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14.4.06

V de Vingança



'V de Vingança' tem suscitado reacções muito diferentes: há quem ache que é muita parra (efeitos especiais) e pouca uva (ideias); e, pelo contrário, há quem defenda ser um verdadeiro blockbuster intimista como há muito não se fazia. Eu sinceramente não partilho de nenhuma destas opiniões extremadas - pareceu-me um fime que parte de uma boa ideia, mas que tem uma concretização apenas razoável. A boa ideia vem da BD em que é baseado (e que nunca li): numa inglaterra totalitária e fascista, um mascarado tenta sabotar a ordem establecida. A novidade aqui está na palavra - sendo um sujeito de acção como qualquer super-herói que se preze, para este, primeiro está o verbo. Entre uma explosão e um golpe de espadachim, vai debitando tiradas de Shakespeare e fulminando o adversário com a sua magnifica voz. Numa sociedade vigiada e controlada, o direito à livre expressão é o primeiro a ser suprimido, e por isso não surpreende a importância dada à palavra, falada ou escrita. Aliás, uma outra personagem é condenada por ter o Corão escondido em casa. Temos assim ecos de '1984', mas também de 'Fahrenheit 451'. O curioso é que sendo baseado numa BD (portanto num meio de comunicação escrita), a palavra falada (notável voz de Hugo Weaving, de quem nunca vemos a cara) tenha tanta importância neste filme. Esta é parte interessante - o que impede o filme de outros voos, é a realização, apenas tarefeira. Não abusando especialmente da artilharia técnica, o que é bom, insiste no entanto em alguns flash-backs de gosto duvidoso, e não consegue manter o ritmo narrativo, constantemente interrompido por histórias paralelas dispensáveis. Também não é tirado partido suficiente de dois imaginários poderosos que poderiam dar um outro ambiente ao filme: a Londres escura, quase gótica, que entrevemos por vezes, e toda a simbologia de um regime fascista (inspirada na nazi) que só uma ou outra vez nos é mostrada. Resumindo, eu não deixaria de recomendar uma visão do filme, mas também ninguém se pode sentir beliscado na sua cinefilia se não o vir...
V for Vendetta, E.U.A./Alemanha, 2006. Realização: James McTeigue. Com: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, Stephen Fry, John Hurt, Tim Pigott-Smith.

2 comments:

Xispinha said...

Galeria de curiosidades: o Hugo Weaving lutador anti-fascista de "V for Vendetta" é também o instrumento do fascismo em "Matrix" (Agent Smith), com a mesma bela voz.
E ainda: a Graphic Novel em que se baseou "V for Vendetta" é imperdível.

O Puto said...

Foi essa a (boa) impressão que o filme me deixou, em relação à ideia e à eloquência do anti-herói. Fiquei curioso em relação à BD que lhe deu origem. Só agora viste o filme? Bah! Já o vi há umas largas semanas, na altura da estreia. Aqui na Vila não há muito por onde escolher. :)