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30.6.05

Jeux d'enfants/Amor ou Consequência



Jeux d'enfants é um filme inspirado em Amelie. Perdoem-me o óbvio mas a comparação é inevitável: as mesmas cores fortes, os mesmos planos picados, um narrador a contar pormenores da vida das personagens enquanto as imagens nos passam à frente dos olhos como se estivessemos a morrer, o mesmo tom fabulado.
Amelie era uma história de amor, Jeux d'enfants conta-nos a história de uma paixão obsessiva que recusa ser domada.

Desde a infância, Julien e Sophie envolvem-se num jogo como forma de escape aos problemas que vivem em casa. "Cape ou pas cape?" - Quem detém a pequena caixinha de música lança o desafio: - Atreves-te? Cumprido o repto a caixa muda de mãos. O jogo acompanha-os até à idade adulta, cada vez mais intenso, descontrolado. Fá-los rir, magoa-os, mas principalmente arrasa toda a gente à sua volta e isola-os.

O efeito Amelie apanhou-me de surpresa, e sinceramente desagradou-me a primeira parte do filme com os pequenos actores e as suas diabruras.
Depois Marion Cotillard que interpreta a Sophie adulta prende-nos totalmente a atenção.

O hedonismo de Julien e Sophie, a crueldade, o egoísmo e o inconformismo daquela paixão incomoda e faz-nos pensar. Uma boa surpresa este filme.

27.6.05

Cinema & Blogs (I)

Porque será que uma grande parte dos blogs portugueses sobre cinema são graficamente bastante elaborados, mas fraquinhos no conteúdo?

26.6.05

The Woodsman/O Condenado


The Woodsman apesar de uma passagem discreta pelas salas, teve regra geral boas críticas.Elogiaram a emoção contida de Kevin Bacon no papel de Walter, o minimalismo da narrativa, a química entre Bacon e a sua esposa Kyra Sedgwick que contracena com ele. O filme tem de facto esses atributos, é inegável também que Bacon consegue em todos os filmes em que participa criar empatia com o espectador. O realizador terá tido isso em conta quando deu a Bacon um papel complicado, em primeira análise repulsivo, e em que essa empatia é absolutamente necessária para nos dispor a conhecer mais sobre a mente de um pedófilo.
O problema é que The Woodsman é um filme plástico, pouco honesto. Nunca chegamos a saber exactamente porque é que Walter passou os últimos doze anos na prisão. Depois à boa maneira Americana do "fumei mas não inalei", Walter é apresentado como um homem consciente da sua anormalidade, consumido pela culpa, mas que nunca "fez mal às suas vítimas". As tentativas de Bacon para transmitir o inferno que vai na cabeça de Walter, e a luta que ele trava para dominar os seus instintos básicos não convencem. Todas as personagens secundárias com excepção de um brilhante Mos Def na pele do polícia que vigia Walter são tipificadas e caracterizadas como pedófilos em potência ou vítimas de abusos. O filme não sabe para onde ir e vai avançando à base de coincidências: a maria-rapaz que trabalha na mesma serração de Walter e que teve uma história de vítima de abuso, o pedófilo que tenta aliciar as crianças na escola em frente à casa de Walter, a menina que Walter segue e que provoca a revelação da sua monstruosidade e o coloca no caminho certo. Só falta a cena em que numa reunião de pedófilos anónimos diria: Olá eu sou o Walter e já não molesto nenhuma criança há um mês. Haveria alguém a bater palmas?

24.6.05

Casa de los Babys



John Sayles é um realizador pouco visto em Portugal, apesar de ser o autor de um dos melhores filmes dos anos 90, 'Lone Star'.
'Casa de los Babys', filme de 2003 que só agora cá chegou, é um objecto estranho. Filma meia dúzia de mulheres americanas no México, à espera que a burocracia local lhes permita adoptar um bebé de um orfanato. O tema do filme não é a adopção, nem o 'negócio' que representa em alguns países subdesenvolvidos: o que interessa ao realizador é mostrar-nos estas Americanas, as suas fragilidades e desequilíbrios, e principalmente o modo como se sentem e relacionam num ambiente estranho. Filmando com vagar e sensibilidade, John Sayles vai-nos então introduzindo no mundo destas mulheres, interessando-nos gradualmente por elas, no que conta com um grande trunfo- o magnifico elenco de actrizes que as interpretam: Marcia Gay Harden, Lili Taylor, Mary Steenburgen, Daryl Hannah, Maggie Gyllenhaan e Susan Lynch.

23.6.05

Heróis Imaginários



O suicídio. É o ponto de partida e um tema recorrente neste filme escrito e realizado pelo jovem Dan Harris. Até o Kurt Cobain é chamado à baila.
A família fragmenta-se após o evento fatídico, perfeitamente justificado pelo suicida. O filho adolescente (um surpreendente Emile Hirsch) dispersa-se pelas dúvidas e angústias do final da adolescência, acompanhado do seu amigo igualmente inadaptado. A mãe (Sigourney Weaver) experimenta marijuana como forma de aliviar o tédio, o que lhe estimula o sarcasmo e um sentido de humor ora sensato ora patético. O amargo pai (Jeff Daniels) deambula em estado semi-vegetativo, consumido pela perda e pela desilusão. O fio condutor do filme não é muito definido, mas as peças vão-se juntando, e o puzzle disfuncional vai-se adensanso. Os pormenores dispersos, a incoerência comportamental, a apatia e a crise de atitudes temperam este drama agridoce, com personagens que tão facilmente apaixonam como nos repelem.
Tem uma parte final a la "Secrets and Lies", onde as surpresas atacam suavemente de todo o lado, embora sem lágrimas das novelas venezuelanas. Um filme que nos entra de mansinho e se aconchega, quentinho, quentinho, como um balde de água. Splash!

[O Puto]

Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith



Tanto culto cinéfilo por esta saga e, em particular, tanto alarido por este episódio final da prequela Star Wars merecem um post aqui no Duelo ao Sol. Afinal, é neste episódio que se desfazem algumas dúvidas (se é que as havia) e os pormenores da origem do maior vilão da sci-fi é revelado.
Depois dos dois primeiros episódios algo insípidos (os próprios fãs acérrimos o admitem), era obrigação de George Lucas oferecer-nos algo de mais relevante. É certo que na génese da saga o projecto era pessoal, mas com a dimensão que atingiu isso já não pode ser reclamado. O argumento é algo previsível, mesmo para quem não seguiu atentamente a epopeia, mas os efeitos especiais são irrepreensíveis. É nestes e nas cenografias artificiais que gravita a atenção. Os actores não têm espaço para desenvolver os personagens, ao contrário dos (agora chamados de) episódios 4, 5 e 6, mas também não é algo em que se deva depositar expectativas. A Natalie Portman esteve bem (“no woman, no cry”), o Hayden Christensen ainda é muito novo e tem muito que provar, mas o que mais proliferam são personagens secundários (e terciários e quaternários e...). Não há aqui, portanto, aquele carisma que se destacava em Han Solo, Chewbacca, R2-D2, C-3PO, Yoda, Princesa Leia ou até em Luke Skywalker ou Darth Vader. O filme passa-se em velocidade expresso (apesar da duração), pois há muito que contar, há algumas fatalidades, mas nada que dê margem de manobra para divagações ou fluidez de emoção. Desconfio que George Lucas, findo o filme, deve ter pensado “Este já está despachado!”.
Mas há certas coisas que me intrigam neste episódio (e na Guerra das Estrelas em geral), mas que provavelmente são fundamentos do género. Entre elas estão estas:
- Porque é que os vilões (principalmente os humanos, pois dos outros já nem falo) são sempre feios? Mesmo Anakin Skywalker tem que perder os membros e queimar-se todo para assumir em pleno esse papel;
- Nessa galáxia muito, muito distante, e muito avançada tecnologicamente, a cirurgia plástica não evoluiu?
- Será que alguma vez pronunciaram “Count Dooku” (interpretado por um breve Christopher Lee) em português?

[O Puto]

A Canção Mais Triste do Mundo



A Brasileira, no Chiado, numa sexta-feira à tarde: "Olha! Está um filme no King, chamado «A Canção Mais Triste do Mundo», que promete! É sobre uma mulher que perde as pernas e substitui-as por umas próteses de vidro cheias de cerveja". Que ideia hilariante! É preciso dizer mais alguma coisa para me convencer a ver este filme? Não. E lá fomos nós.
A acção do filme passa-se no Canadá, durante a depressão dos anos 30, com a lei seca a imperar no país vizinho. A implacável dona de uma fábrica de cerveja (Isabella Rosselini), decide promover um concurso mundial para apurar qual a música mais triste do mundo. Claro que isto não passa de um golpe comercial para promover o consumo de cerveja. Aí entram os outros quatro personagens centrais. Há o representante dos EUA, o homem que nunca se comove e que se faz acompanhar de um aparato "broadwayano". A sua namorada ninfomaníaca, um misto de maluquinha de Arroios e personagem de um filme do Manoel de Oliveira. O seu irmão, um virtuoso mas hipersensível violoncelista, abandonado pela mulher. O pai deles, um velho demente empenhado em compensar a sua amada pela perda das duas pernas (engano seu). As situações caricatas, os toques de bizarria e as extravagâncias dos personagens são filmados num preto e branco desfocado e artificial, vindo-nos à memória David Lynch de "Eraserhead" ou "O Homem Elefante", ou então partes de "Nadja" de Michael Almereyda. Mas os pontos em comum ficam-se por aqui, pois o bizarro por vezes dá lugar ao ridículo. Mas vale a pena ver algumas cenas hilariantes, que não lembram ao diabo. As pernas cheias de cerveja são imbatíveis. Porém, no seu conjunto, o filme é algo disperso e o interesse vai-se desprendendo, culminando num final previsível.

[O Puto]

22.6.05

Mean Creek/Uma pequena vingança


Mean Creek é um filme cirúrgico. O argumento é delicado, sempre no fio da navalha, sem nunca descair para os lugares comuns da adolescência graças a uma direcção de actores espantosa, parece previsível, mas vai sempre surpreendendo, sem usar o truque de grandes twists ou revelações inesperadas. Os meios são muito escassos, grande parte da acção passa-se num pequeno bote.

Os seis actores adolescentes revelam uma maturidade de representação inesperada, principalmente se nos lembrarmos que vimos um deles no Eurotrip há pouco tempo, e que o actor principal é irmão do "Sozinho em casa" Macaulay Culkin. A única actriz - Carly Schroeder - é magnífica.

O filme fala-nos de como a natureza individual se dissolve nos grupos durante a adolescência, do difícil processo de libertação dessas pressões como afirmação da personalidade, do peso dos nossas acções, do assumir das responsabilidades, do medo, da raiva, da culpa.
Um dos filmes do ano!

20.6.05

Spanglish




É no mínimo bizarro o descrédito de qualquer filme que cheire a comédia. Como se fazer rir - ou no mínimo sorrir - não fosse um dos mais sérios exercícios de inteligência.
James L. Brooks, o realizador, foi produtor executivo de séries conhecidas como Taxi e Os Simpsons, ou de filmes como Jerry Maguire e Bottle Rocket de Wes Anderson.

Spanglish sofre com um final forçado e pouco coerente que faz com que não esteja ao nível de outra comédia conhecida de Brooks - As Good as It Gets - mas é um filme competente. Adam Sandler está fantástico e justifica por si só o visionamento do filme. Spanglish aborda uma série de questões: o choque de culturas e de estratos sociais, os problemas dos emigrantes, das mães solteiras, de afirmação dos adolescentes, da fama e da monotonia do casamento. Mas isso não é o mais importante. O que fica deste filme é o amor que aquelas pessoas sentem umas pelas outras e pelas coisas que fazem.

Num quiosque perto de si...

Por 9,90€ (cortesia do Público), pode levar para casa o melhor filme do ano.

17.6.05

Brevemente...

O Puto vai-se estrear na critica cinematográfica, fazendo um cameo neste blog.

15.6.05

Arahan



Arahan é um filme coreano que mistura cenas de artes marciais com pitadas de humor, romance e misticismo, resultando num bolo por camadas com pouca ligação. A trama é conhecida: a luta por um símbolo que é a chave do poder supremo, um vilão caricatural sem espessura, e do lado dos bons um 'escolhido' na pele de um polícia apalermado e excessivo, possivelmente inspirado por Jerry Lewis e Jackie Chan, a que repentinamente se adiciona água e se transforma num Mestre instantâneo. O realizador não deixa respirar as cenas de acção que corta para uma piada a que sucede uma qualquer reflexão sobre o confronto entre a tradição e o mundo moderno. Nunca chega a haver romance porque as personagens estão demasiado ocupadas e a cena final - que se impõe num filme do género - de confronto entre o Bem e o Mal é demasiado longa e sem novidades. Ainda assim Arahan não é um filme falhado. Tem alguma piada e uma ou duas boas cenas de acção de rua. Rapidamente nos apercebemos que é um filme despretencioso que busca apenas a diversão e deixamo-nos levar sem esforço.

13.6.05

Kung-Fu-Zão



'Kung-Fu-Zão' é o fantástico titulo português de 'Kung Fu Hustle', filme produzido, realizado, co-escrito e interpretado por Stephen Chow e cujas cenas de acção foram coreografadas pelo mítico Yuen Wo Ping, um mestre de Hong-Kong tornado famoso no ocidente pelas coreografias de 'O tigre e o Dragão', 'Matrix' ou 'Kill Bill'. O filme é um cocktail bizarro de filme de artes marciais, musical, burlesco e filme de gangsters, com umas pitadas de western-spaghetti (os fabulosos assassinos-músicos) e mesmo melodrama. Também poderia ser descrito como uma mistura de uma ópera non-sense com um videogame violento, mas o seu verdadeiro universo é o do cartoon, em que uma personagem é trucidada por um comboio numa cena e aparece na seguinte a dizer uma piada idiota com a maior naturalidade.
'Kung-Fu-Zão' bateu todos os recordes de bilheteira em Hong-Kong, mas para o espectador ocidental é um verdadeiro ovni - quem não gostar de ser surpreendido e preferir jogar pelo seguro, é melhor ir ver o 'Star Wars'...

9.6.05

Temporada de patos



Flama e Moko são dois amigos de 14 anos, que tencionam passar mais um domingo do modo habitual: a jogar videogames enquanto comem piza e emborcam coca-colas. Dois acontecimentos, porém, vão-lhes alterar a rotina. Primeiro entra-lhes pela casa dentro a vizinha de 16 anos, que quer usar o forno para fazer um bolo. Depois têm um problema com o entregador de pizas: como este chega uns segundos atrasado em relação aos 30 minutos estipulados, não lhe querem pagar a piza (um belo hábito que deveria ser importado para o nosso país), mas este não reconhece o atraso e recusa-se a arredar pé. Um verdadeiro impasse mexicano, portanto. Solução? Um videojogo de futebol entre eles e o entregador ...
Estão assim lançados os dados para o que o filme nos pretende mostrar: as relações e os pequenos jogos que se vão estabelecendo entre as quatro personagens, que acabam por passar toda a tarde juntas, nunca a câmara saindo do apartamento. Claro que um pressuposto tão minimalista só se aguenta se o argumento estiver à altura, o que é o caso, doseando um certo sentido de humor extravagante (que nos arranca umas boas gargalhadas), com um ambiente sombrio que se torna verdadeiramente deprimente. Não é uma comédia melancólica a la Wes Anderson, nem um filme melancólico com momentos cómicos como Sideways: é deprimente mesmo. Sem dúvida devido ao facto de todas as personagens terem uma angústia interior que vamos descobrindo, de todas desejarem que a vida fosse diferente, sentimentos esses simbolizados no título (a metáfora com a necessidade de migração dos patos). Corajosamente filmado num belo preto e branco, é mais um filme mexicano que vale a pena, e mais um nome de um realizador deste país a reter - Fernando Eimbcke .

8.6.05

Continua em grande



No último episódio de Sete palmos de terra o realizador deu-nos mais um pormenor delicioso: A imagem de Ruth Fisher e George Sibley a entrarem numa festa fez-nos lembrar o famoso quadro de Grant Wood (1891-1942) "American Gothic". Infelizmente não consegui encontrar essa imagem.É apenas uma curiosidade de uma série, em que especialmente nos últimos episódios nos tem mostrado emoções e sentimentos tão fortes que nos deixam atordoados e a precisar de uma bebida branca em dose dupla de preferência.



American Gothic remains one of the most famous paintings in the history of American art. It is a primary example of Regionalism, a movement that aggressively opposed European abstract art, preferring depictions of rural American subjects rendered in a representational style. The painting has become part of American popular culture, and the couple has been the subject of endless parodies. Some believe that Wood used this painting to satirize the narrow-mindedness and repression that has been said to characterize Midwestern culture, an accusation he denied. The painting may also be read as a glorification of the moral virtue of rural America or even as an ambiguous mixture of praise and satire. http://www.artic.edu/artaccess/AA_Modern/pages/MOD_5.shtml

3.6.05

Uma boa companhia



Não há que disfarçar: vamos ver o filme por causa de Scarlett Johansson e temos uma agradável surpresa: a menina tem uma participação secundária, mas mesmo assim saímos do cinema a achar que o filme valeu a pena. Pode-se considerar 'Uma boa companhia’ como uma comédia ligeira, mas no fundo é aquilo que 'A interprete' não conseguiu ser: um bom filme 'politico' (sobre a actual moda da fusão de empresas e consequentes despedimentos em massa, os famosos take-overs e let-downs), de elegante recorte clássico, solidamente ancorado num grupo de excelentes actores, com natural destaque para o veterano Dennis Quaid e o novato Topher Grace. Se pensarmos que o seu realizador e argumentista Paul Weitz ainda há meia dúzia de anos andava a fazer 'American Pies', temos aqui um verdadeiro milagre...

Ghost World



Porque será que naquelas discussões sobre grandes filmes adaptados de grandes livros, nunca ninguém se refere a 'Ghost World'?