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30.5.06

A não perder...(2)



Javier Marías explica porque é que não vê frequentemente cinema espanhol: " he comentado aquí alguna vez, no es que yo vea cine español frecuentemente, y la culpa es, en gran medida, del exacerbado patriotismo de nuestra prensa y de nuestros críticos. Hace ya años que decidieron que tenía que haber varias obras maestras nacionales cada temporada, y, en el desconcierto sobre cuáles serían, optaron por ensalzar casi cualquier película. Si uno les hiciera caso, habría en nuestro país unas dosis de talento sólo comparables a las que circulaban por Hollywood en los años cincuenta, cuando allí trabajaban regularmente Hitchcock, John Ford, Billy Wilder, Anthony Mann, Otto Preminger, Joseph Mankiewicz, Huston, Stanley Donen, Minnelli, Fuller, Richard Brooks, McCarey y Orson Welles de tarde en tarde, por mencionar sólo a unos pocos. La realidad es otra, para mi gusto, y la mayoría de las veces en que me animo a ver una supuesta genialidad española, me encuentro con una cosa meramente lánguida, o cursi, o sandia, o pretenciosa, o chorras, o zafia, o bien con una copia de algo mucho mejor hecho hace tiempo y que, con el analfabetismo cinematográfico de las generaciones semijóvenes y la voluntaria desmemoria de las veteranas..."



Algumas reacções (más) da imprensa internacional ao último filme de Pedro Costa, 'Juventude em marcha', apresentado em Cannes - no Ainda não começámos a pensar.

28.5.06

Wassup Rockers — Desafios da Rua



Durante a primeira hora de 'Wassup Rockers' parece-nos estarmos a assistir a um típico 'Larry Clark': acompanhamos um grupo de miúdos (neste caso um grupo de skaters latino-americanos com visual à Ramones) a deambular pelo bairro South Central de Los Angeles, sem grande 'argumento' que não seja vermos o seu dia a dia passado a andar de skate e a arranjar miúdas (principalmente Jonathan, um guatemalteco de 15 anos com grande sucesso nesta área). Até aqui o único factor que nos leva a pensar que este filme pode não ser bem como 'Kids' ou 'Ken Park' ('Bully' é diferente), é um toque de humor que vai aparecendo aqui e ali e que não conheciamos de todo ao realizador. A surpresa está guardada para a segunda parte do filme: Larry Clark leva este 'bando' para Beverly Hills e instala-se no filme um clima de absurdo e mesmo de paródia, totalmente inopinado. Embora a mensagem passada esteja longe de ser original (Hollywood é um mundo superficial e/ou preconceituoso), o efeito não deixa de espantar o espectador, arrancando-lhe algumas gargalhadas inesperadas, nomeadamente em toda a sequência de mortes que vão ocorrendo à revelia da vontade dos protagonistas, qual delas mais insólita e rídicula. Nada que o início do filme e o passado do realizador fizesse prever... Não estando ao nível de 'Bully', a sua obra-prima, 'Wassup Rockers' mostra no entanto que Larry Clark ainda é capaz de nos surpreender depois do pântano em que parecia ter-se atolado com 'Ken Park'.
Wassup Rockers, E.U.A., 2005. Realização: Larry Clark. Com: Jonathan Velasquez, Francisco Pedrasa, Milton Velasquez, Usvaldo Panameno, Eddie Velasquez, Luis Rojas Salgado, Carlos Ramirez, Iris Zelaya, Ashley Maldonado, Laura Cellner, Jessica Steinbaum.

26.5.06

Missão Impossível 3



Um aspecto interessante no franchise 'Missão Impossível' é observar os realizadores escolhidos por Tom Cruise - primeiro Brian de Palma, depois John Woo e agora J.J. Abrams, o criador da série televisiva 'Lost'. Nada de tarefeiros anónimos, portanto, mas antes realizadores com um certo culto à sua volta - vontade de arriscar ou consciência de que é preciso insuflar algo de novo em cada episódio? A questão faz sentido uma vez que aqui, à semelhança do que se passa com os 007, não há uma sequela mas sim um novo episódio completamente independente dos anteriores. M.I.3 podia ter sido M.I.1 e vice-versa sem qualquer tipo de problema. Pode-se encarar assim cada filme como uma variação em volta de um mesmo tema, convidando um realizador-mais-ou-menos-autor a contribuir com a sua versão, desde que cumpra com as regras: só existe uma verdadeira personagem (a de Cruise, claro) e tem que haver muita acção e pirotecnia, se possível ultrapassando o que já foi feito até então. Abrams segue esta cartilha a preceito e leva mesmo a história a cumes de inverosimilhança épicos, tanta é a vontade de enfiar mais um efeito especial bombástico, mais uma proeza física de abismar, mais uma surpresa espectacular - às tantas chega a ser difícil o espectador concentrar-se, tal é a quantidade de informação visual que tem que processar por segundo!
Claro que o fã da série não se preocupa com estas minudências e no fim deste terceiro episódio o seu pensamento é só um : "Mais uma missão cumprida! Que o Senhor dê saúde e vontade a Tom Cruise para a que se segue... "
Mission: Impossible III, E.U.A., 2006. Realização: J. J. Abrams. Com: Tom Cruise, Philip Seymour Hoffman, Ving Rhames, Laurence Fishburne, Billy Crudup, Michelle Monaghan, Jonathan Rhys-Meyers, Keri Russell, Maggie Q.

22.5.06

3...Extremos



Este filme retoma uma prática que parece ter ressuscitado ultimamente, a dos filmes em 'episódios', dirigidos por diferentes realizadores. Temos aqui 3 autores da 'nova vaga' asiática: o prolífico e imprevisivel realizador de culto japonês Takashi Miike, o coreano Park Chan-wook que atingiu o reconhecimento internacional com 'Oldboy' e o para mim desconhecido chinês Fruit Chan. O tema que une os 3 episódios (ou, melhor dizendo, as 3 curtas metragens de cerca de 40 minutos cada) não é muito claro, mas poderemos falar aproximadamente em 'crueldade'. Têm também em comum o facto de os seus protagonistas estarem todos ligados ao mundo das artes: uma escritora, uma actriz e um realizador de cinema. Como é usual neste tipo de obras a várias mãos, o resultado final é desiquilibrado. O melhor episódio é o de Miike, sobre os sonhos de uma escritora que remetem para um episódio da sua infância, quando trabalhava com a irmã e o pai num circo - é bonito e misterioso. No segundo lugar do pódio fica Park Chan-wook, que mais uma vez combina a sua exuberante faceta de esteta (magníficos decors e fotografia) com a sua obsessão por histórias de vigança requintadas e crueis. Em último fica Fruit Chan, com uma variação macabra mas banal do eterno tema da actriz que se recusa a aceitar a perda da juventude.
Saam gaang yi / Three...Extremes, Hong Kong/Coreia do Sul/Japão, 2004. Realização: Chan-wook, Takashi Miike, Fruit Chan. Com: Miriam Yeung Chin-wah, Bai Ling, Tony Leung Ka-fai («Dumplings»); Lee Byeong-heon, Im Won-hi, Kang Hye-jeong («Cut»); Hasegawa Kyoko, Watabe Atsuro («Box»).

18.5.06

Corta!



Começa hoje o Corta!, Festival de Curtas Metragens do Porto e prolonga-se até Sábado, na Biblioteca Almeida Garrett, Palácio de Cristal.

16.5.06

Rize



David LaChapelle é um fotógrafo da moda bastante sui generis, mas infelizmente como realizador é bastante convencional. 'Rize', documentário filmado nos bairros negros de L.A. sobre novas formas de dança como o krumping, hesita entre o fascínio pelos corpos e(m) movimento (a la Leni Riefenstahl, que é expressamente citada no filme) e a análise politica (fazer parte de um grupo de dança como única alternativa a fazer parte de um gang) para a qual não tem unhas, e fica assim numa desconsolada terra de ninguém. E é pena, porque é mais uma oportunidade perdida de tratar como deve ser o tema da bomba de relógio que são os bairros negros das grandes cidades americanas - à semelhança do recentemente estreado 'Freedomland'. O desconsolo é ainda maior quanto o krumping & cª era um formidável pontapé de saída (o insólito aviso que aparece no inicio do filme – de que nenhuma imagem foi acelerada em estúdio – faz mesmo sentido!) para um homem com o olho treinado para os corpos, como LaChapelle o é mas aqui não o mostra totalmente. Um tiro ao lado.
Rize, E.U.A., 2005. Realização: David LaChapelle. Documentário. Com: the Clown, Lil C, Tight Eyez, Miss Prissy La Niña, Dragon.

14.5.06

Freedomland — A Cor do Crime



Este filme parte de uma investigação policial - o detective Lorenzo Council/Samuel L.Jackson, investiga o desaparecimento do filho de Brenda Martin/Julianne Moore, num bairro pobre dos suburbios - para nos traçar mais um retrato das relações inter-raciais nos States, um pouco à maneira de 'Crash-Colisão'. A policia pôs um bairro negro a ferro e fogo para tentar descobrir o miudo de 4 anos (branco), e a situação trouxe ao de cima todos os ódios e ressentimentos há muito acumulados entre os moradores e a policia. Lorenzo, um detective negro oriundo do bairro, tem que se mover entre os dois mundos, sendo olhado com desconfiança em ambos, para tentar descobrir a verdade e evitar uma guerra civil no local.
'Freedomland' tem vários problemas, o menor dos quais não é cair em todos os clichés do género sem deixar escapar um, quer ao nivel das personagens -o policia (negro) inteligente e de bom coração mas impulsivo, o seu colega compreensivo que lhe serve de contraponto, o policia mau e que não percebe nada (branco), etc. - quer ao nível das situações e da realização, absolutamente mediana e desinspirada. Não há nada de vagamente original, de novo, neste filme. No final, salvam-se apenas os actores : Julianne Moore está muito bem no papel da mulher desiquilibrada e quase histérica, mas corre o risco de ficar agarrada a este tipo de papeis - uma espécie de Isabelle Huppert americana; Samuel L. Jackson até na rotina se distingue e cumpre com distinção o seu enésimo papel deste tipo; e, finalmente, há que destacar Edie Falco (a mulher de Tony Soprano), soberba num papel pequeno mas marcante.
Freedomland, E.U.A., 2006. Realização: Joe Roth. Com: Samuel L. Jackson, Julianne Moore, Edie Falco, Ron Eldard, William Forsythe, Aunjanue Ellis, Anthony Mackie.

11.5.06

O novo mundo



Longos planos de Colin Farrell imerso na selva. Longos planos de Q`Orianka Kilcher (grande casting). Os pensamentos de Colin Farrell como pano de fundo em voz off. Os sons da selva ou da banda sonora omnipresentes. Meia dúzia de diálogos e um argumento que se poderia resumir em meia página. Nada que seja estranho a Terrence Malick, mas o suficiente para radicalizar opiniões e relançar a questão velhinha de mais de 100 anos sobre os caminhos do cinema, e da (in)dependência dos filmes em relação ao argumento (leia-se, da (in)dependência dos filmes em relação às artes que o precederam, nomeadamente à escrita e ao teatro).
Na minha opinião este filme é muito diferente de quase tudo o resto, mas não tanto por aí. Gus Van Sant, por exemplo, não tem feito outra coisa nos últimos tempos, que não explorar o lado visual, digamos assim, como forma de transmitir emoções em detrimento da palavra, do diálogo. Os noventa e sete minutos de 'Last days' parecem infinitamente maiores que os cento e trinta e cinco d´'O novo mundo'. O que distingue Malick, é um certo tom épico que dá ao filme, o que aliado a uma quase perfeição no modo de filmar, na captação da natureza e dos homens nela inserida, nos transmite um fascinio quase hipnótico. Nem se trata tanto da 'mensagem' passada por Farrell (e provavelmente partilhada pelo realizador) do novo mundo puro e idealizado em contraste com o velho mundo corrupto, que nem é muito enfatizada, mas sim de todo o modo como o relizador nos embala na sua deriva, nos envolve num universo imagético poderoso e original. É dificil não pensarmos que o grande cinema (também) é isto.
The new world, E.U.A., 2005. Realização: Terrence Malick. Com: Colin Farrell, Q`Orianka Kilcher, Christian Bale, Christopher Plummer, Wes Studi, David Thewlis, Ben Chaplin.

7.5.06

Os produtores



Este filme é um dos objectos mais estranhos presentemente em exibição nas salas portuguesas. É uma comédia musical, com alguns actores improváveis como Matthew Broderick e Uma Thurman. Dizer que 'Os produtores' está no limite do kitsh, do mau gosto ou da pura idiotice, é dizer pouco: o filme passa mesmo esse limite vastas vezes. O seu segredo, no entanto, é nunca descarrilar completamente - a cada derrapagem (voluntária), depressa volta à faixa de rodagem correcta e nos maravilha com uma piada acima da média (e tem várias), com uma coreografia imaginativa (e são inúmeras), com mais um achado no argumento, já de si bastante retorcido. Acrescentemos a seu favor um conjunto notável de actores (com destaque para Nathan Lane, mas também para Matthew Broderick) e a coragem de fazer um filme destes - há quanto tempo não se via um musical de 'linhagem clássica' nas salas? (e não falamos de musicais pos-modernos tipo 'Moulin Rouge). Pode ser uma mera questão de nostalgia, mas a verdade é que é impossivel um cinéfilo não simpatizar com este filme desusado.
The Producers, E.U.A., 2005. Realização: Susan Stroman. Com: Nathan Lane, Matthew Broderick, Uma Thurman, Will Ferrell, Gary Beach, Roger Bart Bart, Gary Beach.

2.5.06

A criança



Seis anos depois de David Cronenberg ter atribuído uma polémica Palma de Ouro a 'Rosetta', o ano passado foi a vez de Emir Kusturica dar o prémio máximo de Cannes aos irmãos Dardenne por este 'A criança', preterindo, entre outros candidatos sonantes, 'Uma história de violência' de Cronemberg lui méme. O mínimo que se pode dizer é que Luc e Jean-Pierre Dardenne estão muito bem cotados entre alguns dos seus mais ilustres colegas de oficio...
A primeira sensação que se tem ao ver este filme é que os realizadores belgas não mudaram nem um milímetro nestes anos. Estamos perante o mesmo realismo cru, as mesmas histórias arrancadas ao 'outro lado' da sociedade, as mesmas personagens marginais e com um instinto de sobrevivência feroz. Mantêm também as suas qualidades e os seus defeitos como realizadores. Das primeiras, desde logo, o talento de desencantar extraordinários actores para as suas personagens: depois de Emilie Dequenne (Rosetta), temos agora Jérémie Renier (Bruno), magnifico no papel do pequeno marginal que vai fazendo o que pode para sobreviver - roubar, pedir, jogar e, um dia, vender a filha de meia dúzia de dias sem dizer nada à mãe e sua namorada. Outra qualidade que lhes aprecio é não pretenderem doutrinar-me, não me pretenderem mostrar que o mundo é injusto com os seus pobrezinhos coitadinhos com aureola de santos. Bruno é totalmente amoral, e mesmo quando no fim faz o correcto, quando tem uma espécie de acção redentora, ficamos sempre na dúvida se não o terá feito porque era o melhor para si naquele momento. Tal como em Rosetta, o instinto de sobrevivência comanda sempre, é o que determina as suas acções, e não é assim fácil tirar conclusões destas últimas cenas - e eu gostei bastante do final por causa desta ambiguidade. Quanto aos defeitos do Dardenne, enfim, digamos que os seus filmes não são para todos os estómagos - a sua vontade intransigente de realismo torna-os por vezes pesados, algo arrastados, parecendo que cada meia hora de película se multiplica por duas. Por vezes temos ideia de estar a assistir a um longo documentário sobre um tema incómodo - ou se vai para a sala com uma certa pré-disposição, ou nem vale a pena pôr lá os pés. Penso que foi Pedro Mexia quem falou uma vez de filmes bons chatos. Eis um belo exemplo!
L´ Enfant, Bélgica/França, 2005. Realização: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. Com: Jérémie Renier, Déborah François, Jérémie Segard, Fabrizio Rongione, Olivier Gourmet, Stéphane Bissot, Mireille Bailly.