Os meus começos foram modestos. Tendo vivido numa pequena cidade do interior até aos 18 anos (e continuando a passar lá largas temporadas durante os 5 anos seguintes), para além da TV (2 canais) só havia duas hipóteses de ver filmes: ou ir ao cinema local, o Spock (1 sala, claro) ou recorrer ao clube de vídeo, o Felina (mais tarde abriu também o Charlot). Escusado será dizer que não havia Internet: nada de Amazons nem de emules. Certamente que já havia critica de cinema nos jornais, mas sinceramente não me lembro; se havia, eu não a lia. Não tinha qualquer ideia do que fosse isso de cinefilia e se clássicos via eram os que passavam na televisão, talvez uns Hitchcocks ou uns westerns (infelizmente a minha memória para estas coisas é muito má – admiro profundamente aquelas pessoas que se lembram do primeiro filme que viram, aos 4 anos). Assim sendo, e uma vez que o Spock não ia muito além dos Karates Kids (que se podiam eternizar em cartaz), a solução era vasculhar o Felina, escolhendo eu os filmes basicamente ao calha.O único sintoma da cinefilia que estava para vir, penso eu, era o facto de sempre ter preferido rever um filme de que havia gostado do que andar atrás da ‘última novidade’ (relativa, claro está; os filmes deviam chegar à terrinha com uns 6 meses de atraso).
O filme que mais vezes vi por essa altura, o que acabava sempre por trazer quando nada mais me agradava na visita ao Felina, era ‘The Hot Spot’, que por cá recebeu o encantador título ‘Ardente sedução’. A fita é realizada por Dennis Hopper, de quem eu na altura de certeza nunca ouvira falar, devendo-se provavelmente o meu critério de selecção ao facto de a star ser Don Johnson, à época bastante famoso devido a Miami Vice (série que, diga-se, pouco tinha a ver com o excelente filme de Michael Mann).
Nunca mais vi o filme até hoje, mas tenho a certeza de que se o revisse ainda gostaria dele. Embora eu não o soubesse, ‘The Hot Spot’ é uma espécie de neo-noir. Don Johnson é Harry Madox (hélas!), um vigarista de segunda classe, sedutor, misterioso e vivaço, que vai parar a uma terriola no meio de nenhures, na América profunda. Aí arranja emprego num stand de automóveis, mas o que tem debaixo de olho é o banco local. Claro que uma ave rara destas em tal lugarejo depressa arranja sarilhos com saias, e Madox quando dá conta está dividido entre duas mulheres: uma é a mulher do seu patrão (Virginia Madsen, que só revi recentemente em Sideways), sedutora, manipuladora, feita da mesma massa que ele – uma perfeita femme fatale, em suma; a outra é a inocente e virginal contabilista da empresa, uma muito jovem e bela Jennifer Conelly, num dos seus primeiros papéis - reconheço desde já que se devia a ela muito do encanto que para mim este filme tinha (aliás abro um parêntesis para dizer que os únicos sítios onde este filme hoje em dia é lembrado é em sites tipo Mr.Skin, devido ao” great up-close on her breasts”) . Sendo, como já disse, um film noir, está bem de ver qual das duas ganha a batalha pelo bom do Madox…
Dennis Hopper só realizaria mais uma longa-metragem, a carreira de Don Johnson no cinema nunca chegaria a arrancar, Virginia Madsen entrou numa espécie de limbo até anos recentes e apenas Jennifer Connelly partiria para voos maiores. Mas aqui tudo bateu certo e a química foi perfeita. Não há filme de que eu tenha mais memórias.
Dennis Hopper só realizaria mais uma longa-metragem, a carreira de Don Johnson no cinema nunca chegaria a arrancar, Virginia Madsen entrou numa espécie de limbo até anos recentes e apenas Jennifer Connelly partiria para voos maiores. Mas aqui tudo bateu certo e a química foi perfeita. Não há filme de que eu tenha mais memórias.
The Hot Spot, E.U.A., 1990. Realização: Dennis Hopper. Com: Don Johnson, Virginia Madsen, Jennifer Connelly, Charles Martin Smith, William Sadler, Jerry Hardin.
