Recent Posts

Showing posts with label curtas Vila do Conde. Show all posts
Showing posts with label curtas Vila do Conde. Show all posts

1.4.10

Canção de amor e saúde


Depois do excelente ‘Rapace’, “Canção de amor e saúde ” foi para mim uma grande desilusão. Esta curta tem semelhanças com a anterior – João Nicolau é um realizador, para não dizer que é um auteur : dá-nos o retrato de uma geração (glup!) através de uma mera personagem; mantém um tom joãocesarmonteiriano e original ao mesmo tempo; e saca da cartola planos fantásticos (a sequência dos créditos iniciais é uma ideia magnifica).

Mas perde a concisão do filme anterior e entra em devaneios escusados e que para mim não fizeram qualquer sentido. Dá a ideia que tinha filme para 10 minutos e resolveu esticá-lo para meia hora, enchendo o tempo com sequências por vezes bonitas mas que esquecem o excelente inicio. Ou, se calhar, o que lhe interessava era filmar essas sequências surreais, os raccords pouco usuais, os planos estranhos, e arranjou uma história à sua volta. Seja como for, nunca me pareceu bater a bota com a perdigota, diluindo-se muita da originalidade que lhe reconheci em ‘Rapace’.

‘Rapace’ parecia um filme da maturidade, ‘Canção de amor e saúde’ parece um filme dum puto talentoso a armar ao pingarelho.
 
(já publicado noutro lado aquando das Curtas de Vila do Conde)
 
Canção de amor e saúde, Portugal/França, 2009. Realização: João Nicolau. Com: Norberto Lobo, Marta Sena, Ana Francisca, Helena Carneiro, Andreia Bertini, Miguel Gomes.

14.7.08

Oliveira em Vila do Conde

Um dos momentos mais fortes que fica da 16ª edição do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Vila do Conde, que ontem terminou, é a homenagem prestada na passada 5ª feira a Manoel de Oliveira, o 'padrinho' do festival, como foi apresentado pelos organizadores.


obrigado à Marta pelas fotos

Foi exibido um curto excerto de uma conversa gravada há alguns anos, no festival, entre Oliveira e Aleksandr Sokurov.



Infelizmente, uma tradutora algo titubeante e um Sokurov nitidamente desconcertado com o que Oliveira lhe dizia ('o mais importante é seguir as leis'), impediu que houvesse grande comunicação entre os dois realizadores. Ou então o excerto escolhido para esta homenagem não foi o mais conseguido...



Seguidamente Oliveira foi convidado a subir ao palanque: ignorou as escadas de acesso e saltou literalmente para o palco, dando a primeira prova da sua extraordinária vitalidade no ano em que completará o seu centenário.

Nas breves palavras que dirigiu ao público mostrou uma vez mais a sua jovialidade e magnífico sentido de humor, prometendo, perante um desafio dos organizadores, que para o ano será apresentada aqui a sua conversa com José Régio (natural de Vila de Conde), cuja fita se encontra mais ou menos abandonada há décadas. 'A questão é só saber se não bato a bota até lá'.

Para terminar foi projectado o seu muito divertido segmento d0 filme colectivo Chacun Son Cinéma, uma curta-metragem muda, narrando um breve encontro entre Krutschev (Michele Piccoli) e o Papa João XXIII (João Bénard da Costa!).

Um grande momento.

Curtas de Vila do Conde

A curta brasileira ‘Muro’, de Tião, foi a vencedora do Grande Prémio Cidade de Vila do Conde 2008. O filme esteve integrado na secção ‘ficção’, mas também não teria ficado mal na ‘experimental’. O seu conteúdo é razoavelmente hermético, alternando diferentes narrativas que se pressupõem alegóricas e carregadas de crítica social (a quê?). Tal como acontece com algumas obras de arte moderna, talvez só um texto do realizador explicando os seus propósitos nos poderia dar mais pistas…
Fãs da curta falaram-me em ‘imagens fortes, poderosas’, mas a mim esteve longe de me convencer, embora quem cá ande há algum tempo o intua logo como filme ‘premiável’.

Em sentido contrário gostei bastante de ‘Love You More’, Prémio UIP/Vila do Conde, da britânica Sam Taylor-Wood, história de descoberta sexual de um adolescente ao som dos Buzzcocks. Em 15 minutos dá-nos todo um retrato de uma época e de uma geração pré-downloads, em que se esperava com fervor pelo single que antecedia o álbum da nossa banda favorita.
Tenho um amigo meu que costuma dizer que estou muito agarrado ao ‘formato canção’, dado o meu desdém por hip-hops e quejandos, e foi esse sabor ‘old fashion’, esse ‘formato canção’, que tanto gostei nesta curta.

Muito acima da média, pareceu-me também ‘Corrente’ de Rodrigo Areias, sedutora e misteriosa curta centrada no rio que banha uma pequena povoação mineira, onde cada um lava as suas ‘sujidades’. Acumulou o triunfo na Competição Nacional, com o Prémio do Público, o que não deixa de ser surpreendente (o público costuma votar em ‘anedotas filmadas’).

O Prémio para a Melhor Ficção foi para ‘The Adventure’, do americano Mike Brune, que parte duma premissa curiosa – a confusão instalada por dois mimos em duas personagens muito ‘americanas’, muito ‘normais’ – mas que acaba por se perder um pouco. Penso que a brecha que abre entre realidade e ficção seria mais matéria de análise para um crítico a la Zizek, que para o cinéfilo comum que termina razoavelmente entediado…


Os vencedores dos restantes prémios sectoriais, não aqueceram nem arrefeceram. O vencedor do Prémio para Melhor Animação, 'RGBXY', do irlandês David O’Reilly, é algo original na forma, com personagens de jogo de computador, mas esse efeito é diluído pela ‘mensagem’ e por um tom geral dejá vu. O mesmo se diga dos vencedores dos prémios para o Melhor Filme Experimental, 'Ah, Liberty!', de Ben Rivers (Reino Unido) e do Prémio para o Melhor Documentário, 'Three Of Us', de Umesh Kulkarni (Índia), competentes e correctos, mas indistintos de tantos outros que têm passado por este festival.
Houve ainda um prémio para um vídeo dos Liars, mas eu de videoclips não falo, nem percebo o que andam aqui a fazer.


Uma última palavra para 'Dennis' do dinamarquês Mads Matthiesen, o filme extra-palmarés que mais gostei (das 3 sessões que vi), discreto retrato da solidão urbana que retoma a história do ‘Homem elefante’ na forma de um acanhado body builder.

16.7.07

Curtas de Vila do conde

O palmarés deste ano das Curtas foi o mais fraco de que me lembro. Pelos vistos houve 2 vencedores do Grande Prémio Cidade de Vila do Conde, CAPITALISM: CHILD LABOR e NYMPH, ambos de Ken Jacobs , mas na sessão de premiados só vi o segundo, uma coisa 'experimental' de meia dúzia de segundos que não faço ideia o que fosse. O Prémio para o melhor Documentário foi para DE FUNCIÓ, uma banalidade de Jorge Tur, e o Melhor filme da Competição Nacional para EUROPA 2007, de Pedro Caldas, um sub-Transe sem um átomo do virtuosismo de Teresa Villaverde. O resto andou pela mediania. Para esquecer.

PS: Não vi sessões suficientes para aferir da qualidade geral dos filmes em competição. Mas é difícil acreditar que não houvesse melhor - aliás eu vi bem melhor. O que me parece é que talvez o palmarés - mormente o prémio principal - seja mais compreensível se atentarmos no perfil do júri: Delfim Sardo (curador de exposições de arte contemporânea), Jean Marc Lalanne (chefe de redacção da revista Les Inrockuptibles) e Christoph Girardet (produtor de filmes, vídeos e instalações de vídeo) .

9.7.07

Death Proof



'Death Proof' é um Tarantino em bruto. O que antes Tarantino polia, filtrava, sugeria, citava, recontextualizava, etc., etc., agora é lá posto e pronto. As piscadelas de olho cinéfilas não são piscadelas de olho, são verdadeiros encontrões: aos road movies série B, aos carros dos road movies série B, ao 'clássico' do género 'Vanishing Point' (citado umas 50 vezes), às cenas à road movie série B; os diálogos à Tarantino são verdadeiras maratonas para lá dos limites (talvez devido ao facto de o filme ter sido 'esticado', depois da sua autonomização do de Rodriguez - embora, diga-se, Tarantino, como Woody Allen, não saiba escrever um diálogo que não seja bom, mesmo quando é mais do mesmo), sendo que aí um terço do filme é uma longa conversa entre as heroínas, principalmente sobre a sua vida sexual.
Entendamo-nos: por muito que Tarantino pretenda imitar (mais que citar, e seria esta a principal diferença de atitude em relação aos seus filmes anteriores) os exploitation movies da sua adolescência, introduzindo inclusive cortes, arranhões, raccords mal feitos, etc., este filme é um Tarantino até ao miolo. Só que menos sofisticado. E certamente não faltará quem lhe torça o nariz, vendo apenas o realizador a parodiar-se a si mesmo (temos direito a uma muito divertida citação a Kill Bill e tudo).
Ou seja, quem admirava a Tarantino mais o virtuosimo, que propriamente as suas referências xunga, talvez não ache grande piada a 'Death Proof'. Quem é mesmo fã do seu universo muito próprio (eu incluído), não pode deixar de se divertir loucamente com este filme, nomeadamente com o extravagante delírio da 'ultima parte', da vingança, que termina mesmo com uma cena de antologia. Eu pelo menos já não me ria tanto desde o episódio das 'Vitimas de incesto anónimas' do Larry David....
Death Proof, E.U.A., 2007. Realização: Quentin Tarantino. Com: Kurt Russell, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito, Jordan Ladd, Rose McGowan, Sydney Tamiia Poitier, Tracie Thoms, Mary Elizabeth Winstead, Zoe Bell, Quentin Tarantino.