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1.6.08

O segredo de um cuscuz


A família à volta da mesa - uma cena extraordinária.

O que desde logo surpreende neste filme realista e politico é ser tão caloroso, é das suas personagens (todas interpretadas por actores não profissionais, todos sem excepção com uma relação perfeita com a câmara) emanar uma espécie de alegria de viver, de humanismo, que não entra nunca em conflito com a crítica social cerrada que Abdel Kechiche nos vai servindo.
Kechiche é implacavel para com a burguesia francesa, racista e mesquinha, mas fácil de animar com álcool e mulheres, mas também não deixa de dar uns remoques à família magrebina que está no seio do filme, incapaz de integrar a mulher ucraniana de um dos seus, e brinca ainda com o facto de o resignado Sr.Beiji, patriarca de uma família árabe e supostamente machista, atravessar uma verdadeira via-sacra sempre rodeado de mulheres, que são os elementos mais fortes da história, ora o suportando (como a sua extraordinária enteada) ora o martirizando (o longo discurso à beira do histerismo que ele ouve silenciosamente da sua nora ucraniana é todo um programa).
Este retrato tão humano e caloroso (repito os adjectivos), como mordaz e impiedoso, seria mais do que suficiente para elevar bem alto 'O segredo de um cuscuz' (mais um titulo português idiota), mas Kechiche vai mais longe e dá-nos uma última meia hora de um suspense verdadeiramente hitchcockiano, numa angustiante montagem paralela esticada mesmo para lá do suportável, culminando com um dos finais mais sádicos que já me foi dado a ver.
A não perder.
La Graine et le Mulet, França, 2007. Realização: Abdel Kechiche. Com: Habib Boufares, Hafsia Herzi, Farida Benkhetache, Abdelhamid Aktouche, Bouraouïa Marzouk, Alice Houri.

2 comments:

Margarida Gonçalves said...

já ouvi imensas referências a este filme . a curiosidade é muita, o tempo pouco. mas irei ver :)

reparo no teu post acerca de 'goodnight irene', acerca do qual ja posso dizer algo: um argumento que gostei, assistido numa sala de cinema onde apenas eu e a minha companhia estavamos presentes.. sim, tornou ainda o filme mais estranho do que é (:

parabens pelo blog (:

O Puto said...

Gostei imenso do filme, apesar da sucessão angustiante na recta final. Feito de contrastes, costumes, surpresas, tudo num ambiente quotidiano que, como todos os ambientes, tem os seus heróis e vilões. Apreciei também a crítica mordaz à sociedade aristocrática francesa e ao seu snobismo (para não dizer xenofobia).