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31.5.05

TOPMANIA II/2

Refiz o post original porque não cumpria o pressuposto de escolher apenas um filme por década.



Metropolis (1927), Fritz Lang
A night at the opera (1935), Sam Wood
Spellbound (1945), Alfred Hitchcock
The seven year itch (1955), Billy Wilder
Midnight Cowboy (1969), John Schlesinger
A clockwork orange (1971), Stanley Kubrick
Drugstore Cowboy (1989), Gus Van Sant
Wild at heart (1990), David Lynch

Nicotina



Este filme tem 2 méritos:
1) O facto de ter passado completamente despercebido pelas salas de cinema, reconcilia-nos momentaneamente com os gostos dos espectadores portugueses.
2) É um excelente exemplo da diferença entre ser inspirado por e copiar: Amor Cão é um bom filme, nitidamente inspirado em Pulp Fiction; Nicotina é uma cópia rasca dos dois.

30.5.05

TOPMANIA

Inspirado numa lista feita pela revista Time e também aqui, eis os meus filmes favoritos de cada década:



The General (1927), Buster Keaton
M (1931), Fritz Lang
Casablanca (1942), Michael Curtiz
Vertigo (1958), Alfred Hitchcock
The man who shot Liberty Valance (1962), John Ford
Cet obscur objet du désir (1977), Luis Buñuel
Dead Ringers (1988), David Cronenberg
Pulp Fiction (1994), Quentin Tarantino
Lost in translation (2003), Sofia Coppola

P.S.: Embora um grande número dos meus filmes favoritos sejam dos anos 50 e 60, paradoxalmente não tive grandes dúvidas em escolher os 2 representantes destas décadas! As maiores dificuldades? Décadas de 40, 90 e 00...

26.5.05

Tarnation



O dicionário inglês-português diz-nos que Tarnation é o equivalente em calão americano a damned. Esta palavra conhecemos, mas vale a pena ver a primeira tradução que o dicionário nos dá para ela: 'votado às penas eternas'. De facto não haveria melhor titulo para este auto-retrato de Jonathan Caouette: com 2 ou 3 anos foi adoptado por uma família que o espancava regularmente, aos 4 anos assistiu à violação da mãe por um desconhecido que lhes deu boleia, aos 11 realizava os seus próprios home movies , filmando-se a si próprio vestido de drag queen a queixar-se da violência dum suposto marido, aos 13 disfarçava-se de 'miúda gótica' para entrar em bares gay para maiores de 18, etc., etc. Enquanto isto ia convivendo com as perturbações mentais da Mãe (que adorava), sempre a entrar e a sair de Hospitais psiquiátricos onde recebia tratamentos à base de choques eléctricos que a desequilibraram para sempre...não espanta que o realizador tenha achado que a sua vida dava um filme!
No modo como este filme foi feito reside a sua maior originalidade, que lhe trouxe um assinalável reconhecimento. Desde tenra idade que Jonathan Caouette se filmava a si próprio e à família com uma câmara super 8 oferecida pelos avós - pegou então em todo este material (mais de 160 horas!), juntou-lhe fotografias, gravações do atendedor de chamadas, filmes caseiros, etc., misturou tudo no computador com um programa iMovie e colou-lhe umas legendas e uma banda sonora imaculada. O resultado é uma espécie de cruzamento entre 'Capturing the Friedmans ' e um filme underground gay, sendo por vezes comovente, por vezes alucinado, sempre narcisista, frequentemente chato, não raras vezes irritante. Ah! - e tudo isto feito com 200 dólares!

23.5.05

A pequena Lili



Este filme realizado pelo francês Claude Miller é livremente baseado
n´'A gaivota', transpondo a acção para a actualidade. Ao início o argumento segue mais ou menos fielmente a peça de Tchékhov, sendo uma espécie de versão modernaça: assim Treplev, o escritor que procurava novas formas dá lugar a Julien, realizador de um filme experimental montado por computador; Nina é a nossa Lili,a sua namorada e actriz do filme; Arkadina é Mado, naturalmente não uma grande dama dos palcos, mas uma movie star; e Trigorin é Brice, o amante e realizador famoso dos seus filmes. Esta primeira parte, chamemos-lhe assim, é francamente mazinha, sendo as personagens meras caricaturas das originais, com destaque para Julien, um menino mimado e mal-educado, a milhas do revoltado e complex(ad)o Treplev. Às tantas, no entanto, o argumento tem um golpe de asa, afastando-se completamente de Tchékhov e propondo um rumo alternativo para as personagens, voltando engenhosamente à peça no final. Embora nunca atinja altos voos, torna-se francamente mais interessante: libertando-se do pesado fardo das comparações dá alguma vida própria às personagens e consegue mesmo provocar alguma expectativa no espectador conhecedor da peça.
Falemos agora dos actores: o filme foi feito nitidamente para Ludivine Sagnier, mas na minha opinião ela está a milhas da sensualidade exibida em Swimming Pool, não obstante nos prendar com um nu integral ainda o filme está no genérico inicial! Quanto a Robinson Stévenin (Julien), um actor que parece incrivelmente um cruzamento entre Jonnny Depp e Emmanuelle Béart sem a beleza de nenhum deles, está bem melhor no papel de pessoa-que-encontrou-a-paz que no de menino zangado; Nicole Garcia (Mado) e Bernard Giraudeau (Brice) despacham a coisa com competência mas não mais, e assim o destaque vai inteirinho para dois actores que interpretam personagens secundárias: Jean-Pierre Marielle dá-nos um magnífico Simon/Sorin e Julie Depardieu uma muito bela Jeanne-Marie/Masha, personagem que aqui ganha grande relevo e a única que rivaliza com a original.

22.5.05

Cannes 2005



Seis anos depois de terem recebido a Palma de ouro em Cannes com Rosetta, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne repetiram o feito com L'Enfant . Depois de Cronemberg, foi agora a vez de Kusturika (também vencedor por duas vezes) os premiar. Para o filme que me criou mais expectativas pelas criticas lidas, Broken flowers de Jim Jarmush com Bill Murray, ficou reservado o Grande Prémio do Juri. Uma boa noticia é que ambos os filmes já têm distribuição assegurada em Portugal.
De destacar ainda os dois prémios atribuídos a filmes portugueses no âmbito da Quinzena dos Realizadores: Odete de João Pedro Rodrigues recebeu uma Menção Especial dos Cinémas de Recherche e Alice de Marco Martins o Prémio Regards Jeunes .

PS: Todos os prémios aqui.

20.5.05

Uma canção de amor



Gosto de histórias de loosers e miúdas redentoras. Se tudo se passar na América profunda, com uns ecos Shepardianos, mais um ponto a favor. Se os loosers forem ex-professores de literatura, que vão polvilhando o enredo com citações literárias, melhor ainda. E se a miúda redentora for a Scarlett Johansson aí nem se fala...Quem não passaria de bom grado dois anos a chafurdar no álcool, para depois ser salvo por esta menina?
Bom, agora estava na altura de falar do argumento algo frouxo, da interpretação mesmo, mesmo, no limite de John Travolta, naquele limbo entre um grande desempenho e um amontoado de tiques e lugares comuns, mas penso que os leitores não me levarão a mal se aproveitar antes o espaço para realçar o que filme tem de melhor para nos oferecer:

14.5.05

Mondovino



Mondovino já foi acusado de ser uma espécie de Sideways filmado por Michael Moore. Ou seja um documentário politico, de esquerda, manipulador, servindo-se do mundo do vinho como pretexto para atacar a globalização. É verdade que Jonathan Nossiter tem uma opinião política, militante digamos, sobre este mundo: que os grandes produtores (representados pela poderosa familia americana Mondavi), ajudados por alguns enólogos 'superstars' (representados por Michel Rolland, o mais famoso da actualidade) e críticos de vinhos interesseiros (representados pelo influentissimo Robert Parker) estão a impor um 'gosto' aos consumidores, normalizando-o, condenando assim os pequenos produtores, os que ainda produzem vinhos com especificidades próprias. É também verdade que Nossiter tem algumas das virtudes de Michael Moore: o sentido de humor (pré- Fahrenheit 9/11) e a capacidade de caracterizar as pessoas deixando-as simplesmente falar. Mas tudo o resto é diferente, é outro mundo. Desde logo a maneira de filmar, com enquadramentos muito originais e a câmara sempre irrequieta, a montagem muito trabalhada e conseguida, que afastam totalmente Mondovino do género documentário televisivo. Ou seja, Nossiter é mais cineasta. Mas, a diferença definitiva é o fascínio de Nossiter pelas pessoas que filma (mesmo por aquelas de que não gosta). Michael Moore serve-se das pessoas para demonstrar uma tese; Nossiter deslumbra-se com as pessoas e até nos faz esquecer que nos está a ser enfiada uma tese. Embora seja um profundo conhecedor de vinho - foi escanção, por exemplo - e se note a sua paixão por ele, a sua matéria de eleição aqui são as pessoas que encontrou neste mundo, todas elas personagens bigger than life, desde o aristocrata francês Herbert de Montille e a sua orgulhosa e intransigente filha à poderosa familia americana Mondavi (e repare-se que dos pequenos aos grandes produtores os negócios estão sempre na mão de famílias). Em entrevista ao Público o realizador disse algo muito interessante: "Quando visitei a propriedade da família de Montille senti-me como num filme de Marcel Carné ou Jean Renoir. Quando filmei Michel Rolland, achei-me no mundo Hollywoodiano dos anos 80. Já com Battista Columbu na Sardenha tive a impressão de estar dentro de um filme de Rossellini ou de Sicca". E nós poderiamos continuar: quando visita as famílias dos produtores aristocráticos italianos Frescobaldi e Antinori lembramo-nos inevitavelmente do Leopardo de Visconti, os aristocratas a passarem o testemunho à 'burguesia', ou seja, à familia Americana Mondavi, que aliás nos faz lembrar...os Corleoni! É claro que só podemos dizer bem de um filme que nos dá uma galeria de retratos como esta, e até desculpamos a Nossiter algum maniqueísmo, traduzido no facto de não resistir a ridicularizar desnecessariamente os 'poderosos', como quando nos mostra duas jovens de uma família 'bem' italiana a dissertarem sobre o bem que Mussolini fez ao seu país ou uma rica proprietária Americana a dizer que tratam os empregados Mexicanos como iguais, até lhes dão umas tshirts e tal! Não é que não gostemos de Michael Moore, mas quando nos estão a servir Renoir ou Visconti...

12.5.05

TOPMANIA

Respondendo ao desafio da Xispinha, aqui fica o meu TOP TEN das MORTES MAIS CINEMATOGRÁFICAS:



1. Ao fim de quase meia hora de filme, Marion Crane (Janet Leigh), até aí a principal protagonista, é assassinada no chuveiro, numa das cenas mais famosas do cinema - estamos a falar de Psycho, claro.

2. Só no final do filme é que o Sargento Neil Howie (Edward Woodward) descobre porque é que foi chamado à Summerisle...para ser sacrificado! - em The Wicker Man.

3. Lewt McCanles (Gregory Peck) e Pearl Chavez (Jenifer Jones) morrem nos braços um do outro depois de um íncrivel Duelo ao Sol.

4. A hilariante morte acidental de Marvin (Phil LaMarr), após Vicent (John Travolta) disparar a arma sem querer, em Pulp Fiction.

5. A indescritível morte de Marty (Dan Hedaya), acabando por ser enterrado ainda vivo, em Blood Simple/Sangue por sangue.

6. O impressionante suicidio dos irmãos Mantle (Jeremy Irons) em Dead Ringers/Irmãos inseparáveis.

7. Joe Gillis (William Holden) abatido com 3 tiros em O crepusculo dos Deuses e acabando a boiar na piscina, o que não o impede de ser o narrador do filme, contando-nos toda a história que levou a este desenlace!

8. O prolongadíssimo assassinato de Brenda Blaney (Barbara Leigh-Hunt) em Frenzy.

9. A prolongadíssima morte de Mr.Orange (Tim Roth) em Cães Danados.

10. Terminámos, como começámos: com outra morte famosíssima - Charles Foster Kane (Orson Welles) a murmurar Rosebud em Citizen Kane.

7.5.05

Extensão Indie-Lisboa 2005 (III)



Vi este filme por acaso. Podia ter encontrado um amigo a caminho do cinema e ter ido beber um copo com ele. Depois entediava-me e ia embora de repente, assim, sem explicações. Na rua uma miúda pedia-me um cigarro. Eu dava-lhe boleia, ela não sabia para onde queria ir, dizia-me para a deixar ficar onde quer que eu fosse. Eu não sabia para onde ia.
– Vamos a alguma lado? Perguntava eu.
– Não! Quero sair aqui!
- Aqui? Podemos voltar-nos a ver?
- Não.
- Porquê?
- Não sei.

Sábado vagueia com 6 personagens que se cruzam durante um dia por Buenos Aires, sem objectivos sem estabelecerem ligações nem afectos e acaba de repente, como seria lógico. À saída do cinema uma rapariga dizia que lhe fazia lembrar os filmes do Hal Hartley. Um amigo que encontrei por acaso disse-me que afinal já não ia beber um copo porque o filme o tinha deixado vazio. Eu gostei.

Extensão Indie-Lisboa 2005 (II)




Born Into Brothels: Calcutta’s Red Light Kids venceu o Oscar na categoria de Documentário.

Zana Briski fotografa e realizadora, deve ter lido acerca deste bairro de prostituição de Calcutá num artigo da Vogue, ou num qualquer folheto duma agência de viagens. Depois terá tido uma visão provocada pelo excesso de incenso e decidiu viajar à procura de qualquer coisa.
A nossa Micro Madre Teresa chegou ao bairro e distribuiu uma dúzia de máquinas fotográficas baratinhas por algumas das crianças. Deu-lhes umas lições básicas de fotografia e o resultado foram algumas fotos que não envergonhariam a edição anual da World Press Photo. Pelo caminho tentou ‘salvar’ algumas das crianças eleitas matriculando-as em colégios internos. Somos informados no final que a maior parte dessas crianças voltou para casa por vontade própria ou dos pais.

Tenho que me vergastar porque o filme não me comoveu minimamente. Não sei se seria essa a intenção da realizadora. O que me atraiu foram precisamente as fotos que retratam aqueles rostos incríveis e aquelas cores saturadas por uma luz diferente. Vou pegar na minha máquina, em duas barras de incenso e comprar uma passagem para a Índia.

A intérprete



Sentamo-nos na cadeira e preparamo-nos para assistir a um filme-pipoca sofisticado. Sydney Polack ao leme, Nicole Kidman e Sean Penn na tripulação, a ONU como palco da trama, surgem mesmo reminiscências Hitchcockianas. Nicole é a intérprete do título: trabalha na ONU e um dia ouve uma conversa num dialecto obscuro, mas que ela entende, em que se fala do assassinato de um lider Africano. É um McGuffin como outro qualquer, pensamos enquanto nos enterramos um bocadinho mais na cadeira. Entra então em cena o Sean, o agente do FBI encarregue do caso. Começam aqui a surgir os primeiros sinais de desconfiança do espectador: não é que o homem está traumatizado com a perda da mulher, que não só o tinha deixado como quando ía voltar para ele tinha morrido, umas semanas atrás? Policia traumatizado? Onde é que já vimos isto? E a mulher morreu? Pois...assim já pode surgir algo entre ele e a Nicole, adivinharam. O problema é que a quimica entre os dois é um zero redondo. Nesta altura já nos remexemos na cadeira pouco convencidos, mas o pior é quando percebemos que o filme se interessa pelo...McGuffin! Ou seja, o McGuffin não é McGuffin, querem-nos mesmo contar uma história sobre ditadores Africanos corruptos, sobre a bondade da ONU e do TPI, sobre pessoas idealistas, enfim, um programa politicamente correcto completo! Não há paciência...
No final ficam-nos na retina uma magrissima Nicole Kidman e uma fantástica cena em que toda a gente se encontra num autocarro, esta sim digna de Hitch. É pouco, muito pouco.

5.5.05

Extensão Indie-Lisboa 2005 (I)



Numa altura em que a única sala de cinema de Aveiro que não era propriedade da distribuidora Lusomundo fechou, é de saudar a iniciativa do Teatro Aveirense de exibir algumas das curtas e longas metragens premiadas no festival Indie Lisboa 2005.

Private venceu o prémio Jameson!?! do público para a melhor longa metragem.

Uma família vive numa casa isolada a meio caminho entre uma aldeia palestiniana e um colunato Judeu. A casa é ocupada pelo exército Israelita que os intima a abandonar. A família fica confinada a um pequeno espaço no andar de baixo e os soldados ocupam o piso superior Uma metáfora da realidade israelo-palestiniana. Ficar e resistir passivamente não é a convicção de todos os membros da família. Num ambiente de terror a família tenta manter a dignidade e mesmo continuar as rotinas diárias. A reacção não violenta acentua o absurdo e irracional da situação. O realizador tenta ser imparcial, mostrando os sentimentos contraditórios dos soldados receosos dos ataques terroristas, mas que se vêm forçados numa guerra em que não reconhecem aquela família como seus inimigos.

4.5.05

Recomeçou em grande



segunda-feira, 22h30, :2

2.5.05

A queda



Baseado nas memórias da secretária de Hitler, Traudl Junge, eis o relato dos últimos doze dias do ditador no famoso bunker em Berlim. O filme provocou uma enorme polémica, pois para além de ser o primeiro filme Alemão a abordar o tema em 60 anos, foi acusado de humanizar Hitler. O facto de ser Alemão é uma mais-valia inestimável, desde logo pelo simples facto de que é impossivel dar vida aos Nazis sem ser a falarem a áspera e dura língua alemã. Quanto à acusação de mostrar um Hiltler 'humano', penso que erra completamente o alvo. Com certeza que ele era um homem, não era um entre abstracto simbolizando o mal, e essa dimensão 'humana' (fazer festas ao cão, ser simpático e cortês com a secretária, demonstrar amor por Eva Braun) só aumenta o nosso horror, pois mostra-nos que o mal absoluto pode vir de um ser humano como nós. Além disso, o retrato do ditador é tudo menos simpático: é-nos mostrado um Hitler fanático, paranóico, racista, alheado da realidade, megalómano, com acessos de fúria, exigindo uma fidelidade acrítica e submissa a todos. Ou seja, são-nos mostradas as fraquezas e idiossincrasias de um ser humano, sem dúvida, mas nunca nos esquecemos que estamos a ver um criminoso. Neste aspecto penso que o filme é bastante realista, ou verdadeiro se se quiser. Bastante realistas são também as cenas de guerra passadas fora do bunker. Longe de descentrarem o filme, estas cenas, mostrando uma Berlim caótica e a arder, com as forças Russas cada vez mais perto, servem para realçar o alheamento demente que se passava no interior do bunker, com Hitler movendo no mapa divisões há muito destroçadas, planeando contra-ataques sem ter homens para isso, ordenando fuzilamentos impossíveis de cumprir.
Outro aspecto que penso que o filme trata corajosamente (e só um filme Alemão o poderia fazer) é o da relação entre os altos dignitários nazis (quem mandava) e o ‘povo’ alemão. Quando 60 anos depois ainda é difícil compreender o que levou grande parte de uma nação a seguir os planos criminosos de Hitler, este é um assunto incontornável a que ‘A queda’ não foge. Temos aqui a visão dos dois lados: quando alguns oficiais querem seguir uma estratégia que permita salvar o maior número possível de vidas civis, Goering responde que ‘os Nazis não se impuseram ao povo, antes foram mandatados por ele’, não podendo portanto ser feita essa separação; Hitler vai mais longe - diz que se o povo perder a guerra, então é porque não merece viver, chegando mesmo a fazer uma comparação com os macacos em que os mais fracos são espezinhados até à morte. Do lado do ‘povo’, digamos assim, aparece-nos no final do filme Traudl Junge, herself, a dizer que talvez fosse possível na altura tentar saber mais do que se estava a passar… Que outra coisa poderia dizer?