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9.7.08

Brincadeiras perigosas



Uma vez que os americanos não vêm filmes legendados - nem sequer dobrados - sempre que um produtor de Hollywood acha que um filme de um país de língua não inglesa tem potencial de bilheteira, pura e simplesmente faz um remake do mesmo, com actores da casa. Simples, não é?

À custa desta lógica inatacável, uma das maiores pragas do cinema actual é precisamente os remakes de filmes europeus e asiáticos. Escusado será dizer que 99% são inferiores ao original ou, quanto muito, desnecessários.

O que torna 'Brincadeiras perigosas' um caso algo peculiar é que o realizador deste remake do filme-choque de Michael Haneke de 1997 é o próprio Michael Haneke. O que o terá levado a isso só ele saberá - provavelmente quis engordar a conta bancária, ou pura e simplesmente ter um sucesso nos States.

Para quem não viu o original - um dos filmes mais marcantes dos anos 90 - o programa está exposto logo no genérico, quando a musica de Handel é substituída repentinamente pela de John Zorn. O quotidiano de uma família rica em férias é brutalmente alterado por um par de jovens imaculadamente vestidos de branco (Brady Corbet e Michael Pitt - que está muito bem, embora eu achasse aquele actor do filme original que era igualzinho ao Pete Sampras especialmente sinistro), que se revelam de um sadismo tortuoso e insuportável, tanto mais que, muito hitcockianamente, não há qualquer explicação racional para os seus actos. Haneke não poupa o espectador a nada e ainda vai brincando connosco, pondo os actores a dirigirem-se a nós e até a alterarem uma cena com o comando da TV (criticando e zombando o nosso voyeurismo).

Mas este último aspecto é precisamente o que me parece que envelheceu pior: o que era surpresa há 10 anos é banal hoje em dia - ou então aqui não funciona tão bem. Quanto ao resto, é curioso notar como depois de tantos Hostels e quejandos, este filme consegue criar uma vez mais um ambiente verdadeiramente angustiante, mesmo para quem viu o original e sabe como tudo se vai passar (é decalcado plano a plano). O que prova inequivocamente o savoir faire de Haneke mas, claro, não responde ao porquê da necessidade de ele filmar outra vez esta história.

Enfim, se o leitor for americano, não souber alemão, e não estiver para se maçar com legendas, então vale a pena ir vê-lo. Caso contrário, veja o original. Se já viu o original, vá vê-lo apenas se for a) um cinéfilo compulsivo, b) um fã incondicional de Michael Haneke, c) um fã incondicional de Naomi Watts.

Funny Games U.S., E.U.A./França/Grã-Bretanha/Itália/Alemanha/Áustria, 2007. Realização: Michael Haneke. Com: Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbet, Devon Gearheart.

1 comments:

contra-regra said...

Estou querendo ver justamente porque não vi o original e não o encontro em lugar nenhum. O Haneke é um cineasta obsessivo com certos temas, por isso fiquei interessado no filme. E também pelo fato de ter visto e gostado muito de Caché (assisti recentemente em DVD).

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