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10.3.09

O Complexo Baader Meinhof



‘O Complexo Baader-Meinhof’ esboça um quadro das actividades do grupo terrorista alemão de extrema-esquerda RAF – mais conhecido por Baader-Meinhof – nas décadas quentes de 60 e 70.

O veterano realizador Uli Edel parte do retrato particular para alcançar uma perspectiva mais lata. E quem não sai nada bem no retrato é o carismático líder do grupo, Andreas Baader, apresentado como impulsivo, leviano e, por trás dos seus discursos sobre a emancipação da mulher e o amor livre, profundamente machista (sempre que algo corre mal, descarrega numa das várias mulheres do grupo). Mais simpatias do realizador colhe Ulrike Meinhof, uma mulher mais velha e aquela que tinha mais a perder com a entrada para a clandestinidade: à altura já era uma jornalista conceituada e tinha duas filhas pequenas (que abandonou para aderir às RAF). Era a única intelectual do grupo e tentou dar algum cimento ideológico às suas acções, bem como uma maior organização e ponderação. Talvez por isso foi sendo progressivamente olhada de lado dentro do grupo, nomeadamente pela fanática Gudrun Ensslin, a namorada de Andreas Baader, e foi a primeira a suicidar-se após a prisão.

Uli Edel contextualiza o sucesso e até popularidade do grupo – houve uma altura em que um quarto dos alemães com menos de 30 anos apoiava os seus actos terroristas – no quadro dos ares do tempo. Era a altura das lutas estudantis contra o Estado, das manifestações contra a guerra do Vietname, e também da revolução sexual e da emancipação feminina. Neste caldo ‘anti-burguês’ e 'anti-capitalista' era fácil arranjar apoiantes e simpatias para a causa armada. Vemos também a dificuldade da polícia em lidar com este fenómeno, e a sua progressiva especialização e dureza até conseguir desmantelar o grupo. E as ligações do Baader-Meinhof aos grupos árabes pro-Palestina, uma ligação condenada à partida (as alemãs das RAF pavoneavam-se nuas nos campos de treino Jordanos, sobre o olhar incrédulo dos guerrilheiros árabes...) e que acabou por ser fatal para a organização terrorista alemã – aquando do espectacular desvio dum avião da Lufthansa para a Somália, em que as RAF exigiram a libertação dos seus dirigentes presos como condição para terminarem o sequestro, nenhum país árabe aceitou acolhe-los o que contribuiu para a operação ser um enorme fiasco, que terá levado mesmo ao suicídio na cadeia dos seus dirigentes que deixaram de acreditar definitivamente nas suas hipóteses de sucesso.

Uli Edel tem o mérito de abordar todos estes aspectos contraditórios sem romantizar (as brutais acções sanguinolentas das RAF são detalhadamente mostradas) nem diabolizar acriticamente (consegue mostrar o porquê do fascínio de uma fatia considerável da população, especialmente a camada mais jovem, pelas actividades dum grupo terrorista que atacou inúmeros civis). A sua maior falha residirá no facto de, entre tantos campos por onde se mover ao longo de 2h30, acabar por deixar várias pontas soltas e termos um pouco a sensação que as coisas são tratadas algo ligeiramente, simplificadamente, ficando-se um pouco pela superfície. Não compreendemos inteiramente o suicídio dos membros fundadores do Baader-Meinhof na cadeia (na altura bastante controversos mas que o filme aceita como verdadeiros), nem a influência que mantiveram sobre a 2ª geração de operacionais cá fora, por exemplo.

Mas, apesar destes reparos, fica um bom retrato geracional que vale a pena ver.

Der Baader Meinhof Komplex, Alemanha, 2008. Realização: Uli Edel. Com: Martina Gedeck, Moritz Bleibtreu, Johanna Wokalek, Nadja Uhl, Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Bruno Schmidt, Stipe Erceg.

4 comments:

Passenger said...

Este filme parece interessante, mas tem-se falado pouco nele, apesar dos assuntos polémicos que explora. A Alemanha tem feito bom cinema nesta década.

Harry_Madox said...

é verdade. às vezes queixamo-nos que o mercado está invadido por filmes americanos, mas ao mesmo tempo damos pouca atenção aos outros.

H. said...

Realmente concordo contigo que o melhor do filme é a forma como tenta mostrar as coisas sem julgamentos de uma parte ou de outra, antes tentando compreender todos e as suas acções. As gerações seguintes das RAF já não são tão bem trabalhadas mas na 1ª parte o filme consegue momentos muito bons.
Enfim, mais um olhar corajoso da Alemanha sobre a sua história do séc. XX.

O Puto said...

Apesar de ser um pouco longo para um filme algo documental, retrata, durante grande parte do tempo e com mestria, as duas facções associadas a este fascínio pelo mito Baader Meinhof. Dos filmes recentes ligados ao terrorismo vistos de ambos os lados, apreciei mais o visceral "Hunger", de Steve McQueen.
Curiosidade: na mesma semana fui ver dois filmes com o Bruno Ganz e com a Alexandra Maria Lara, apesar desta última não proferir uma palavra durante esta obra de Uli Edel.