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31.1.12

J.Edgar


Gostei tanto de 'J.Edgar' como gostei de 'O bom pastor'. Tanto De Niro como Eastwood partem de acontecimentos históricos (o nascimento da CIA, aquele, o do FBI, este) para nos darem retratos de americanos obcecados. Neste caso o famoso e sinistro J.Edgar Hoover, que liderou o FBI durante quatro décadas, lidando com oito presidentes americanos.

Eastwood usa de forma inovadora a montagem paralela, alternando quase cena a cena a juventude e a velhice de Hoover, interligando os dois tempos através de um poderoso uso da voz off (de Di Caprio, no seu grande papel até à data), impondo um grande ritmo à narrativa. Também a fotografia é magnífica, e tem um papel importante neste vaivém contínuo.

Durante boa parte do filme Eastwood deixa-nos acreditar que simpatiza com Hoover, até que nos lembra subitamente que é o próprio biografado quem está a contar a sua história. Ou seja, que está a criar o seu mito. Eastwood deixa-o chegar aos últimos dias de vida para desconstruir esse mito: vemos então um homem essencialmente de gabinete, não de acção como quis imprimir na lenda, que reprimido por uma mãe severa e conservadora e pelos (seus próprios e da sociedade da época)  valores reaccionários não foi nunca capaz de assumir a paixão pelo homem da sua vida (Clyde Tolson, que fez seu braço direito), e transferiu esse recalcamento para uma dedicação obsessiva a perseguir os 'inimigos da América' (muitas vezes usando métodos ilegais). O homem ultrapassado pelo tempo, cujo ódio irracional a Luther King não o deixa ver o verdadeiro vilão, Nixon, ao pé do qual ele próprio parece um mero aprendiz de feiticeiro (magnífica a cena em que, enquanto Hoover vitupera King, Eastwood nos mostra imagens de Nixon, de quem aliás consegue dar uma imagem devastadora aí em 5 minutos de filme).

Ainda assim, o retrato final é lisonjeiro para Hoover, ou seja, Eastwood 'deixa-o' criar um pouco o seu mito, o que certamente poderá causar incómodo em alguns espectadores. Seja como for, se o biopic (como é minha convicção) é um género do qual raramente se pode esperar algo de bom, este de Hoover, por Eastwood, é o mais próximo que pode estar de uma obra-prima.

J.Edgar, E.U.A., 2011. Realização: Clint Eastwood. Com: Leonardo DiCaprio, Armie Hammer, Naomi Watts, Judi Dench, Jeffrey Donovan, Dermot Mulroney, Josh Lucas, Zach Grenier, Stephen Root.

5 comments:

Lia Ferreira said...

Madox, eu e o Gross vamos passar pela terra onde habitas, este fim-de-semana. E vamos desafiar-te para um café. :) Ou chá, ou refresco...
Na Brasileira ou no Vianna ou onde?
Segue mail para mais pormenores e contacto telefónico.
Saudações! :)

Ricardo Gross said...

Pois eu também me lembrei do Bom Pastor e do Inimigos Públicos, filmes de que gosto imenso. Mas lá está, a verdade é que ultimamente os filmes do Clint projectam imagens masculinas fracas, longe da ambiguidade ou da firmeza moral de outros tempos e outras fitas. E tenho umas saudades do caraças de o ver na tela. Mas invejo sempre quem gosta mais do que eu, ainda mais quando se trata de realizadores que me educaram.

Nota: espero que aceites o nosso "desafio".

Harry_Madox said...

Exceptuando o 'Gran Torino', em que penso que estamos todos de acordo, eu ultimamente ando um bocado dessintonizado dos Eastwoodianos. Não gostei lá muito do 'Bandeiras...' (nem mesmo do 'Cartas...'), por exemplo, e gostei bastante destes dois últimos filmes.

PS: Já está aceite, claro.

Luis Faria said...

Quem como eu assistiu ao início da carreira de Eastwood como ator nos filmes de Leone e depois com o seu carismático personagem Dirty Harry não poderia imaginar que ali estava um realizador de grande talento e sem complexos em abordar os temas mais tabu da américa com rigor. É claro que quando vi Bird senti logo que ali havia algo de valor, poderia no entanto ser apenas um tiro de sorte mas felizmente confirmou-se plenamente a cada novo filme.

Harry_Madox said...

É, parece que na altura as pessoas achavam que o actor que se tornaria realizador seria o Jack Nicholson...