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30.11.06

Casino Royale



Em ‘Casino Royale’ James Bond puxa mais do gatilho do que diz piadas assassinas, apanha mais no corpinho do que nos outros filmes todos juntos, corre, corre e torna a correr atrás de vilões mas rebola-se pouco com Bond girls , esfalfa-se todo e passa o filme com a cara arranhada e o corpo feito num oito. Para cúmulo chega a pôr de lado o seu proverbial cinismo e, imagine-se, apaixona-se (na realidade como este é supostamente o ‘primeiro episódio’, o cinismo veio daqui – da tampa que apanha).
Daí até ‘refundar o género’, ‘ganhar uma espessura que nunca teve’, e outras loas que tem recebido vai um passo de gigante. Se ganhou numas coisas, perdeu noutras (eu gostava das piadas assassinas e do cinismo). Casino Royale é um 007 competente e um filme de acção regular, não mais. Já agora, Daniel Craig está muito bem neste estilo musculado e, quanto mais não fosse, valia a pena ver o filme só por causa de Eva Green. Esta sim, tem entrada directa no top das mais belas Bond Girls.
Casino Royale, Grã-Bretanha/República Checa/Alemanha/E.U.A, 2006. Realização: Martin Campbell. Com: Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikkelsen, Judi Dench, Jeffrey Wright, Giancarlo Giannini, Caterina Murino, Simon Abkarian, Jesper Christensen.

28.11.06

Os amantes regulares



'Os amantes regulares' tem alguns dos planos mais belos que podemos ver este ano nas salas de cinema. A austera e quase sobrenatural fotografia a preto e branco de William Lubtchansky (colaborador habitual de Rivette ou Iosseliani, por exemplo), aliada ao irreprensível olhar estético do realizador, emergem-nos num ambiente único, a que estamos pouco habituados nesta época dominada por filmes formatados e sem risco. Neste campo, parece que estamos a ver um filme que não é deste tempo, mas mais do tempo que relata: 1968.
Sendo um olhar pessoal (e desencantado) sobre o Maio de 68, o filme é mais do que isso. O capitulo inicial mostra-nos a luta entre estudantes e policia, incluindo uma longa e estranha sequência filmada de longe, recordando-nos algo entre uma reportagem e uma cena de batalha num filme histórico. A seguir entramos no dia-a-dia dos seus protagonistas, comprometidos mas pas trop com a revolução, que basicamente passam o dia a fumar ópio - uma visão oposta ao romantismo de Bertolucci em 'Os sonhadores'. O romantismo aqui é guardado para a terceira parte, a história de amor entre Louis Garrel e Clotilde Hesme, intensa e bela, mas contaminada pelo ar da época: como pode ele pedir-lhe fidelidade? Como pode ela pedir-lhe que espere por si?
Fossem estes 'episódios' (cada um com direito a título) vistos separadamente, e eu poucos fotogramas tiraria ao filme. Mas não são, e as 3 horas de duração são excessivas, exigindo uma resistência que poucos espectadores terão - é difícil manter a nossa atenção durante tanto tempo, por maior que seja a nossa disponibilidade. Assim sendo, 'Os amantes regulares' teria necessitado, na minha opinião, de um bom corte aquando da montagem - eu apostaria na segunda parte, nas longas sequências em que apenas se fumam drogas em casa de Antoine. Não foi esse o entendimento de Philippe Garrel e tornou assim o todo menos do que a soma das partes.
Les Amants Réguliers, França, 2004. Realização: Philippe Garrel. Com: Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, Eric Rulliat, Nicolas Bridet, Maurice Garrel.

27.11.06

Infame



'Infame' é inegavelmente prejudicado por chegar às salas depois de Capote. Tal como este, cobre os anos em que Truman Capote andou a escrever 'A sangue frio', mas naturalmente ressente-se do facto de aquela curiosidade biográfica, digamos assim, que o espectador teria por este período decisivo para a consagração de Capote, ter sido já satisfeita pelo muito competente filme que o antecedeu. 'Infame' acaba assim por ser uma variação sobre o mesmo tema. Carrega ainda mais na excentricidade do escritor (o seu guarda roupa é todo um programa), deleita-se com o ambiente endinheirado, sofisticado e mundano onde este se movia (por contraste com a terriola do Kansas para onde foi investigar o assassinato dos Clutter) e, factor mais distintivo, vai muito mais longe do que 'Capote' na relação entre Truman e Perry, o 'assassino-terno' que tanto fascinou o escritor. Enquanto o filme de Bennett Miller não sugeria mais do que uma atracção algo doentia de Capote pelo criminoso, aqui há declaradamente uma atracção homossexual mútua, em parte consumada.
Na minha opinião 'Infame' é um filme inferior a 'Capote' por um simples motivo: é mais descritivo, mais demonstrativo, quer-nos enfiar deliberadamente mais informação pela goela abaixo, em vez de nos deixar algum espaço, uma aberta para respirarmos. Onde 'Capote' sugere, 'Infame ' professa. Há no entanto um aspecto que é impossível não salientar: os seus actores. Num filme que tem um elenco impressionante, não podemos deixar de referir três interpretações: em primeiro lugar a do desconhecido Toby Jones que consegue a proeza impossível de meter a (óptima) interpretação de Philip Seymour Hoffman num chinelo; depois, a de Sandra Bullock, que pela primeira vez na vida não só não assassina um filme em que entra, como está francamente bem no papel da discretamente inteligente Harper Lee, a amiga de Capote e escritora de 'To Kill a Mockingbird' (que, diga-se de passagem, deu um belo filme de Robert Mulligan); e finalmente a mais curiosa - a de Daniel Craig, que numa altura em que está na berra pelo desempenho do durão e cínico James Bond, encarna aqui o aleijado e desamparado criminoso Perry Smith.
Infamous, E.U.A., 2006. Realização: Douglas McGrath. Com: Toby Jones, Sandra Bullock, Daniel Craig, Lee Pace, Peter Bogdanovich, Jeff Daniels, Hope Davis, Gwyneth Paltrow, Isabella Rossellini, Sigourney Weaver.

25.11.06

No comments



"Tal como qualquer pessoa razoavelmente culta sabe, a verdadeira grandeza do legado histórico do cinema italiano, a sua contribuição histórica para a cultura europeia e universal do século XX, não reside no neo-realismo ou em qualquer outra excentricidade só apropriada para intelectuais degenerados, mas em três géneros únicos: os westerns-spaghetti, as comédias eróticas da década de 1970 e - sem dúvida alguma, o maior de todos - o peplum, espectáculo histórico (Hercules contra Maciste, etc.)"

Slavoj Žižek, 'A subjectividade por vir'

23.11.06

16 Blocks



'16 Blocks' tinha, à partida, um argumento com os requisitos necessários para me agradar. Um policia alcoólico e na mó de baixo (Bruce Willis) tem uma hipótese de redenção num trabalho aparentemente simples que lhe calha por acaso : transportar um prisioneiro (Mos Def) da esquadra até ao tribunal, 16 quarteirões à frente (daí o título). Acontece que este vai depor contra um conjunto de polícias, e estes farão tudo que está ao seu alcance para que ele não chegue ao seu destino. Um western disfarçado, em suma. A primeira parte até se vê bem, polícia (bom) e criminoso em fuga pelas ruas da Chinatown nova iorquina, num jogo da caça e do rato com os polícias (maus).
Acontece que às tantas o nosso par se encontra encurralado num autocarro (estes filmes são sempre uma variação de 'Rio Bravo'). O dito autocarro tem os pneus furados e está cercado por metade da policia de Nova Iorque com o aparato que conhecemos: carros atravessados, barreiras de protecção, atiradores, etc., etc. Eis se não quando, o nosso herói (que já levou uns tiros e tem a mão direita inutilizada) põe o autocarro em marcha (deitado no chão para não apanhar outro balázio), leva tudo à frente e vira na primeira esquina (sempre deitado), enquanto o autocarro é alvejado, os vidros são partidos e são arremessadas bombas de gás lacrimogéneo lá para dentro. Miraculosamente quando a polícia lá entra...este está vazio! - já os nossos heróis se evaporaram e continuam tranquilamente a sua fuga a pé pelas ruas nova iorquinas... A partir desta cena, sem dúvida a mais estupidamente inverosímil do ano, no melhor estilo tom-atropela-jerry-e-este-torna-a-aparecer-na-cena-seguinte-pronto-para-outra, é impossível levar o filme a sério. Este aliás acaba por ir definhando até a um final chocho e lamechas, mas nessa altura há muito que nos tínhamos desinteressado.
16 Blocks, E.U.A./Alemanha, 2006. Realização: Richard Donner. Com: Bruce Willis, Mos Def, David Morse, Jenna Stern, Casey Sander.

22.11.06

Robert Altman (20/02/1925-20/11/2006)



Morreu aos 81 anos Robert Altman. Realizou dezenas de filmes, alguns dos quais têm lugar cativo na história do cinema. É obrigatório citar 'Nashville' (1975), 'O jogador' (1992) e - 0 meu preferido - 'Short cuts' (1993), adaptação de vários contos de Raymond Carver. O seu último filme, 'A Prairie Home Companion', estreado este ano e ainda em exibição nas salas de cinema, teve como "assistente de realização", devido à avançada idade do realizador, P.T. Anderson, facto cujo simbolismo não passou despercebido, dada a reconhecida influência de Altman na obra deste.

Breves



* Já está na Liga dos Blogues Cinematográficos o ranking do mês de Outubro (mês em que as estreias dos dois lados do Atlântico andaram algo dessincronizadas). O filme do mês foi 'A Dália Negra' de Brian De Palma, com uma média de 7,68 em 45 votantes.

* A não perder: um blogue com previsões para os Oscares!

* Agradecer a António Rosa a extrema amabilidade de nos considerar um dos melhores blogues temáticos cá do burgo.

Aditamento: O In mente e o (eter) também votaram em nós na iniciativa do Geração Rasca. Muito obrigado a ambos.

20.11.06

O Perfume



'O perfume' (o livro) é um best seller perene: já vendeu qualquer coisa como 15 milhões de exemplares e ainda hoje, mais de 20 anos depois da sua publicação, a probabilidade de um nosso vizinho na praia ou no avião o estar a ler é elevada. Só admira, assim, que tenha demorado tanto tempo a chegar ao grande ecrã. Ao que parece, não só Süskind (uma espécie de recluso) se mostrou sempre reticente em vender os seus direitos, como uma série de realizadores que se interessaram pelo livro - incluindo Kubrick , Scorsese e Tim Burton! - acabaram por o declarar 'infilmável'. Seja como for, 10 milhões de euros acabaram por convencer o escritor alemão a ceder os direitos autorais ao seu compatriota Bernd Eichinger (produtor de 'A queda') e a criança foi parar às mãos de Tom Tykwer, realizador de 'Corre Lola, corre' e dum muito bom episódio no recente 'Paris je t'aime'.
Toda a gente já conhecerá o seu enredo base, mas vale a penas recordar: passado na Paris do século 18, conta-nos a história de Jean-Baptiste Grenouille, que nasceu com duas características especiais - não tem cheiro (o que o torna 'invísivel' para os restantes seres humanos, ideia algo desperdiçada no filme) e possui um olfacto inigualável. A dificuldade, já se vê, está precisamente no cerne do argumento: como filmar um sentido como o olfacto?
Tom Tykwer simplifica imensamente a narrativa, amputando o filme da parte mais flaubertianamente irónica do livro - aquela em que Grenouille é mostrado como atracção de feira por um Marquês iluminado - e despacha em 2 minutos a mais insólita - a dos longos anos de isolamento do nosso heroí numa caverna na montanha. Concentra-se na parte mais sanguinolenta - Greunoille como assassino de jovens virgens - e carrega um pouco no voyeurismo, embora a cena a la Spencer Tunick até seja comedida. Quanto à questão central do olfacto, despacha-a com uma série de grandes planos do nariz do herói (27, segundo consta) que evidentemente é o mesmo que filmar repetidamente a cabeça de alguém para mostrar os seus profundos pensamentos. Apesar de tudo, o filme tem os seus méritos: sólidos valores de produção (não parece uma coisa pobrezinha europeia a armar-se em grande produção de Hollywood - parece mesmo uma grande produção), um bom casting (o actor principal é como a Coca Cola - primeiro estranha-se, depois entranha-se), uma bela fotografia e - qualidade maior sem a qual as anteriores seriam irrelevantes - nota-se que o realizador sabe o que está a fazer e, goste-se mais ou menos, tem uma ideia de cinema. Fica, assim, um degrau acima do telefilme de luxo. Não é certamente um Chanel 5, mas também não direi que não é flor que se cheire. C'est comme ci, comme ça.
Perfume: The Story of a Murderer, Alemanha/França/Espanha, 2006. Realização: Tom Tykwer. Com: Ben Whishaw, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood, Corinna Harfouch, Birgit Minichmayr.

Uma boa ideia...

17.11.06

Livraria



Na introdução, o autor de ‘o que Sócrates diria a Woody Allen’, Juan Antonio Rivera (professor catedrático de filosofia na Universidade de Barcelona), explica-nos os seus propósitos: “Escrevi este livro como uma introdução à filosofia para amantes de cinema e, simultaneamente uma introdução ao cinema para amantes de filosofia (filofilósofos)”.
O livro é dividido em duas ‘bobinas’, uma dedicada a ‘questões psicológicas’, outra dedicada a ‘questões morais’. Fundamentalmente o que o autor faz é discutir e apresentar questões filosóficas, nomeadamente no domínio da ética, através da análise de determinados filmes. Estes podem ser clássicos como ‘The reckless moment’ de Olphus ou ‘Há lodo no cais’ de Kazan (sobre a ‘formação do gosto moral’), ‘Hanna e suas irmãs’ ou ‘Citizen kane’ (‘o que não se pode conseguir pela força de vontade’), ‘The man with the golden arm’ de Preminger ou ‘Lost weekend’ de Billy Wilder (‘como combater a falta de vontade’ - não se deixe enganar pelo titulo: a partir do conceito de metapreferências o autor discute de uma forma muito interessante a falta de vontade; não tem nada a ver com discursos de 'auto-ajuda'!); podem ser filmes mainstream mais ou menos ignorados como The Family Man (penso que por cá se chamou Dois destinos) de Brett Retner, com Nicholas Cage, longamente tratado nos capítulos ‘ outras vidas são possíveis’ e ‘a árvore de decisão vital’, em que é analisado o fascinante tema das escolhas que efectuamos em dados momentos da nossa vida, da incerteza sobre até onde essas escolhas nos conduzirão e do modo como afectarão outras pessoas além de nós – os chamados ‘efeitos borboleta horizontais’, de que também é dado o clássico exemplo de ‘It´s a wonderful time’, de Capra (qual o cinéfilo que não se lembra da cena em que o ‘anjo de segunda classe’ Clarence mostra a George/James Stwart como seria a vida na sua pequena cidade caso ele não tivesse nascido?). A propósito vale a pena citar as últimas frases deste capítulo, exemplificativas da ironia erudita e despretensiosa do autor: 'e o filme termina com uma emocionante exaltação do amor fati nietzcheano' (conceito já antes discutido, que ninguém se assuste!). E conclui : 'este é seguramente o único ponto de contacto entre Nietzche e Capra'. Temos ainda temas abordados a partir de filmes desconhecidos, como ‘o tédio como fonte de maldade’ analisado a partir de ‘Calle mayor’, de Juan Antonio Bardem - onde se prova o talento do autor pois não só nos consegue prender na mesma a atenção como nos provoca a vontade irreprimível de ver o filme em questão; e claro, temos associações mais óbvias para o leigo, como ‘a preferência ética por viver num mundo real’ analisada com base em ‘Truman Show’ e no inevitável ‘Matrix’, cujo apelo junto dos espectadores de cinema rivaliza com o que tem tido junto dos filósofos, desde Zizek (que recorde-se foi buscar o titulo do seu livro ‘Bem vindo ao deserto do real’ a uma frase de Neo) até Desidério Murcho. Como sintetiza Rivera, ‘pondo de lado a estética futurista e as psicadélicas artes marciais, o assunto de 'Matrix' parece importado da metafísica platónica'.
Apresentada a estrutura e conteúdo do livro, elogiemos agora a maneira como está escrito, de uma forma sempre muito clara, acessível e interessante, sem deixar nunca de ser rigoroso e objectivo, inscrevendo-se na linhagem anglo-saxónica de divulgação da filosofia, sem tecnicismos desnecessários mas sem atraiçoar a sua verdadeira natureza. Este feito é tanto mais notável quanto além dos filósofos clássicos como Platão ou Kant, aparecerem aqui outros mais actuais como Robert Nozick ou Jon Elster, bem como conceitos como ‘subprodutos’ ou ‘apetite de fausto’ (abordado a partir de filmes tão diversos como 'Desafio total’, ‘A rosa purpura do cairo’ e ‘The red shoes’) com que um leigo estará certamente menos familiarizado. O maior elogio que se pode fazer ao autor é que nos faz repensar os filmes que aborda e já conheciamos, nos provoca a vontade de ver os que desconhecemos e nos faz olhar definitivamente para qualquer filme com outros olhos.

16.11.06

Faça favor...



'Faça favor...' é um inteligente e muito divertido filme de linhagem clássica, que prova que comédia não tem que rimar com alarvidade. Um chefe de sala de um restaurante de luxo (Daniel Auteuil) salva um deprimido - devido a males de amor - do suicídio (José Garcia) e a partir daí toma como sua missão recompor-lhe a vida, incluindo juntá-lo de novo com a mulher que o deixou. O argumento é desenvolvido com engenho, sensibilidade e precisão, movendo-se o filme habilmente entre a comédia de enganos, a comédia romântica e intercalando alguns toques de absurdo. Acrescente-se um óptimo elenco, uma realização desembaraçada e imaginativa e uma montagem perfeita. Numa época em que nos querem impingir como comédias Clicks e outras tretas que tal, 'Faça favor...' é uma lufada de ar fresco que se saúda vigorosamente... mesmo que que tenha chegado a Portugal três anos depois da sua estreia!
Après Vous..., França, 2003. Realização: Pierre Salvadori. Com: Daniel Auteuil, José Garcia, Sandrine Kiberland, Marilyne Canto.

13.11.06

The Departed: Entre inimigos



Como é sabido, 'The departed' é um remake do filme de culto (e campeão de bilheteira em Hong Kong) 'Infernal Affaires', realizado em 2002 por Andrew Lau e Alan Mak. Se começo por aqui é porque as similaridades entre os dois filmes são inegáveis: não só o argumentista William Monahan segue de muito perto a história original, como algumas das cenas mais marcantes - o encontro no prédio, o contacto telefónico entre os dois infiltrados, a cena no elevador - são comuns aos dois filmes. 'Infernal affaires' é um muito bom filme e não há dúvida que 'The departed' lhe deve muito. É assim normal que o brilho deste surja para muitos - que não para mim - empalidecido pela sombra do primeiro. Recorde-se no entanto que, como já tem sido notado, as coisas são mais complexas do que parecem: todo o cinema de acção de Hong Kong, de que 'Infernal Affaires' é um excelente exemplo, deve muito ao realizador de 'Mean Streets' e 'Goodfellas'. Um filme passado no submundo do crime, com personagens moralmente ambiguas, à procura de si mesmas...a que é que isto nos soa? Scorcese? Right.
Posto isto, e sendo eu admirador do filme original, como já disse, penso que 'The Departed' é um filme mais denso. Scorcese dispensa a economia narrativa do primeiro (o seu filme tem quase mais 1 hora) a favor de um olhar mais prolongado sobre as suas personagens, nomeadamente a de Billy Costigan/Leonardo diCaprio - o infiltrado que a policia tem no grupo de gangsters. Os dois chefes (este é todo um filme de simetrias, ou usando um palavrão -de Doppelgänger) são também mais desenvolvidos, bem como as relações existentes entre eles e entre os seus protegidos, muito pelo peso imposto pelos actores que os encarnam, Martin Sheen (o polícia) e claro, Jack Nicholson (o gangster) - já alguém viu Nicholson ser verdadeiramente um actor secundário? Mas voltemos a DiCaprio, que finalmente mostra porque é que Scorcese viu nele o sucessor de DeNiro, tendo uma performance notavel de vulnerabilidade mal disfarçada, e roubando com a cumplicidade descarada do realizador o filme a toda a gente (incluindo o seu doppelgänger Matt Damon - o infiltrado pelo chefe da Mafia na policia). Costigan está desde o principio marcado pela sua origem, mas paradoxalmente anda o filme todo à procura da sua identidade. Cresceu nos bairros dominados pela Mafia, é de ascendência italiana, tem parentes ligados à criminalidade - em suma, vem do lado dos 'maus'. Apesar de uma brilhante carreira na academia é-lhe logo dito sem rodeios pelo seu futuro chefe que nunca será um polícia. Só lhe dão uma hipótese de o ser: infiltrando-se entre os seus, ou seja, fingindo ser aquilo que seria natural pela sua história ser. Os seus antecedentes, contrariamente à sua vontade, tornam-no a pessoa ideal para esta missão. Apesar de escolher o lado dos 'bons', a sua 'árvore de decisão vital', como lhe chamam os filósofos, está limitada pelas suas origens e para alcançar o fim que deseja tem que tomar um caminho alternativo que é o único que lhe é permitido. Costigan, infiltrado anos a fio no meio da Máfia, sem poder revelar a sua verdadeira identidade, vai-se sentindo cada vez mais angustiado e perdido, ao ponto de implorar à sua psicóloga que lhe dê drogas para poder dormir - para poder escapar algumas horas ao mundo 'real'. Da mesma maneira que Sharon Stone em 'Casino' (a última obra-prima de Scorcese) se perdia e perdia deNiro por não se conseguir libertar do seu passado (James Woods) e fingir ser quem não era, também aqui DiCaprio se vai perdendo ao fingir ser quem não é, estando desde o início marcado pela sua ascendência. Aliás, pode-se dizer que todas as personagens estão marcadas por este jogo de fingimentos, por este jogo de espelhos. Não é por acaso que o filme se chama 'The Departed' - os defuntos, à letra. E por isso faça todo o sentido que o final seja diferente do de 'Infernal Affaires'. E que ironicamente, para este suposto 'happy ending', tenha que haver mais uma morte que no seu precedente ...
The Departed, E.U.A., 2006. Realização: Martin Scorcese. Com: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Martin Sheen, Ray Winstone, Vera Farmiga, Alec Baldwin.

8.11.06

La jetée



Também eu só agora vi este photo-roman de Chris Marker. São 29 minutos quase sem imagens em movimento (há uma excepção), que nos deixam quase sem palavras.
É radicalmente original, tragicamente romântico, maravilhosamente cinéfilo (há um evidente fascínio por 'Vertigo'). Tudo isto, repito, num filme de ficção científica de 29 minutos, sem diálogos e praticamente constítuido por uma sucessão de fotografias a preto e branco. É obra (-prima).
La jetée, França, 1962. Realização: Chris Marker. Com: Hélène Chatelain, Davos Hanich, Jacques Ledoux, Jean Négroni (voz).

6.11.06

Paris, je t`aime



A ideia por trás deste filme até é interessante: foram convidados 20 realizadores (16+ 2 duos) a realizarem uma curta-metragem de 7 ou 8 minutos, sendo a única obrigatoriedade passar-se num dos bairros de Paris. Infelizmente o resultado não é famoso, devido à completa falta de interesse de metade dos episódios, que oscilam entre o anódino (a maior parte) e o francamente dispensavel (Sylvain Chomet, Nobuhiro Suwa). Escapam a esta mediocridade o despojadamente romântico 'Quais de Seine' de Gurinder Chadha, o melancólico '14e arrondissement' de Alexander Payne e, já verdadeiramente interessantes, o quase burlesco sketch dos irmãos Coen (com o grande Steve Buscemi), ' Père-Lachaise' de Wes Craven (que apesar de se passar no famoso cemitério não é de terror, mas tem um toque de fantástico), o belo 'Le Marais' de Gus van Sant, o surpreendente 'Parc Monceau' de Alfonso Cuaron (com Nick Nolte e Ludivine Sagnier) e a cómica e romântica história de vampiros (!) de Vicenzo Natali. Especial destaque merece o muito divertido 'Quartier Latin' de Gérard Depardieu+Frédéric Auburtin, que valeria a pena só para ver dois dos maiores actores de sempre, os cassavetianos Gena Rawlands (que escreveu o episódio) e Ben Gazzara. Surpreendentemente a nota máxima vai para 'Faubourg Saint-Denis', pequena obra-prima do alemão Tom Tykwer (o cineasta de 'Corra Lola, corre'), história de amor entre um jovem cego e uma jovem actriz (Natalie Portman).
Paris je t'aime, França/Liechtenstein/Suiça, 2006. Realização: Oliver Assayas, Frédéric Auburtin & Gérard Depardieu, Gurinder Chadha, Sylvain Chomet, Joel & Ethan Coen, Isabel Coixet, Wes Craven, Alfonso Cuarón, Christopher Doyle, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Alexander Payne, Bruno Podalydès, Walter Salles & Daniela Thomas, Oliver Schmitz, Nobuhiro Suwa, Tom Tykwer, Gus Van Sant. Com: Maggie Gyllenhall, Gérard Depardieu, Ben Gazzara, Gena Rowlands, Steve Buscemi, Miranda Richardson, Nick Nolte, Ludivine Sagnier, Fanny Ardant, Bob Hoskins, Elijah Wood, Catalina Sandino Moreno, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Natalie Portman.

3.11.06

Les anges exterminateurs



'Coisas secretas' é um filme erótico (eu sei que o termo está colado a Emanuelles e afins, mas pronto) sobre duas mulheres, amantes, que usam o sexo para 'subir na vida'. É um filme curioso, mas não mais do que isso. Não obstante, quando saiu em 2002 (por cá foi directamente para dvd o ano passado) excitou muito bom crítico, recebendo o seu realizador Jean-Claude Brisseau o epiteto de grande subversivo e provocador. Os Cahiers du Cinéma deram-lhe mesmo o primeiro lugar (compartilhado com 'Dez' de Kiarostami) no seu top desse ano! Mas a bomba surgiria um par de anos mais tarde: Brisseau foi acusado de assédio e agressão sexual por quatro actrizes que tinham feito testes de casting para o filme, mas que não tinham obtido um papel. Seria julgado o ano passado e condenado a uma pena suspensa de um ano e a pagar 15.000€ de indemnização (apesar de tudo livrou-se de ficar inscrito num ficheiro de delinquentes sexuais, que pelos vistos existe em França). No mesmo ano, o realizador (de 61 anos e uma carreira de 3 décadas, mas com apenas meia dúzia de filmes) anunciou que estava a terminar uma nova obra com um argumento inspirado neste desagradável episódio da sua vida - 'Les anges exterminateurs', precisamente, que passou por cá na recente Festa do Cinema Francês.
Este filme pode ser então visto como uma defesa por parte de Jean-Claude Brisseau e, porque não, como uma expiação ou exorcismo. Diga-se desde já que é uma defesa sui generis: durante hora e meia um realizador (obviamente alter ego de Brisseau) que pretende realizar um filme sobre o prazer das mulheres, sobre os seus limites, faz testes a potenciais actrizes ('porque isto não lhes é ensinado na escola de teatro') que consistem em estas se acariciarem, sozinhas ou em grupo. Não só em frente à câmara, em quartos de hotel, mas também à mesa de um restaurante, por exemplo. Esta hora e meia provoca-nos duas perplexidades: em primeiro lugar parece que o realizador está a dar parte da razão a quem o acusou - a própria mulher do seu alter ego lhe está sempre a dizer que aquilo vai acabar mal, e não há espectador que não tenha aquele sentimento tão popular do 'estava mesmo a pedi-las'!; em segundo lugar, e não obstante alguma retórica justificativa, parece que estamos assistir a um filme, não direi pornográfico, mas que não andará lá longe. O realizador reserva apenas o último quarto de hora para descrever a acusação de que é alvo (o seu personagem) e a sua 'defesa'. Não há duvida que esta opção é bastante desconcertante e redimensiona toda a nossa percepção do filme, elevando-o a um patamar que não parecia alcançável. A sua defesa é subtil: nunca tocou nas raparigas; não lhes prometeu nada; elas são actrizes e fazer uma cena de sexo num casting é apenas trabalho; e finalmente, sugere que foi o facto de algumas se apaixonarem por ele que motivou a vingança (uma deles explica-lhe muito freudianamente que se apaixonam por ele por ser tão paternal). E nós poderiamos acrescentar que eram todas maiores de idade e ninguém foi obrigado a nada. É claro que o filme levanta uma série de questões muito interessantes, ou não fosse Brisseau um realizador profundamente cerebral (não há aqui qualquer contradição): e para este 'Les anges exterminateurs' , que envolve cenas sexualmente muito mais explícitas que 'Choses secrètes' Brisseau não fez testes às actrizes? Desistiu do seu método? Ou desta vez obrigou-as a assinar algum tipo de compromisso?
Um filme que acaba por nos conquistar pela sua inteligência e, já agora, ousadia.
(PS: Brisseau filma muito, muito bem - quando falamos em pornográfico nada tem a ver com a estética destes filmes, bem entendido.)
Les anges exterminateurs, França, 2006. Realização: Jean-Claude Brisseau. Com: Frederic Van Den Driessche, Maroussia Dubreuil, Lise Bellynck, Marie Allan, Raphaële Godin, Margaret Zenou

1.11.06

O diabo veste Prada



Estando longe de ser uma obra-prima, 'O diabo veste Prada' tem algumas qualidades não despiciendas, a menor das quais não é conseguir dar-nos um cheirinho das sophisticated comedy dos anos 30. David Frankel não é um Lubitsch nem um Hawks, bem entendido, mas conduz o filme com fluidez, segurança e elegância, tirando o melhor partido das suas excelentes actrizes, Meryl Streep (que faz este tipo de papeis com uma perna às costas) e Anne Hathaway. Pena que o argumento não vá tão longe quanto podia na sátira ao efervescente mundo da moda e aos pequenos deuses (ou diabos!) gananciosos que gera. Não só não aguça suficientemente a tesoura, como ainda enfia algumas deixas 'moralistas' um bocadinho irritantes e desnecessárias (do género 'eras tão boa rapariga, mas agora que tens sucesso já nem te reconheço'). Não nos queixemos demasiado, no entanto: fossem todos os filmes mainstream como este...
The Devil Wears Prada, E.U.A., 2006. Realização: David Frankel. Com: Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Stanley Tucci, Adrian Grenier, Tracie Thoms, Rich Sommer, Simon Baker.

Obrigado...



...ao excelente - e cinéfilo - Um blog sobre Kleist pela muito simpática referência que nos fez.