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27.10.15

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25.3.15

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21.12.13

13,99€

 To talk of Ophüls then was to meet ignorance or bland assertions that he was a frivolous, romantic director, concerned with decoration rather than content, a stylist for style´s sake, a chronic camera fidget. 
Well, as Richard Roud and my Belgian friend knew then, and I know now, Max Ophüls is one of the greatest of film directors. He is frivolous only if it is frivolous to be obsessed by the gap between the ideal and the reality of love.

David Thomson, The New Biographical Dictionary of Film

17.10.12

12,99€


12.10.12

14,99€

30.11.10

Wish List


(e descobri que o título português de La Jetée é... 'O Pontão'!!!)

18.8.10

A Dança da morte


Um arquitecto (Mervyn Johns) chega a uma casa de campo onde foi chamado para executar um trabalho. Nunca lá estivera nem conhecia nenhum dos convidados, mas reconhece tudo e todos: explica aos presentes que fazem parte de um sonho seu recorrente, de que se vai lembrando aos poucos.

Um deles, um psiquiatra famoso (Frederick Valk), tenta explicar o sucedido racionalmente, mas os restantes acreditam em Johns e para corroborar a sua história contam casos ‘sobrenaturais’ ocorridos com eles próprios.

Estas histórias dentro da história são filmadas por diferentes realizadores dos Ealing Studios e têm diferentes escritores, havendo assim uma engenhosa variação do filme em sketchs. Umas entram mais pelo sobrenatural puro (como ‘The Haunted Mirror’, realizada por Robert Hamer, autor do clássico ‘Kind Hearts and Coronets’), outras no campo da comédia (como a muito divertida ‘Golfing Story’ escrita por H.G. Wells e realizada por Charles Crichton –que 43 anos mais tarde realizaria ‘Um peixe chamado Wanda’), mas mantêm todas uma coerência 'visual' e de qualidade assinalável. A própria 'história de continuidade', da qual as outras vão brotando, é excelente.


A cereja no topo do bolo é o famoso episódio ‘The Ventriloquist's Dummy’, realizado pelo brasileiro Alberto Cavalcanti - que filmou quer em Inglaterra quer em França durante muitos anos - em que um ventríloquo (Michael Redgrave) acaba possuído pelo seu boneco. Uma obra-prima por direito próprio, inserida num magnífico filme, que prova que houve vida no cinema inglês para além de Hitch e Michael Powell.

P.S: Comprei este dvd num hipermercado Jumbo por menos de 2 euros...!

Dead of Night, Inglaterra, 1945. Realização: Alberto Cavalcanti (segmentos "Christmas Party" e "The Ventriloquist's Dummy"), Charles Crichton (segmento "Golfing Story"), Basil Dearden (segmento "Hearse Driver" e "Linking Narrative"), Robert Hamer (segmento "The Haunted Mirror").

26.3.10

Fernando Lopes, Provavelmente

Fernando Lopes é o autor de um dos grandes filmes do cinema português: 'Belarmino'. Além disso, é uma personalidade que vale muito a pena conhecer: natural da Várzea, fugiu ao destino de lavrador, como nos diz, de trabalhar com a terra, para trabalhar com sons e imagens. Além de cineasta foi também director do 'Cinéfilo' - importante revista de cinema que hoje talvez poucos conheçam - e era uma 'personagem' lisboeta, de uma altura de muitas personagens lisboetas; é, ainda, um excelente conversador, com uma bela voz, calorosa, algo tímida, simpática. Dar-nos então a conhecer melhor Fernando Lopes torna este documentário precioso.

Porque de resto me parece que o realizador João Lopes - conhecido e estimável critico de cinema - falha um pouco o tiro. Tenta fugir ao previsível - o habitual documentário que segue cronologicamente a obra do autor através de imagens e comentários de amigos/colaboradores - centrando-se (e bem) nas palavras do realizador. Mas, na tentativa de evitar o óbvio, cai no extremo oposto e o filme é algo confuso, disperso, aleatório. Quem não conhecer a obra de Fernando Lopes também não é por aqui que a ficará a conhecer. Uma pessoa deixa-se levar agradavelmente pelas palavras do realizador, mas falta um enquadramento a essas palavras. E a realização também não ajuda, não evitando cair numa série de lugares comuns e por vezes tendo mesmo um aspecto estranhamente amador (o som, por exemplo, é francamente mau).

Nos extras do dvd há que salientar um magnífico depoimento de Baptista Bastos sobre o seu amigo Fernando Lopes, sobre Belarmino e sobre a Lisboa da época. Dá-nos, precisamente, o tal enquadramento que falta ao filme.

Fernando Lopes, Provavelmente, Portugal, 2008. Realização: João Lopes. Documentário.

20.3.10

2 dias em Paris

Reparei, ao passar num quiosque, que está à venda por 1€94, cortesia do Público, o excelente '2 Dias em Paris', a estreia na realização de Julie Delpy, que pode ser vista como um prolongamento da sua personagem de 'Antes do Amanhecer' e 'Antes do Anoitecer'. O que seria feito dela, na hipótese de não ter ficado com Ethan Hawkes.

É uma relação preço/qualidade absurda. Aproveitai, pois então.

26.1.10

Descubra a diferença















Pack Pier Paolo Pasolini

Colecção Pasolini



Solução: A diferença são 44,44€. E  ainda leva de bónus, além da 'Trilogia da vida', 'Porcile' e 'Ostia'.

15.12.08

Notas Breves #3



Verão violento
Comecei a atacar a caixa Valerio Zurlini por aqui (e vou seguir a ordem cronológica). Não sei porquê, do que li sobre Zurlini (pouquíssimo), estava à espera de algo na onda de Antonioni, mas ‘Verão violento’ tem pouco de Antonioni.

Roberta (Eleonora Rossi Drago), a jovem viúva que descobre pela primeira vez o amor na pessoa de um rapaz dez anos mais novo (Carlo/Jean-Louis Trintignant), poderia ser a priori uma personagem de Antonioni, mas o modo como esse amor é tratado e retratado, um amor excessivo, violento, exposto, tem mais a ver, parece-me, com a tradição melodramática americana. De resto, o tempo do filme, a sua fotografia, o mostrar o Verão, a juventude, a vida fácil desta com a guerra ao lado, os ciúmes de Rosanna por Roberta e a sua antipatia por tabela por Maddalena, tudo me pareceu extraordinário, belo, original.

Pensei em ver restantes filmes da caixa de enfiada, mas depois achei que precisava de ter calma, de dar tempo - não é todos os dias que se descobre um cineasta deste tamanho.
Estate Violenta, Valério Zurlini, 1959 (9,5/10)

17.8.08

Margot e o casamento



Noah Baumbach é o realizador de um dos melhores filmes de 2006, 'A lula e a baleia', e co-argumentista com Wes Anderson de um dos melhores de 2005, 'The Life Aquatic with Steve Zissou', realizado pelo último. Apesar disso, e de contar no elenco com nomes como Nicole Kidman, Jennifer Jason Leigh, Jack Black e John Turturro, a distribuidora portuguesa resolveu lançar 'Margot e o casamento' directamente em vídeo, sem passar pelas salas. Deve ser devido ao excesso de filmes de qualidade em exibição no grande ecrã... Adiante.

Se Wes Anderson é o génio excêntrico, Baumbach é o melhor aluno da turma. Anderson só faz dois tipos de obras: obras nota vinte e obras inclassificáveis (às vezes simultaneamente). Baumbach não tem obras nota 20 (para já), mas também nunca tem menos de 16. É um excelente argumentista, um realizador talentoso, e escolhe e dirige optimamente os seus actores.

Aqui, anda uma vez mais à volta de famílias disfuncionais, tratando do reencontro de duas irmãs muito diferentes: uma (Nicole Kidman, excelente) é paranóica, mandona, não se consegue decidir entre o marido e o amante, e tem uma relação possessiva com o filho adolescente; a outra (J.J.Leigh) é mais destrambelhada, menos confiante, tem uma relação de amor-ódio com a irmã, e vai-se casar pela segunda vez com um freak (Jack Black) que não faz nada na vida (ou melhor, escreve cartas para jornais). Um universo que não anda nada distante do de Wes Anderson, mas que é mais controlado, menos extravagante, mais filme-de-actores-e-argumento e menos filme de ideias (narrativas e visuais) excessivas e delirantes. Baumbach é uma espécie de Anderson sem os delirios de Anderson. E, parece-me, sem o génio atrás da câmara de Anderson.

Porventura será injusta esta comparação, uma vez que ele faz óptimos filmes - e este não é excepção - e o melhor será o leitor/espectador concentrar-se neles, que não dará o seu tempo por mal empregue.

Margot At Wedding, E.U.A., 2007. Realização: Noah Baumbach. Com: John Turturro, Jennifer, Jason Leigh, Jack Black, Nicole Kidman, Zane Pais.

18.6.08

Corações na penumbra



Este filme é o resultado de uma luta constante entre a força da peça de Tenessee Williams, que adapta, e as limitações do realizador Richard Brooks. Nestes casos, é sempre o mais fraco que triunfa.

Não que seja um mau filme. Basta o que fica da peça. Basta o par Geraldine Page/Paul Newman. Mas é inevitável o travo a desilusão. Quem ainda pensa que o realizador é só mais uma peça na engrenagem - com um peso igual ao do argumento ou ao dos actores - tem aqui uma vez mais um exemplo que o nega.

Só de pensar no que Kazan ou Mankiewicz fariam com esta matéria-prima...

Sweet Bird of Youth, E.UA., 1962. Realização: Richard Brooks. Com: Paul Newman, Geraldine Page, Shirley Knight, Ed Begley, Rip Torn, Mildred Dunnock, Madeleine Sherwood.

1.5.08

TwentyNine Palms



Godard disse que a partir de 'Viagem a Itália' os cineastas pereceberam que bastava um casal e um carro para haver matéria para um filme. Bruno Dumont pega nesta máxima, junta-lhe a tradição americana do road movie, e põe um casal a percorrer os desertos da Califórnia.
Durante 1h30 não se passa 'nada'. Nada a não ser os membros do casal a discutirem, a declararem-se apaixonados, a fazerem sexo (filmado de um modo mais ou menos explicito), a perderem-se na vasta paisagem americana, personagem de tantos filmes.
Dumont gere este tempo e este espaço com mestria e durante muito tempo parece-nos que é apenas isto que ele pretende: filmar as oscilações de uma relação, mostrar-nos as irritações que vão aparecendo, deixar o tempo passar e mostrar o desgaste que ele provoca.
Mas às tantas começam a aparecer sinais de as coisas não vão acabar bem - e quem não gostar de spoilers pode ficar-se por aqui e ir ver o filme.
Entranha-se uma espécie de pressentimento no espectador de que o ar está inquinado, que as despreocupações acabaram - mérito uma vez mais para o realizador, que instala esta tensão a partir de quase nada. E de facto, o filme dá uma volta tremenda e proporciona-nos uns 20 minutos finais brutais, dementes e desconcertantes. Como se tudo o que estivesse antes não fosse mais do que um prólogo para este clímax sinistro.
Não sendo uma obra-prima, 'TwentyNine Palms' é um filme que se distingue claramente da mediania e vale a pena descobrir através dele Bruno Dumont, realizador francês várias vezes premiado em Cannes, mas que não me lembro de ver nas salas portuguesas.
TwentyNine Palms, França/Alemanha/Estados Unidos, 2006. Realização: Bruno Dumont. Com: Katerina Golubeva, David Wissak. Edição DVD 2008 - Atalanta - Fnac.

4.10.07

Uma viagem com Martin Scorsese pelo cinema americano (1/2)




O adjectivo 'pessoal' é a chave do título original ('A personal journey ...') desta magnifica viagem pelo cinema americano, pela mão do seu maior realizador em actividade: Martin Scorsese. Como o próprio diz, o seu objectivo é falar dos filmes que o fizeram tornar-se realizador, que incluem grandes clássicos, claro, mas também filmes hoje esquecidos.

Scorsese começa esta viagem com um filme que viu com a sua mãe quando tinha 4 anos e que o fascinou até hoje. Foi realizado por um dos pioneiros de Hollywood, King Vidor, mas como era costume à época, tratava-se de um projecto pessoal do produtor (que se fartou de interferir na realização até o realizador bater com a porta), o famoso e temperamental David O. Selznick. Esse filme chama-se...'Duelo ao Sol'.

O que mais impressiona neste documentário é a simplicidade com que o realizador nos transmite a sua imensa erudição fílmica, a sua cinefilia, ora mostrando extractos de filmes, ora comentando-os, ora dando a voz aos seus realizadores (Frank Capra, Billy Wilder, Howard Hawks, etc.). Um olhar pessoal fascinante e que contagia. A própria estrutura do documentário é muito interessante, fugindo à 'história do cinema' típica. Scorsese começa por analisar o 'Dilema do realizador', ou seja o compromisso necessário entre a sua expressão pessoal e as pressões comerciais, no fundo o combate entre o realizador e o produtor (e hoje com os executivos das multinacionais donas dos estúdios). Fala-nos do alto preço pago por aqueles que não aceitaram este compromisso (Eric Von Stroheim, Buster Keaton), daqueles que se encaixaram perfeitamente neste sistema (por exemplo, 'Casablanca' foi o 63º de 85 filmes feitos por Michael Curtiz para a Warner!) e ainda daqueles que criaram um estilo próprio tão forte que se tornaram eles próprios um trunfo dos estúdios, tendo direito a ter o nome antes do título do filme (Capra, DeMille, Hitchcock).

Sempre apoiado em comentários inteligentes e pertinentes a filmes que ama, Scorsese guia-nos a seguir pelos filmes de género, a base do studio system, e nomeadamente pelos 3 géneros 'indigenas', que considera os mais interessantes: o western (Ford, claro, mas também Antony Mann ou Boed Buticher), o filme de gansters (de 'Scarface' ao 'Padrinho') e o musical (destaque para Busby Berkley e Minnelli, um nome a que Scorsese volta sempre).

No capitulo seguinte, 'O realizador como ilusionista', Scorcese fala-nos de como o cinema americano se emancipou com D.W.Griffith, tornando-se uma forma de arte por direito próprio, deixando de ser um parente pobre do teatro. Segundo a sua opinião foi nos grandes épicos da década de 10 e inicio de 20, de Griffith ou DeMille, que se experimentaram e descobriram todas as 'ferramentas' que os realizadores usariam daí em diante. No final da década de 20, com 'Aurora' de Murnau ou 'A hora suprema' de Borzage, 'a arte da pantomima' atingira o seu auge. Mas então, chegou o sonoro.
(to be continued)

19.9.07

Ten Minutes Older



Um grupo de produtores teve a ideia de desafiar 15 cineastas reconhecidos, todos mais ou menos da área 'independente', a fazerem um sketche de 10 minutos cada sobre 'o tempo' - tendo este como ponto de partida, como mote. O filme foi dividido em duas partes, 'The Trumpet' e 'The Cello' - sinceramente não percebi bem a distinção entre as duas, mas diria que a qualidade global da primeira é bastante razoável, a da segunda nem tanto, o que, digo eu, não espanta tendo em conta os respectivos realizadores: Aki Kaurismäki, Víctor Erice, Werner Herzog, J. Jarmusch, W. Wenders, Spike Lee, Kaige Chen versus B.Bertolluci, M.Figgis, Jiri Menzel, I.Szabo, Claire Denis, V.Schlondorff, Michael Radford, Jean-Luc Godard.

Não 0bstante o bom sketche de Jarmush, com Chloe Sevigny a fazer de melancólica movie star, na primeira parte, 'The trumpet', destaca-se claramente 0 segmento de Wim Wenders, 'Twelve Miles to Trona', que é seguramente o seu melhor trabalho em muitos anos. É um feliz regresso à paisagem americana, ao imaginário americano de 'Paris-Texas', trocando Ry Cooder pelos Eels, e o opaco Travis/Harry Dean Stanton por um intoxicado Bill/Charles Este. Este está a sofrer alucinações e os seus delírios fundem-se com a paisagem e com o imaginário on the road de muita literatura americana. Simples e marcante.

Na segunda parte, 'The Cello', dois destaques. O primeiro para o surpreendente 'One Moment', de Jirí Menzel (o autor do 'clássico' 'Closely Watched Trains'): trata-se de um estranho exercício sobre a memória, em que vemos uma personagem que vai recordando imagens, cenas, aparentemente do seu passado. Sob a música apaziguadora de Leos Janacek vamos assistindo a diversas sequências que não percebemos bem, parecem tiradas de filmes... e são mesmo. Deduzimos às tantas, e confirmamos no genérico, que são imagens de arquivo do actor Rudolf Hrusínský. O efeito é bastante raro, parece que acabámos de assistir a um filme mudo sem lógica aparente.
Finalmente referência para o último segmento, 'Dans le noir du temps', de Godard. Daquela maneira que só ele sabe, combina imagens de diversos filmes, incluindo vários seus, com extractos de Virginia Wolf e Wittgenstein, e música de Arvo Part... O resultado é um magnético exercicio poético e cinéfilo.

E será por acaso, que num filme cujo mote é o tempo, os 3 mais interessantes exercícios recorram à citação e, mais ainda, à auto-citação?

2.9.07

Bianca/A missa acabou



Faço parte uma geração de cinéfilos que descobriram Nanni Moretti com 'Querido diário' (1993), o filme em que a sua persona deambula pelas ruas de Roma primeiro (incluindo uma visita ao lugar onde Pasolini foi assassinado), por umas ilhas paradisíacas depois, terminando a perorar sobre médicos e doenças. Esta obra (já a sua oitava longa metragem) é, aliás, uma boa maneira de sermos introduzidos à sua filmografia, pois estão aqui reunidas muitas das marcas mais idiossincráticas do realizador italiano, mormente a personagem principal, sempre interpretada pelo próprio e que em todos os filmes anteriores já era um seu alter ego, aqui é... Nanni Moretti himself. Um Nanni Moretti obsessivo, hipocondríaco, hiperactivo, empenhado, indignado, inteligente, magnifico observador. Com excepção de Woody Allen, não haverá mais nenhum realizador que tenha criado uma persona tão vincada junto dos espectadores, que identificam completamente a personagem com o seu criador, simultâneamente intérprete e realizador (Woody Allen já chegou inclusive a um ponto em que identificamos imediatamente a personagem-Woody Allen mesmo quando ela já não é interpretada por ele).
'Abril', o filme que se seguiu, é uma espécie de episódio suplementar de 'querido Diário', continuando e refinando o falso registo autobiográfico da personagem Nanni Moretti. Basicamente quem gosta de um, gosta do outro.

Não por acaso, o primeiro filme de Moretti de que não gostei, foi aquele em que não associei a personagem de Moretti a Moretti - falo de 'O quarto do filho', pesada e aborrecida análise da dor de um homem que perde o filho. Moretti sai do seu elemento, torna-se 'sério' e falha redondamente, na minha opinião.

Mas voltemos atrás: saíram agora em dvd, pela Midas (que está a construir um excelente catálogo) Bianca (de 1984) e 'A missa acabou' (de 1985), as suas quinta e sexta longas metragens. Em 'Bianca', pela quarta vez em cinco filmes, Moretti interpreta o seu alter ego Michele Apicella, neste caso um professor com um comportamento obsessivo, que não consegue desistir de observar e interferir na vida dos seus amigos, não conseguindo aceitar as suas traições, infidelidades, as suas imperfeições muito humanas. Michelle/Moretti é irritante, obsessivo, metediço, paranóico (apaixona-se por Bianca, mas acaba por não se querer envolver com ela, porque um dia dali a 10 anos ela poderia conhecer outro e deixá-lo), mas identificamo-nos totalmente com ele. Essa identificação é tal que João Bénard da Costa diz que nos recusamos a aceitar que ele é um assassino (devo referir que quando o filme terminou a minha firme convicção era que Michele de facto não era o assassino). Em 'A missa acabou' a personagem principal é Don Giulio, um jovem padre que volta à terra natal, abandonando o realizador Michele Apicelli, mas não o facto de dar corpo a um seu alter ego. Mais uma vez as principais características da sua personagem são a indignação, o comportamento obsessivo, a irritação com o estado do mundo em geral e com os seus amigos e família, em particular. Um amigo tornou-se terrorista e foi preso; outro desistiu da vida e fica em casa sem fazer nada; o pai arranjou uma amante mais jovem e deixa a mãe; a irmã quer fazer um aborto; etc, etc. Giulio não chega ao ponto de os assassinar (afinal é padre!), mas exaspera-se por as coisas serem como são e não como ele gostaria que fossem.

Ambos são filmes magníficos, idiossincráticos, revelando um jovem realizador de trinta e poucos anos já no auge das suas capacidades, criador de um universo próprio e inimitável. Gosto muito de 'Querido Diário' e 'Abril', mas estas obras da juventude são-lhes superiores, mais poderosas e inquietantes. A não perder, muito especialmente por quem só conhece o último Moretti.

PS.: Outra boa notícia é que a Midas vai lançar brevemente Ecce Bombo (1978), Sogni D’oro (1981) e Palombella Rossa (1989). E, diga-se, com preços que não sendo propriamente baratos, para o mercado português até são sensatos.

26.7.07

Ichi, o assassino



Segundo o IMDB, Takashi Miike, desde a sua estreia em 1991 já realizou mais de 70 filmes! São na sua maioria OVs, ou seja filmes de baixo orçamento feitos especificamente para o mercado vídeo. Há meia dúzia de anos foi descoberto na Europa como autor, e os seus filmes têm passado em festivais como Sitges ou mesmo Cannes. Eu próprio descobri-o há anos no Fantasporto com 'Audition' (por cá também conhecido como 'Anjo ou Demónio'), que se tornou um filme de culto e é geralmente considerado a sua obra-prima.
De um modo geral os seus filmes não se destinam a almas sensíveis, e este 'Ichi, o assassino' é mesmo de uma sanguinolência atroz. Vai o filme a um quarto e já perdemos a conta aos métodos de tortura empregues e às personagens assassinadas, já para não falar nas cabeças e membros decepados... Às tantas entra-se mesmo na lógica desenho animado (aliás o filme é baseado numa manga) e os magotes de sangue e mortes a metro já nem impressionam ninguém.
Impressiona mesmo é a destreza do realizador, que usa magistralmente os escassos meios ao seu dispor (e a partir de um argumento algo idiota), conseguindo através de uma magnifica montagem, de um uso virtuoso da câmara e de uma fotografia carregada, fazer-nos esquecer que estamos perante um yakuza série B, criando um ambiente muito peculiar e envolvente, que não exclui alguns momentos de uma estranha e melancólica beleza no meio da violência e amoralidade reinantes.
Se fossemos distinguir 'forma' e 'conteúdo' (algo sempre problemático, mas simplifiquemos), só poderíamos dar nota máxima a Miike na 'forma'. Quanto ao 'conteúdo', já se sabe - está longe de ser para todos os estômagos.
Koroshiya 1/Ichi the Killer, Japão/Hong Kong/Coreia do Sul, 2001. Realização: Takashi Miike. Com: Tadanobu Asano, Nao Omori, Shinya Tsukamoto, Paulyn Sun, Susumu Terajima, Shun Sugata.

18.7.07

O miar do gato


Kirsten Dunst como Marion Davies e Eddie Izzard como Charlie Chaplin

'O miar do gato' é um filme feito por um cinéfilo para cinéfilos. Bogdanovich retoma um escândalo do tempo do mudo: a misteriosa morte de Thomas H.Ince, um dos pioneiros do cinema americano juntamente com D.W.Griffith e Cecil B. DeMille, após uma viagem pela costa californiana a bordo do iate de William Randolph Hearst em Novembro de 1924. Além de Ince, também se contavam entre os convidados do magnata dos media, Marion Davies, sua amante e actriz (e inspiradora da cantora de ópera Susan Alexander em 'Citizen Kane'), Charlie Chaplin, a escritora Elinor Glyn, e a jovem colunista de gossip Louella Parson.
O que se passou então permanece desconhecido, sabendo-se apenas que Ince foi retirado do barco em S.Diego e morreu 2 dias depois, de 'ataque cardíaco após violenta indigestão', segundo a versão oficial.
Embora o o longo braço de Hearst tudo tenha abafado, desde a altura que surgiram diversos rumores, quase todos apontando ou Hearst ou Chaplin como o assassino. Bogdanovich apresenta uma versão ligeiramente mais rebuscada (como diriam no IMDB, atenção - spoiler!): Ince foi atingido por um tiro na cabeça, disparado por Hearst que o confundiu com Chaplin que, não obstante ter acabado de engravidar a jovem actriz de 16 anos do seu filme em rodagem -'A quimera do ouro', andava a namoriscar Marion.
Este foi apenas um dos inúmeros escândalos da época do mudo, que vão desde a acusão de violação e homicídio de uma jovem actriz imputada ao comediante 'Fatty' Arbuckle (que acabou com a sua carreira, apesar de ele ser quase de certeza inocente), passando pelo escandaloso divórcio de Mary Pickford e Douglas Fairbank, até ao simbólico suicídio da actriz Peg Entwistle que se atirou da letra H da famosa inscrição 'Hollywood' no dia 8 de Setembro de 1932. Como é sabido, o resultado desta onda de escândalos foi a autocensura de Hollywood, definida no famoso 'código de produção Hayes'.
Voltando ao filme, 'O miar do gato', estando longe do melhor Bogdanovich (como a nostálgica obra-prima 'The last picture show'), vale ainda assim pelo seu argumento, pela sua visão, aqui apesar de tudo mais divertida e carinhosa que nostálgica, dos primórdios de Hollywood, da sua riquissima história que Bogdanovich conhece melhor que ninguém.
The Cat's Meow, E.U.A., 2003. Realização: Peter Bogdanovich. Com: Kirsten Dunst, Cary Elwes, Eddie Izzard, Edward Herrmann, Joanna Lumley, Jennifer Tilly.

31.5.07

O emprego do tempo



O affair Romand é um daqueles casos fascinantes em que a realidade ultrapassa a ficção.
No dia 9 de Janeiro de 1993, Jean-Claude Romand, um respeitável pai de família, médico na OMS, matou a tiro a mulher, os 2 filhos e os pais, tendo em seguida tentado suicidar-se. Quando as autoridades começaram a investigar o caso, descobriram que toda a vida deste homem era uma gigantesca e inacreditável farsa: não era médico (nunca chegou a acabar o curso) e não trabalhava na OMS nem em qualquer outro lado: pura e simplesmente passava os dias em parques de estacionamento ou a deambular de um lado para o outro... Sobre o pretexto de investir o dinheiro em Genebra, recebia dinheiro do sogro e depois da amante, e era assim que sustentava a família, que não suspeitava de nada (nem sequer a mulher). Quando a situação se tornou insustentável e estava prestes a ser desmascarado (depois de quase 2 décadas de logro!), levou então a cabo toda esta mortandade.

Baseando-se nas investigações sobre este caso e na correspondência trocada com Romand, entretanto a cumprir pena de prisão perpétua após a gorada tentativa de suicídio, o escritor, argumentista e realizador Emmanuel Carrère escreveu um livro fascinante, uma espécie de 'romance de não ficção' a la Capote, intitulado ‘O adversário’. Em 2002 surgiu o filme homónimo de Nicole Garcia, muito fiel ao livro, e que proporcionou uma espantosa interpretação a Daniel Auteuil, no papel do melancólico e ausente Jean-Claude.

Mas o primeiro filme a basear-se neste caso foi ‘O emprego do tempo’, de 2001, que é na realidade uma variação do tema. É muito menos fiel aos factos reais (a personagem não é um médico e o final da história é completamente diferente, deixando algo perplexo quem a conhece), mas paradoxalmente, se não o soubéssemos, considerá-lo-íamos mais verosímil. Enquanto em 'O adversário' Romand vive toda a sua vida adulta na mentira, sem saber muito bem porquê (contou que uma vez, na faculdade, faltou a um exame e disse depois que tinha passado; a partir daí nunca mais voltou à 'realidade'), neste filme a questão é pegada de outra forma. Vincent é despedido e não quer ou não tem coragem de o contar à mulher. Diz então que se despediu e arranjou outro emprego. Nos meses que se seguem percorre a trajectória que conhecemos: os dias vazios, o alheamento, a mentira, os pequenos embaraços e humilhações a que vai sendo sujeito.

Cantet transpõe perfeitamente esta história para o seu universo (é também o autor de 'Recursos humanos', que faz par com 'O emprego do tempo' na edição da Atalanta) e, não obstante já ter lido o livro de Carrère e visto o filme de Garcia, senti-me outra vez invadido pela estranha melancolia que esta personagem uma vez mais inspira. Nunca ficamos indiferentes perante pessoas que passaram para o outro lado, que um dia deixam de se sentir integradas na máquina.
L'Emploi du temps, França, 2001. Realizador: Laurent Cantet. Com: Aurélien Recoing, Karin Viard, Serge Livrozet, Monique Mangeot.