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21.10.09

François Truffaut (06/02/1932-21/10/1984)


Faz hoje 25 anos que faleceu, com 52 anos de idade, vítima de um tumor cerebral, François Truffaut. Três dias depois seria o seu funeral, seguido por milhares de anónimos, mas também por muitas das mulheres que amou (onde se contam Jeanne Moreau, Claude Jade, Françoise Dorléac, Jaqueline Bisset, Leslie Caron, Catherine Deneuve, Fanny Ardant, Madeleine Morgenstern), tal como ocorreu no funeral de Morane, em o ‘Homem que gostava das mulheres’.

É impossível ser-se um cinéfilo e não amar Truffaut, paradigma por excelência do cinéfilo, de quem se diz que terá visto mais de 3000 filmes entre 1946 e 1956, dois e três por dia, encontrando nas salas de cinema um refúgio a um lar hostil, com um pai ausente e que nunca conheceu (foi o padrasto que lhe deu o apelido) e uma mãe que o não amava (e são os seus filmes que o confirmam, não estou a fazer qualquer tipo de psicologia barata). Dessas sessões começou a organizar arquivos sobre filmes e realizadores, prenúncio da actividade que primeiro o celebraria: a de critico cinematográfico.

E foi apenas um dos mais importantes e influentes do século, cunhando a célebre teoria do cinema de autor, defendendo realizadores americanos como Hitchcock ou Hawks, de quem conhecia os filmes de cor, muitas vezes fotograma a fotograma, contra o cinema francês da época, “a tradição de qualidade”, lançando as sementes para a Nouvelle Vague. Mais tarde teria ainda as célebres conversas com Hitchcock, reunidas num livro de leitura obrigatória a qualquer pessoa que pense o cinema como algo mais que um acompanhamento para comer pipocas.

Se a sua importância como critico é incontestada, a importância dada ao seu legado como realizador tem variado, e penso que não exagerarei ao dizer que hoje em dia colegas seus da Nouvelle Vague como Rohmer, Rivette ou Godard gozam mais dos favores da critica do que Truffaut. Só ‘Os 400 golpes’ e ‘Jules e Jim’ são habitualmente citados como obras-primas e não se costuma ir muito além disso no conhecimento da sua obra. Eu acrescentaria, pelo menos, ‘As duas Inglesas e o continente’ e ‘Atirem sobre o pianista’ como filmes obrigatórios em qualquer lista de ‘melhores de sempre’. E outros, como ‘Beijos roubados’ e ‘Angústia’, contam-se entre os meus filmes preferidos.
Mas há vida para além destes filmes, e não há nenhum dos 24 que realizou (21 longas e três curtas) que não valha a pena ver. Como recordação repesco aqui dois posts que escrevi sobre dois filmes fundamentais para conhecer Truffaut, como cineasta e como homem (e todos os seus filmes são muito autobiográficos, formando a sua obra um conjunto inseparável): ‘A noite Americana’, a maior declaração de amor ao cinema que já vi (e compare-se, por contraste, com as mais que cínicas visões que Hollywood nos deu de si própria) e ‘Amor em fuga’, o filme que encerra o extraordinário ciclo Doinel, 20 anos depois de ‘Os 400 golpes’.

Nunca mais ninguém conseguiu transmitir uma tristeza persistente por trás de uma aparente leveza e leviandade, como Truffaut nestas (e noutras) obras.


2 comments:

Victor Afonso said...

Belo texto. Parabéns.

Truffaut para sempre, de facto.

Harry_Madox said...

Merci.

É o unico realizador cuja vida me interessa (quase) tanto como a obra.