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4.4.07

INLAND EMPIRE



Uma actriz (Laura Dern) é seleccionada para participar num filme. Aí contracena com um actor (Justin Theroux) com fama de mulherengo. Este é avisado para não se envolver com ela, ou o seu marido far-lhe-á coisas terríveis. A primeira das três horas de 'Inland Empire' é basicamente ocupada com este filme dentro do filme, com os dois actores, com o realizador (Jeremy Irons), com outra pessoa envolvida mas filmagens (Harry Dean Stanton). Apesar de algumas cenas - uma mulher num quarto, umas pessoas com cabeça de coelho que participam numa estranha sitcom, uma pessoa que é entrevista nos estúdios, uma vizinha com dons proféticos - e alguns detalhes - aqueles quartos mobilados como só o são nos filmes de David Lynch - parece que estamos a assistir a um 'Lynch' narrativo. Mas, a partir de uma dada altura, 'realidade' e ficção, passado e presente, presente e futuro, começam a confundir-se e estas personagens desaparecem sem deixar rasto.
Ou nem tanto. Laura Dern é omnipresente durante todo o filme, mas quando é Nikki (a actriz), quando é Susan (a personagem do filme no filme), bom, isso nem sempre é claro. E para complicar interpreta ainda (pelo menos) mais uma personagem, alternando entre a Polónia e Hollywood (mais uma vez Hollywood, numa altura em que Lynch tem que vir filmar para a Europa e distribui ele próprio o filme nos E.U.A.). Ou será uma só personagem?
'Inland Empire' é descendente directo de 'Eraserhead', e tal como em 'Lost Highway', mais que em 'Mulholland Drive', as pontas soltas, os nós por desatar, as lacunas deixadas para a imaginação do espectador preencher são mais que muitas. Os túneis no espaço-tempo são o pão-nosso-de-cada-dia de Lynch. É um lugar-comum dizer que mais que assistir a um filme, com Lynch vamos experimentar (no sentido de, mas mais do que, sentir) algo. Mas é verdade, continua a ser verdade. Várias vezes dei comigo a divagar, quase alheado da tela, e sempre voltei a ser para ela atraído por uma imagem estranhamente iluminada, por um som inesperado, por uma cena desfocada, por um close-up assombroso. Até ao último segundo do genérico final (e não convém perde-lo de forma alguma) somos surpreendidos, somos abanados.
Mesmo que eu continue a preferir um filme como 'Mulholland Drive' em que os espaços em branco podem ainda assim ser preenchidos de modo a fechar o círculo, não há como negar o fascínio de um objecto como 'Inland Empire'. Como disse um dia um crítico, uma pessoa experimenta muitas sensações durante um filme de Lynch, mas nunca a de aborrecimento. E 'Inland Empire' é, como li algures na net, Lynch at his Lynchest.
INLAND EMPIRE, E.U.A., 2006. Realização: David Lynch. Com: Laura Dern, Justin Theroux, Jeremy Irons, Karolina Gruszka, Harry Dean Stanton, Grace Zabriskie.

5 comments:

P said...

Aguardo com muita curiosidade este filme. Será sempre um prazer desvendar (ou não) o percurso que D.L. nos faz (ou não) percorrer.

Fábio Jesus said...

Como disse no Pasmos Filtrados, é (possivelmente..) bom mas não é para todos. Para quem vive em Lisboa ou no Porto, tudo bem, para todos os outros, chapéu.

Vou adicionar um link para aqui no Os Novos Pornógrafos, espero que não te importes ;)

Abraço

Unknown said...

link retribuido :)

Raquel Felino said...

Fui ver ontem o INLAND EMPIRE e acredito que vou ter de o ver umas 5 vezes mais. Já vi o mulholland Drive uma duzia de vezes e apesar de ter entendido a globalidade do filme à primeira, confesso que sempre que o revejo descubro algo de novo. Parece-me que com INLAND EMPIRE isto está equacionado ao quadrado. Apenas um conselho: este filme é mesmo para quem gosta de cinema e para que tem paciência para ficar 3 horas a levar socos na cabeça. Vi muitas desistências na sala de cinema... Mas eu garanto, nao vou desistir... Pode chegar tempo, mas hei de lá chegar.

Unknown said...

O facto de uma pessoa ter vontade de rever um filme, já é um grande elogio para o filme. E quase todos do Lynch merecem ser revistos. Exigem ser revistos, até.