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10.1.10

Estrela Cintilante

















John Keats, um dos maiores poetas do Romantismo, morreu de tuberculose com apenas 25 anos, não tendo obtido em vida reconhecimento nem do público nem da crítica.

Jane Campion centra-se aqui nos três anos finais da sua vida, em que habitava em casa do seu amigo Charles Armitage Brown (de quem é dado um retrato impiedoso, não obstante ser dos raros contemporâneos a reconhecer o talento de Keats) e onde conheceu e se apaixonou por uma vizinha de 18 anos, Frances (Fanny) Brawne. Na verdade foi Fanny a primeira a apaixonar-se e é ela a verdadeira protagonista deste filme: apresentada de início como uma jovem despreocupada que só pensava em roupas e bailes, depressa a conheceremos como uma mulher viva, inteligente (nunca duvidou da qualidade da obra do seu amado, que leu e criticou com propósito) e determinada, que não hesitou em ignorar militantemente as convenções da época em nome do seu amor por Keats (que, não desmerecendo a imagem de bom poeta, não tinha um tostão furado e por isso dificilmente poderia casar com ela).
 
Ao deslocar o foco para esta paixão, Campion, mesmo sem atingir grandes arroubos, consegue contornar algumas das limitações habituais dos biopics (o didactismo, o tom televisivo) e dá-nos um retrato melancólico e de uma elegância inatacável de uma época, e da paixão de um homem e de uma mulher excepcionais. Grande mérito para este conseguimento têm os principais actores: Ben Whishaw compõe convictamente um Keats inteligente e divertido, apesar da doença e do temperamento, além de ter uma bela voz para declamar os seus (de Keats, bem entendido) poemas; e Abbie Cornish, Fanny, é a alma do filme, sacando um papelão. Das três estrelas em cinco que eu daria a 'Estrela cintilante' se aqui houvesse lugar a notas, uma seria inteirinha para ela.

Bright Star, Grã-Bretanha/Austrália/França, 2009. Realização: Jane Campion. Com: Abbie Cornish, Ben Whishaw, Paul Schneider, Kerry Fox, Edie Martin, Samuel Barnett, Antonia Campbell-Hughes.

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