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28.8.08

Aquele querido mês de Agosto



Há três ideias fortes que estruturam este filme, porventura algumas nascidas da necessidade.
A primeira, que lhe serve de leitmotiv, é a música pimba. Mais concretamente o Portugal da música pimba, o Portugal profundo, dos emigrantes, das romarias, dos incêndios.

A ‘primeira parte’ do filme, chamemos-lhe assim, é uma espécie de documentário, filmado em terriolas das Beiras, da zona de Arganil, sobre as suas gentes e costumes.
Tendo alguns momentos bem conseguidos, nomeadamente toda a parte das bandas pimba - só as letras das músicas de Marante, Diapasão, Dino Meira (que dá o titulo ao filme), etc., etc. são todo um programa – fica no entanto a sensação que Miguel Gomes se limita a filmar condescendentemente os cromos locais. Não há dúvida que descobriu umas personagens castiças (um tal de Paulo é impagável), mas às tantas parece que estamos no jardim zoológico, a rirmo-nos dos animais que fazem umas habilidades para os citadinos que os vêm pela primeira vez. Miguel Gomes, que não é burro (se calhar é até esperto demais, mas já lá vamos), tem consciência disso e faz-se filmar a enxotar umas moçoilas locais que querem fazer um casting para o filme, pois está a jogar à malha. Parece querer-nos avisar que não está ali para ‘tratar bem’ os locais. Mas não anula a superioridade desagradável com que o faz.

Mas o filme é suposto ser uma ficção. Gomes filma-se então a responder tranquilamente a um membro da produção que lhe chama a atenção para isso mesmo: que lhe enviem dinheiro que ele arranjará os actores e seguirá o guião. Uma espécie de Fellini no 8 ½, mas descontraído, com tudo controlado, os outros à volta dele é que stressam. Esta reflexão sobre o próprio filme, que se prolonga até ao genérico final, parece-me francamente desnecessária e algo pedante, é uma chico-espertice para coser documentário e ficção, enquanto o realizador brinca aos Fellinis e Godards (o argumento que se lixe!).

E vem então a ficção, espécie de segunda parte do filme, história de amores adolescentes, traições, emigração. E temos aqui alguns dos melhores momentos do filme, que podem ser uma viagem de mota ao som de música pimba, uma conversa de adolescentes à beira-rio ou um terrível desafio à desgarrada. Paradoxalmente é aqui que temos pessoas, gente de carne e osso e não cromos pitorescos. A ‘história’ não daria para mais do que uma curta-metragem, mas é realmente bem filmada, tem esses momentos que agarram, é onde a cinefilia de Miguel Gomes melhor se exprime.

Ao fim das 2h30 (que passam muito bem), fica um filme original e até bastante interessante, mas onde não está ausente uma boa dose de displicência, na minha modesta opinião derivada do facto do realizador se julgar num patamar que ainda não alcançou.

Aquele Querido Mês de Agosto, Portugal, 2008. Realização: Miguel Gomes. Com: Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho, Paulo Moleiro, Luís Marante, Andreia Santos, Armando Nunes, Manuel Soares, Emmanuelle Fèvre.

5 comments:

The Nader said...
This comment has been removed by the author.
anae said...

Saltas ou não este ano?

Antonieta said...

Acho interessante como existem pessoas que tão a despropósito "julgam" os outros sem os conhecer!!!!.... Comentar o filme, bem ou mal, óptimo! Mas presumir que o realizador se "arma" em superior, tem montes de piada. Também gosto do Marco Martins, pelo menos gostei de "Alice", mas surpreendi-me com a qualidade de "Aquele querido mês de Agosto" que, embora longo, me manteve interessadíssima do princípio ao fim do seu visionamento. Os ecos dos elogios vindos de Cannes, (e não só) são mais do que legítimos.

Harry_Madox said...

Bom, penso que este comentário é dirigido a um outro comentário que aqui estava (e que entretanto foi apagado pelo seu autor) e não ao meu post...
Pela minha parte, só tento analizar o trabalho do realizador neste filme - e parece-me de facto haver alguma displicência. Mas, como digo no post, considero ainda assim o filme bastante interessante.

joão amaro correia said...

acho justamente o contrário.
que o mérito do filme resida na câmara que não é indulgente nem condescendente. nem arrogante. documentario?