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20.11.06

O Perfume



'O perfume' (o livro) é um best seller perene: já vendeu qualquer coisa como 15 milhões de exemplares e ainda hoje, mais de 20 anos depois da sua publicação, a probabilidade de um nosso vizinho na praia ou no avião o estar a ler é elevada. Só admira, assim, que tenha demorado tanto tempo a chegar ao grande ecrã. Ao que parece, não só Süskind (uma espécie de recluso) se mostrou sempre reticente em vender os seus direitos, como uma série de realizadores que se interessaram pelo livro - incluindo Kubrick , Scorsese e Tim Burton! - acabaram por o declarar 'infilmável'. Seja como for, 10 milhões de euros acabaram por convencer o escritor alemão a ceder os direitos autorais ao seu compatriota Bernd Eichinger (produtor de 'A queda') e a criança foi parar às mãos de Tom Tykwer, realizador de 'Corre Lola, corre' e dum muito bom episódio no recente 'Paris je t'aime'.
Toda a gente já conhecerá o seu enredo base, mas vale a penas recordar: passado na Paris do século 18, conta-nos a história de Jean-Baptiste Grenouille, que nasceu com duas características especiais - não tem cheiro (o que o torna 'invísivel' para os restantes seres humanos, ideia algo desperdiçada no filme) e possui um olfacto inigualável. A dificuldade, já se vê, está precisamente no cerne do argumento: como filmar um sentido como o olfacto?
Tom Tykwer simplifica imensamente a narrativa, amputando o filme da parte mais flaubertianamente irónica do livro - aquela em que Grenouille é mostrado como atracção de feira por um Marquês iluminado - e despacha em 2 minutos a mais insólita - a dos longos anos de isolamento do nosso heroí numa caverna na montanha. Concentra-se na parte mais sanguinolenta - Greunoille como assassino de jovens virgens - e carrega um pouco no voyeurismo, embora a cena a la Spencer Tunick até seja comedida. Quanto à questão central do olfacto, despacha-a com uma série de grandes planos do nariz do herói (27, segundo consta) que evidentemente é o mesmo que filmar repetidamente a cabeça de alguém para mostrar os seus profundos pensamentos. Apesar de tudo, o filme tem os seus méritos: sólidos valores de produção (não parece uma coisa pobrezinha europeia a armar-se em grande produção de Hollywood - parece mesmo uma grande produção), um bom casting (o actor principal é como a Coca Cola - primeiro estranha-se, depois entranha-se), uma bela fotografia e - qualidade maior sem a qual as anteriores seriam irrelevantes - nota-se que o realizador sabe o que está a fazer e, goste-se mais ou menos, tem uma ideia de cinema. Fica, assim, um degrau acima do telefilme de luxo. Não é certamente um Chanel 5, mas também não direi que não é flor que se cheire. C'est comme ci, comme ça.
Perfume: The Story of a Murderer, Alemanha/França/Espanha, 2006. Realização: Tom Tykwer. Com: Ben Whishaw, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood, Corinna Harfouch, Birgit Minichmayr.

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