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29.3.15

Fernando Lopes - Um Rapaz de Lisboa


No prefácio, Jorge Leitão Ramos (JLR) esclarece-nos perfeitamente sobre o livro que pretendeu escrever: "Sabia que não tinha nem o tempo nem os meios para uma biografia "à americana", daquelas que vasculham arquivos em vários pontos do mundo". Por isso, acrecenta,  "Fui aos meus arquivos, à minha memória, revi os filmes (...) e tentei um trabalho onde a vida, a obra e a sua recepção contemporânea fossem o essencial. E conclui com alguma modéstia: "(...) chamar-lhe-ia uma quase-biografia de Fernando Lopes".

Ora pode-se dizer desde já que o autor cumpriu com boa nota estes objectivos. Ao longo do livro a vida 'pessoal' de Fernando Lopes vai sendo passada em traços largos (a ida para Lisboa, os casamentos), mas centrando-se a atenção de JLR quase totalmente no seu perfil mais público, nos filmes e na relação de Fernando Lopes com os meios intelectuais (e boémios) da sua época, em que um grupo de intelectuais, de diversas origens e tendências, mas todos cansados do provincianismo salazarista do país, se encontrava em tertulias pela noite lisboeta (no Ribadouro, no Vává): escritores como Baptista-Bastos, Nuno Bragança e Cardoso Pires, o fotógrafo e distribuidor Gérard Castello Lopes, o músico jazz Luiz Villas-Boas, ou os cineastas António Pedro Vasconcelos, César Monteiro e Seixas Santos ("um trio temível e inspirado, autointitulado os kimonistas em homenagem a Mizoguchi"). Muitos destes nomes, e outros, seriam colaboradores de Fernando Lopes ao longo da sua obra, e este livro é também um bom retrato desta geração que estaria na base do Cinema Novo e alteraria de vez o panorama cinematográfico português.

O importante papel de Fernando Lopes como director da revista Cinéfilo e, mais tarde, do canal 2 da RTP, merecem capitulos próprios, mas são os filmes e a "sua recepção contemporânea" que  ocupam o grosso do livro.

JLR é minucioso na análise da recepção do público e da crítica a cada filme, detalhando o número de espectadores (o filme com maior audiência seria 'Crónica dos bons malandros', com não mais de 70.000 espectadores) e as estrelas dadas pela crítica (incluindo por si próprio, que trata na 3ª pessoa, "JLR no Expresso deu 3 estrelas", provocando um efeito algo insólito no leitor...; mas diga-se que o único vestigio da escrita rebuscada que JLR derrama no Expresso só aparece neste livro quando JLR se auto-cita; de resto o crítico apaga-se um pouco perante o jornalista - e faz bem).

Fernando Lopes em The Lovebirds, de Bruno de Almeida.

É também através da análise aos filmes, que JLR nos faz entrar um pouco mais no lado privado de Fernando Lopes, quer seja a relação com a mãe ('Nós por cá todos bem'), com o pai e alguns amigos da "classe alta" ('O Delfim') ou as circunstâncias que levaram ao seu divórcio de Maria João Seixas ('Os sorrisos do destino'). É ainda realçada a teia de cumplicidades que o realizador foi tecendo, adaptando livros de amigos (Cardoso Pires, Carlos de Oliveira, Tabucchi) e colaborando com outros em argumentos (Baptista-Bastos, Vasco Pulido Valente).

Se as críticas aos seus filmes depois de 'Belarmino' e de 'Uma abelha na chuva' foram sempre desiguais, uma coisa parece inequívoca: o "lugar muito especial" que Fernando Lopes - o cineasta e o homem -  "ocupa na nossa cinematografia, no nosso tempo, no coração dos membros da comunidade cinematográfica", para citar JLR. Como acrescenta bem o biógrafo, os convites que lhe foram feitos para participar como actor em filmes seus, por cineastas de gerações diferentes (Bruno de Almeida, Jorge Silva Melo, Gonçalo Galvão Teles) são uma "demonstração de afecto absolutamente inédita em todo o cinema português".

Mostrar-nos o porquê deste lugar único que Fernando Lopes ocupou , não é o menor dos méritos deste livro.

2 comments:

Ricardo Gross said...

Não sabia da existência deste livro. Muito obrigado.

harry madox said...

Acho que não teve muita divulgação. Eu nunca o vi à venda 'fisicamente'...