Recent Posts

24.3.06

Uma História de Violência



Tem-se dito a propósito deste filme que não parece um filme de Cronenberg. Eu concordo na medida em que ao ver o filme me foram passando vários realizadores pela cabeça, mas nunca o próprio Cronenberg. Na 'primeira parte' do filme, chamemos-lhe assim, pareceu-me que estava perante uma versão contemporânea de um tema clássico dos velhinhos westerns: um homem aparentemente normal mas que um acontecimento excepcional força a revelar uma faceta oculta e nos faz suspeitar de um passado misterioso. Depois na 'segunda parte', quando faz a viagem para fora da sua terra, uma sucessão de realizadores começou a vir-me à cabeça: Lynch (o encontro no bar), Kubrick (na viagem até à casa onde é levado), Tarantino (ou mais precisamente, uma paródia a Tarantino, em todas as cenas dentro da casa) e, no final, Spielberg. Só refiro isto para mostrar a minha dificuldade em 'encaixar' o filme, quer na obra de Cronenberg quer onde quer que seja. Para já, digo apenas que há muito tempo que não me sentia tão agarrado a ver um filme.
'Uma História de Violência' pode ser visto muito para além da sua visão mais imediata, como o título original deixa entrever. É, antes de mais, um filme sobre a contaminação pela violência. Quem entra no seu círculo, no seu raio de acção, nunca mais se consegue libertar dela. Tom Stall (Viggo Mortensen), desde logo, mas também a sua família, o seu filho e a sua mulher. O modo como o filho de Tom passa da ironia como arma de defesa, ao uso dos punhos, não pode deixar de ser visto como uma acção do pai, quer seja pelo seu 'exemplo' (involuntário) quer seja mesmo pelos genes! E que dizer da reacção da sua mulher (magnifica Maria Bello, que impregna o filme com um erotismo incomum) perante o seu 'novo' marido? Da sua mágoa, mas também da sua atracção (sexual) pelo homem capaz de violências insuspeitas - a fortíssima cena das escadas....? E dos seus conterrâneos, que o transformam num herói? Não é possível estar cara a cara com a violência e voltar atrás, voltar a ser inocente por assim dizer. Metáfora mais lata, aplicável a sociedades ou governos? Talvez, mas para mim verdade mais interessante quando aplicada ao individuo. A cena em que Tom sai da casa e se vai lavar no lago é crucial. Significa um 'baptismo' que inicia uma nova vida? Uma purificação para continuar em frente? Mas se 3 anos no deserto não foram suficientes, como poderá sê-lo este gesto? Tom é acolhido de volta ao lar, sem dúvida, mas o lar já não é o mesmo do inicio do filme e, significativamente, quem o reintegra é a única pessoa que permanece inocente.
Em Março está já encontrado o filme do ano? Suspeito bem que sim...
A History of Violence, E.U.A., 2005. Realização: David Cronenberg. Com: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt, Ashton Holmes, Heidi Hayes, Peter MacNeill, Stephen McHattie, Greg Bryk.

6 comments:

Xispinha said...

Caríssimo, o filme é efectivamente magnífico, por mais razões do que as que poderei aqui explanar, mas a foto escolhida para o ilustrar, se bem que inspirada em, não está incluída no filme (que eu me recorde, e recordo-me bastante bem de qualquer frame em que entre o Viggo Mortensen...).

Unknown said...

Caríssima, tem razão, não está mesmo! Era um teste para ver se os leitores estão atentos...

Antonio said...

Extraordinário filme talvez mesmo o melhor que Cronenberg já fez o que não é dizer pouco.
Estilo, narrativa, composição das persongens, arquitectura dos espaços fazem deste filme um objecto raro e precioso. Por tudo isto identifico-o como o melhor que Clint Eastwood e com Mystic River.

Anonymous said...

é um excelente filme com uma narrativa linear mas muito bem elaborada, o tempo passa a correr. Excelente direcção de actores e excelentes performances tb...

Allen Douglas said...

Não vi um único traço de originalidade. É um copy-past mal feito de vários filmes. Não vi uma única personagem, só clichés.

Maffa said...

Nao gostei do filme. Achei a história banal e Principalmente nao achei a interpretaçao das personagens (Familia) convincente...