhecer Che para lá do que é a sua imagem pública.

De resto SoderbergH não sabe filmar mal e o naipe de actores é muito bom, mas este monocromatismo do retrato, aliado a uma interminável profusão de cenas repetitivas, retratando o dia a dia da guerrilha pelos montes, tornam esta primeira parte do filme algo maçadora. Embora não o suficiente para me retirar a vontade de ver a segunda, que estreará daqui a duas semanas.

Che: Part One, E.U.A./França/Espanha, 2008. Realização: Steven Soderbergh. Com: Benicio Del Toro, Julia Ormond, Rodrigo Santoro, Demián Bichir, Ramon Fernandez, Yul Vazquez.

13.3.09

Gran Torino



Clint Eastwood tem sido tão (justamente) aclamado como realizador, que por vezes até nos esquecemos do grande actor que ele é. E é essa faceta que nos atrai desde logo em ‘Gran Torino’: se estamos meio filme a rir com uma personagem xenófoba, racista, anti-social, que rosna literalmente perante os vizinhos (‘os chinocas’, ‘os pretos’, etc.), é porque Eastwood nos dá uma composição extraordinária deste Walt Kowalski.

Tal como a miúda asiática sua vizinha, também nós valorizamos mais os pequenos gestos que ele vai tendo (nem sempre com motivações claras) que todos os defeitos apontados. Não conseguimos antipatizar com ele, em suma. Tal como o Padre do bairro (‘um virgem de 27 anos sobre-educado’), também nós cedo percebemos que por trás daquela carapaça dura e irascível está um homem à espera da redenção.

E ela virá, sem grandes subtilezas, que Eastwood não é homem para isso. Tal como nos Westerns, o meio que formou Eastwood, também aqui só há lugar para ambiguidade no lado do herói. De resto há os bons e os maus, ponto final.

É tentador falar dum Dirty Harry envelhecido, mas não estou a ver Dirty Harry com um peso na consciência perante as mortes que tem na sua conta. Walt Kowalski é um outro homem.

Eastwood, esse, continua a dar-nos grandes filmes regularmente (sem pretender entrar na onda de canonização acrítica que sobre ele caiu – ainda não vi ‘A troca’, mas ‘Flags of Our Fathers’ por exemplo, desiludiu-me bastante), e quando alia a sua mestria (tem que se usar a palavra) atrás e à frente da câmara, melhor ainda. E então quando canta no genérico final, da forma que o faz aqui (conferir abaixo, s.f.f.), quase que tenho vontade de chorar. Este homem é insubstituível.

Gran Torino, E.U.A./Austrália, 2008. Realização: Clint Eastwood. Com: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her, Brian Haley, Geraldine Hughes, John Carroll Lynch.