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1.2.11

Um ano mais


Ao ver este novo filme de Mike Leigh lembrei-me de Woody Allen. Claro que os seus universos são praticamente opostos, mas ambos têm universos muito próprios e reconhecíveis. Uma pessoa vai ver um filme seu e sabe com o que conta. E - isso é que é importante - há um nível de qualidade que ambos são absolutamente incapazes de baixar.

Se esquecermos o detalhe, as semelhanças estão lá: a magnifica direcção de actores (Leigh sempre sem grandes estrelas - mais uma vez, aqui o elenco é perfeito); os argumentos (escritos pelos próprios, são ambos óptimos argumentistas) nunca menos que bons, à volta de temáticas recorrentes (a upper class e as partidas aleatórias do destino, no caso de Allen; a working class e os destinos desde cedo traçados, no caso de Leigh); a câmara próxima, discreta, sempre focada nos actores. E até o facto de nos surpreenderem quando já não se espera mais do que a tal qualidade média. De repente Allen dá-nos um magnífico 'Match Point' e Leigh sai-se com um estupendo 'Happy-Go-Lucky'; Allen rebusca o tom com 'Vicky Cristina Barcelona' e Leigh refina o olhar com 'Um dia de cada vez'.

Porque este é um filme magnífico. Tirando uma personagem (bastante) secundária que me pareceu forçada em demasia (Carl, o filho de Ronnie), tudo o resto me pareceu admirável. Leigh encontrou há muito aquele tom único que lhe permite retratar alguns dos solitários mais desesperados que o cinema nos deu (o Scott de 'Happy-Go-Lucky', a Mary deste filme, só para ficarmos pelos mais recentes) sem nunca perder o sentido de humor, e ao mesmo tempo mostrar-nos pessoas impossivelmente optimistas (a inesquecível Poppy do filme anterior) ou incuravelmente bem com a vida (Tom e Gerri deste filme) sem ser lamechas nem nos provocar um sorriso cínico. É, por assim dizer, um realismo ferozmente terno e afiado, ao mesmo tempo.

E eu gosto de realizadores que andam sempre a fazer o mesmo filme. Por isso Leigh, tal com Allen, é um realizador muito cá da casa.

Another Year, Grã-Bretanha, 2010. Realização: Mike Leigh. Com: Jim Broadbent, Lesley Manville, Ruth Sheen, Oliver Maltman, Peter Wight, David Bradley, Imelda Staunton.

7 comments:

O Projeccionista said...

Este novo do Leigh é fabuloso. É uma daquelas pérolas que nos faz acreditar que ainda há quem saiba fazer bons filmes. Já o Allen, desiludiu-me desta vez.

Cumprimentos

Ana said...

Muito bom, realmente, e daqueles que faz mesmo pensar. Fui ver com a minha mãe e não podia ter escolhido melhor.

Harry_Madox said...

Todos de acordo quanto ao Leigh, portanto. Quanto ao último Allen penso que é um Allen rotineiro. Ainda assim gostei, como gosto sempre dos filmes dele!

Ana said...

Achei mediano (preferi o anterior), mas o toque dele acaba por nunca me deixar dar o tempo por perdido.

Miguel Domingues said...

No meu texto sobre este filme falo também do Allen, curiosamente. Mas acho que o Leigh faz sempre o mesmo filme de forma diferente. O Allen, nem sempre...

Harry_Madox said...

Neste último filme de facto não, mas nos exemplos que eu dei (Match Point, VCBarcelona)já acho que sim...

E o Allen faz um filme por ano, é mais difícil não se repetir :)

O Puto said...

Gostei muito deste último do Mike Leigh. Nem tanto do do Woody Allen.