Recent Posts

12.8.08

O estado mais quente



Ele está apaixonado e acha que ela é a mulher da sua vida. Mas ela é complicada. Quer estar por sua conta. Não quer ter sexo com ele para não se apaixonar. Mas pede-lhe para casar com ela e muda de ideias a seguir. E pede-lhe para ir atrás dela se fugir. Mas quando foge, nunca mais lhe dá uma chance. E ele desespera e sofre e dá em doido. E começa a pensar no pai que o abandonou a ele e à mãe há muitos anos.

'O estado mais quente' insere-se na linha do filme indy temática boy meets girl de 'Antes do anoitecer' e 'Antes do amanhecer', mas em tons mais sombrios.

Ethan Hawke, que adapta um romance seu, não se revela um realizador tão talentoso como Richard Linklater, nem sequer tem a agilidade que Julie Delpy demonstrou na sua estreia atrás da câmara (a fotografia e a banda sonora, por exemplo, nunca me pareceram bater totalmente certo). Mas o argumento tem muita força e os actores também, Mark Webber arrancando inclusive um papelão. Mesmo um momento em que o filme poderia fraquejar, o do encontro de Webber com o pai (um pouco convencional, este paralelismo entre o abandono pelo pai e pela namorada), é salvo pelo extraordinário desempenho de Ethan Hawke e pela inteligência dos diálogos.

No meio de tantos filmes anódinos que se tentam fazer notar pelo estrondo da pirotecnia, é de saudar um filme que se concentra nos seus actores, no seu argumento, que aposta nas emoções, que se expõe e se dá ao espectador. Que foge à história bonitinha com happy end. Que arrisca, que tem força. São virtudes mais que suficientes para se destacar da modorra que por aí vai.
The Hottest State, E.U.A., 2006. Realização: Ethan Hawke. Com: Mark Webber, Catalina Sandino Moreno, Laura Linney, Ethan Hawke, Sonia Braga, Michelle Williams, Josh Zuckerman.

8 comments:

P.R said...

Nem mais! É realmente um filme muito bom!

Harry_Madox said...

Já somos dois a gostar. Parece que o filme não está a ter grande sucesso crítico por cá...

P.R said...

Sim, ma se falas da critica especializada nem o Batman teve boas criticas portanto ta tudo dito :)

joão moço dos recados said...

Li tudo o que escreves e dizia exactamente o oposto. Um filme sem história, sem argumento, sem trabalho nenhum com os actores. É o típico filme indie do rapazinho abandonado e muito triste mas que, infelizmente, não passa disso mesmo. Concetração nos actores e no argumento? acho que o maior defeito do filmes é exactamente desperdiçar completamente os actores e não ter qualquer história. provavelmente o pior filme que vi este ano.

Harry_Madox said...

eu, infelizmente, vi uns 30 piores que este.

Sabrina. said...

Só quem nunca amou assim é que não gosta deste filme.

Não é assim tão simplista. Nem perfeito, no entanto. Mas tem pormenores e subtilezas que lhe esmagam completamente os defeitos e o tornam brilhante:

- a história do amor á 1a vista da mae que, aparentemente, culminaria um final feliz perfeito mas que é destruído pelas circunstancias e pela inevitabilidade da vida. Serve de presságio para o que se passará a segur com o filho, que será fruto de um desgosto de amor - note-se que todas as personagens já tiveram, menos ele, um desgosto de amor. e estão vivas, enquanto que ele está tão infeliz que fala em matar-se, apesar de se desculpar com o tom de brincadeira;

- o retrato do seu mundo fictício das personagens que criava/reproduzia vs mundo real e a verdadeira pessoa que era;

- a repetição da anedota, mas à 2a vez, completa. adorei. A primeira aproximação da personagem do seu pai. O carro azul "barracuda" no final também tem esse propósito;

- o facto de se ter percebido que o amor acabara quando ele chega mais cedo para estar com ela e ela questiona-o porque apanhou esse autocarro;

- um decorrer dos eventos triste, salvo por uma mae que encontrou o amor de novo e é positiva em relação à própria vida e ao filho apesar de, admitir, a idade nao lhe trouxe uma vida tao interessante como a que julgara.

- o facto de ele ter ido ter com o pai por se aperceber, suponho, de que aquele apego era uma conseqência de uma falta emocional. E pela falta educativa de um modelo masculino (ele começa o filme a dizer que nao sabe como os homens se comportam com mulheres. e chega a perguntá-lo à própria mãe)

- a consciência de que era adulto já por conhecer as experiências dos pais em circunstancias semelhantes à que vive, e se distanciar delas pela vivência pessoal. Da mãe, de quem sempre desejara ser orfao em criança, para ficar mais duro, menos sensível e , já adulto, de pai, de quem dispensou de vez os conselhos (que sempre, foram e continuam a ser, ma treta);

- a certeza latente de que ele nunca a esquecerá (a mãe começa, no 1º diálogo em que aparece, a falar do pai dele, e ele até pergunta porque é que raio ela lhe fala naquilo...assim, apesar de ter uma nova vida, ainda fala desse seu amor e de como achara que ia durar para sempre)

- etc etc etc

Harry_Madox said...

eu não diria melhor...

Sandra said...

Aqui no Brasil, o filme O Estado mais Quente é chamado Um Amor Jovem o que, na minha opinião já enfraquece o marketing. Concordo com tudo que a Sabrina disse. Ela entendeu e descreveu muito bem a mensagem do filme. Eu gostei muito e o que mais aprecio em todos os trabalhos do Ethan Hawke, seja atuando, escrevendo ou dirigindo é que ele não o faz esperando retorno financeiro mas, em passar para nós uma mensagem séria e profunda como O Estado Mais Quente o fêz.