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28.2.06

Fantasporto - Simpathy for Lady Vengeance



'Simpathy for Lady Vengeance' é o último filme da trilogia sobre vingança do coreano Park Chan-wook, depois de 'Sympathy for Mr. Vengeance' (penso que ainda inédito entre nós) e 'Oldboy', uma das surpresas da passada temporada cinematográfica. Os meus sentimentos em relação a este filme foram-se alterando durante o seu visionamento. Inicialmente, a sua exuberante fotografia e a imponente banda sonora fizeram-me pensar em Wong Kar-Wai (e este, apesar do seu universo ser completamente diferente, parece-me uma influência incontornável do cineasta coreano); depois, pareceu-me que era Park Chan-wook a imitar Park Chan-wook, uma história de vingança a milhas da do seu filme anterior; mas, finalmente, quando chegou a hora da vingança propriamente dita, aquela pela qual o espectador de 'Oldboy' ansiava, aí sim, já me pareceu estar presente perante um filme de Park Chan-wook! Não sendo a vingança tão elaborada nem original como em 'Oldboy' (é mesmo uma variação sofisticada de um tema de... Agatha Christie!), é ainda assim surpreendente e fascina o espectador. Com a diferença de esta vez o realizador nos pôr a rir. Não com cenas disparatadas, mas com planos de tortura, com modos de assassinato! Park Chan-wook a rir-de de Park Chan-wook? Provavelmente. O que se perdeu em concisão e surpresa relativamente a 'Oldboy', ganhou-se em elaboração formal a todos os níveis neste 'Simpathy for Lady Vengeance'. Não obstante, eu continuo a preferir o primeiro.
De qualquer modo, e se dúvidas ainda existissem, aqui está mais um evidência de que o mais insólito cinema da actualidade vem da Ásia, quer seja do japonês Takeshi Miike ou do Coreano Park Chan-wook. Aliás tenho pena de não ter assistido também aqui no Fantas ao filme em 3 episódios 'Three...extremes', que junta precisamente estes dois realizadores e o chinês Fruit Chan, sobre o tema da crueldade...
Chinjeolhan geumjassi, Coreia do Sul, 2005. Realização: Park Chan-wook. Com: Choi Min-sik, Yeong-ae Lee, Song Kang-ho, Shin Ha-kyun, Bae Du-n.

26.2.06

Syriana



Syriana é um triller politico sobre a promiscuidade entre os interesses das corporations e os de governos mais ou menos corruptos, sejam eles de países do terceiro mundo ou o governo Americano, itself. O filme é estruturado em 'mosaico', como agora se usa dizer, ou o seu realizador e argumentista não fosse Stephen Gaghan, o argumentista de Traffic (filme que lhe deu o Óscar de melhor argumento adaptado, para o qual foi novamente nomeado com Syriana). Naturalmente, um filme político sobre negócios sujos, hoje em dia só pode girar à volta de um tema: o petróleo, pois claro. A fusão de duas petrolíferas é o mote que desencadeia toda a teia de acontecimentos, e vamos seguindo várias personagens, que têm esse centro gravitacional em comum: um veterano agente da CIA; um discreto mas implacável advogado que investiga comportamentos ilegais das grandes companhias (não necessariamente para as incriminar - tudo aqui é uma questão de interesses); um especialista em assuntos energéticos que se torna consultor de um jovem Emir Árabe que quer alterar as regras no seu país, fugindo à orbita Americana; dois jovens árabes desempregados que acabam nas malhas do terrorismo islâmico; etc.
Como já foi visto, o tema não podia estar mais na ordem do dia. Quanto ao resto, diga-se que a realização é competente, o argumento intrincado e vagamente confuso como convém, e não há nada fora do sítio, mas também nada de muito exaltante ou original. As duas horas do filme passam-se bem, mas depois dificilmente voltaremos a pensar nele (o que não é muito abonatório para um filme 'de mensagem'). Aliás, só não terá passado mais despercebido devido ao envolvimento de George Clooney no projecto (Matt Damon também é um dos actores do filme, só faltando Alec Baldwin para completar o naipe de liberais de Hollywood implacavelmente satirizado em Team America!). Clooney, além de produtor (tal como Steven Soderbergh), compõe também a personagem mais marcante do filme, um agente da CIA desiludido, gordíssimo e com uma espessa barba descuidada, nos antípodas da sua imagem de galã. Esta personagem deu-lhe a nomeação para melhor actor secundário, proporcionando assim muito maior visibilidade ao filme, nitidamente um projecto onde se empenhou pessoalmente e que o confirma cada vez mais como uma estrela com 'consciência politica', assim uma espécie de sucessor de Warren Beatty.
Syriana, E.U.A., 2005. Realização: Stephen Gaghan. Com: George Clooney, Matt Damon, Jeffrey Wright, Chris Cooper, Mazhar Munir, Alexander Siddig, Christopher Plummer, Amanda Peet, William Hurt, Tim Blake Nelson.

25.2.06

Fantasporto (II)



Apesar da abertura oficial do Fantasporto 2006 apenas ter ocorrido ontem à noite, um dos eventos mais apetecíveis desta edição já se desenrolou ao longo da semana passada - a já aqui referida 'RETROSPECTIVA EXPRESSIONISMO ALEMÃO'. Como ainda não tinha tido oportunidade de assistir a qualquer sessão, ontem ataquei uma jornada dupla: primeiro 'Fausto' (1926) e depois 'Nosferatu' (1922), ambos de F.W.Murnau, um dos maiores (para muitos o maior) cineastas do mudo. 'Nosferatu' será porventura a mais conhecida obra de Murnau, e tem algumas das imagens mais iconográficas da história do cinema. Mais de oitenta anos e toneladas de efeitos especiais depois, ainda não foi realizada uma versão de 'Drácula' que se lhe compare. Quanto a 'Fausto', foi para mim uma revelação. Nunca tinha visto este filme e, numa palavra, fiquei deslumbrado.
Mas mais do que falar dos filmes, sobre os quais já quase tudo foi dito, gostaria de me referir às cópias apresentadas. No programa do Fantas é indicado: v.o. leg.espanhol para 'Fausto' e v.o.leg.inglês para 'Nosferatu. Sendo ambos os filmes mudos, a indicação versão original só se poderá referir aos entretítulos, penso eu! Ora não foi isso que aconteceu: não havia legendas, mas sim os próprios entretítulos eram em espanhol e inglês, o que não é rigorosamente a mesma coisa. Não se trata de um preciosismo ou esquisitice da minha parte - os entretítulos eram parte integrante do trabalho criativo dos autores do mudo, como pode facilmente constatar quem assistiu ao recentemente reposto nas salas 'Aurora', em que por exemplo numa frase em que se falava dum afogamento, as próprias letras iam caindo, como que afundando-se. Os entretitulos dos filmes de outro mestre do mudo, D.W.Griffith, tinham inclusivamente a sua assinatura estampada! Se no caso de 'Nosferatu' os entretítulos, ingleses, ainda eram cuidados, com um tipo de letra usado na altura (talvez reproduzindo os originais), no caso de 'Fausto', em espanhol, eram uma desgraça, com uma letra tipo Times New Roman ou algo no género, ainda por cima com uma tradução que me pareceu descuidada.
Mais grave ainda, na minha opinião, é outro aspecto: as bandas sonoras que acompanharam ambos os filmes. Para começar não há qualquer indicação sobre elas no programa, e se na de 'Nosferatu' é indicado no início do filme quem a compôs e executou, na de 'Fausto' ficamos na mais completa ignorância. Sendo moda hoje em dia compor bandas sonoras para filmes mudos, é preciso ter um enorme cuidado e sensibilidade ao faze-lo. Não nos esqueçamos que se está a adicionar a uma obra de arte um elemento em que o seu criador não pensou, sendo assim de certo modo uma alteração daquela. Devido a isto e ao facto da maior expressividade dos actores do mudo, o compositor de musicas para filmes mudos, mais que que ninguém, deveria ter sempre presente a máxima de Robert Bresson: 'o que é para o olhar não deve ser redundante com o que é para o ouvido'. Infelizmente este conselho não foi seguido pelos autores das bandas sonoras que acompanharam estes filmes, ambas oriundas da música electrónica, sendo bastante impositivas e sobrepondo-se irritantemente às imagens, nomeadamente na primeira meia hora de 'Fausto'. Os seus autores esqueceram-se que as pessoas pagam bilhete para assistir a um filme, não para ouvir música acompanhada de imagens.
Não obstante estas duas obras-primas sobreviverem a isto e muito mais, não podemos deixar de lamentar a falta de cuidado da organização do Fantas com as cópias que apresentou. Se já seria um desleixo grave numa sala normal, então no âmbito de um festival de cinema...

22.2.06

Os três enterros de um homem



O argumentista deste filme é Guillermo Arriaga, conhecido por baralhar as coordenadas espacio-temporais das suas histórias, ora com muito bons resultados (Amor cão), ora com muito maus (21 gramas). Aqui só se nota a sua 'marca' no inicio do filme, em que demoramos algum tempo a perceber o que é que se passa quando. Depois disso, a complexidade está toda guardada para a narrativa em si, e não para a forma como esta se desenrola. E ainda bem. 'Os três enterros...' é um 'filme de fronteira', género com tradição própria em Hollywood (exemplo próximo e óbvio: 'Um corpo no deserto' de John Sayles). Passa-se entre a fronteira do Texas (onde um cego ouve um relato de um jogo de futebol em espanhol, apesar de não entender uma palavra) e o México (onde uns miudos assistem a uma soap opera apesar de não perceberem nada) e o seus protagonistas são Mexicanos que buscam emprego nos States, guardas fronteiriços e vaqueiros. E a paisagem claro, fotografada magnificamente por Chris Menges em tons baços e quentes, que nos remete para o universo dos westerns. Tanto assim é que quando uma personagem olha para uma montra com plasmas até estranhamos, pois já tínhamos recuado instintivamente 50 anos, apesar de a acção se passar nos dias de hoje.
Tommy Lee Jones, que aqui se estreia na realização cinematográfica, citou como sua principal influência Sam Peckinpah e faz sentido: não só o titulo original ecoa o Peckinpahniano 'Bring Me the Head of Alfredo Garcia', como a violência e a secura daquele estão todas aqui, embora de um modo mais subtil. Como em todo os bons filmes há vários níveis de interpretação neste, e todas as personagens são mais complexas do que parecem à primeira vista: o assassino de Melquiades Estrada é um homem racista e violento, mas acaba por encontrar a redenção; Peter Perkins (Tommy Lee Jones), a única pessoa que procura a verdade e quer cumprir o desejo de um amigo morto, revela aqui e ali traços de um carácter mórbido e até violento; e mesmo Melquiades, que só queria ser enterrado na sua terreola não era quem parecia ser. Os próprios secundários relevam maior profundidade do que aparentavam (o xerife que não queria chatices; a mulhera adultera-grande personagem; a mulher do assassino).
Não obstante ser um pouco longo demais, 'Os três enterros de um homem' mostra-nos que um grande actor pode ser um grande realizador. E temos o exemplo de Clint Eastwood...
The Three Burials of Melquiades Estrada, Estados Unidos/França, 2005. Realização:Tommy Lee Jones. Com: Tommy Lee Jones, Barry Pepper, Julio Cedillo, Dwight Yoakam, January Jones, Melissa Leo, Vanessa Bauche, Levon Helm.

17.2.06

O Segredo de Brokeback Mountain



"Brokeback Mountain" é um filme politico no sentido em que 'Filadélfia' o era. Dito de outra maneira, é um sinal dos tempos, apesar de se passar entre os anos 60 e os 80 (em boa verdade a acção parece passar-se muito antes, pois como se sabe há várias Américas e este filme passa-se na profunda, não na Nova Iorque de Andy Warhol). Posto isto, pode-se dizer genuinamente que "Brokeback Mountain" é uma história de amor impossível, um melodrama, e não um 'filme gay'. Ang Lee pega no assunto com pinças, mostra o que tem a mostrar (sexo entre os dois protagonistas, por exemplo), mas quase tudo aqui é elíptico e subentendido. Estamos longe do universo de um Todd Haynes, por exemplo. Na minha opinião é até elíptico demais: temos dois homens que se amam, que se encontram de longe em longe e pronto. Sabemos que ao longo de vinte anos o amor não esmorece (por ser proibido?), sabemos que se vão tentando adaptar à vidinha, mas não os conhecemos suficientemente bem para sentir o seu drama. Os westerns (é discutível que estejamos perante um western, mas a comparação faz sentido) com os seus grande espaços sempre foram propícios à contemplação e ao laconismo, mas Ang Lee exagera e o filme arrasta-se muito. Eu sei que a ideia é mesmo mostrar a passagem do tempo (estranhamente os protagonistas não envelhecem! - exceptuando Jack deixar crescer um bigode 'gay'), mas por vezes cai-se no decorativo, no repetitivo, como se o realizador tivesse metido o cruise control. Não se escapa também a alguns estereótipos arreigados. Exemplo: mal um protagonista se senta num bar a afogar as mágoas numa caneca de cerveja, logo uma moçoila compreensiva se senta ao seu colo, pronta para lhe oferecer compreensão e o que mais ele quiser. Não era mau que a vida fosse assim!
Depois da semi-desilusão 'Match Point', a desilusão 'Brokeback Mountain'. O ano não está a começar bem...
Brokeback Mountain, E.U.A., 2005. Realização: Ang Lee. Com: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway, Randy Quaid.

12.2.06

Shopgirl - Uma Rapariga Cheia de Sonhos



Tem-se assistido nos últimos anos à recuperação de actores conhecidos por fazerem filmes supostamente cómicos mas que não iam para além da boçalidade, para interpretarem personagens sofisticadas, cínicas, desencantadas e adormecidas. Nada mais fácil para um actor caído no esquecimento do que interpretar-se a ele próprio. Steve Martin começa agora a fazer um percurso semelhante ao de Bill Murray numa tentativa consciente ou não de credibilização. Shopgirl tem várias semelhanças com Lost in Translation mas Steve Martin (que também assina o argumento) não tem o mesmo carisma de Bill Murray. Martin construíu uma estória com o formato clássico do trio amoroso. A originalidade de Shopgirl é que nenhuma das partes tem consciência de que esse triângulo exista. A personagem feminina é a única com ilusões em relação ao amor. Ela é ingénua mas forte e verdadeira e tem a qualidade rara de conseguir revelar o melhor das pessoas com quem se relaciona. Ironicamente ela é a única que fica a perder. Shopgirl é uma estória com um ritmo linear. As personagens mantêm um registo discreto, não há twists, não há grandes momentos cómicos ou trágicos. Duas pessoas simplesmente cruzam-se e estabelecem uma ligação. Simples e perturbador.
Shopgirl, EUA, 2005. Realização: Anand Tucker. Com: Steve Martin, Claire Danes, Jason Schwartzman.

11.2.06

Orgulho e preconceito



Jane Austen escreveu apenas seis livros, mas estes deram origem a inúmeros filmes e séries de TV. Austen, que ficou solteira toda a vida, foi uma analista única das relações humanas e das suas condicionantes - desde logo as sociais.
As adaptações à tela da sua obra costumam resultar em filmes bonitinhos, aquilo que designamos habitualmente por 'qualidade BBC'. E quanto a este 'Orgulho e preconceito', realizado pelo desconhecido Joe Wright? Eu diria que se eleva acima desta média. Desde logo devido a Keira Knightley, que compõe uma extraordinária Elizabeth Bennet, a jovem de pelo na venta que se dá ao luxo de recusar pretendentes (sendo de uma família pobre, naquela época) e que detesta o aristocrata Mr.Darcy mal o conhece, por este ser tão snobe. Este por sua vez também despreza a família dela, demasiadamente grosseira e ávida de caçar bons partidos para as cinco filhas. Preconceitos de parte a parte, portanto. E orgulho, da parte de Elisabeth, que demora muito tempo a reconhecer que se enganou e a ouvir o coração. Se o filme pertence quase inteiramente a Knightley, o realizador também tem os seus méritos: a realização é segura e até imaginativa (se bem que um pouquinho exibicionista - lembrei-me de 'Barry Lyndon' várias vezes), e tem o enorme mérito de nos dar a respirar o inigualável mundo de Jane Austen, não o passando pelo rolo compressor que equaliza tudo no formato copiado da TV, que os filmes 'adaptação-de-livro-de-prestigio' têm tendência a seguir. Numa época em que cada vez se lê menos, há formas piores do público adolescente (cada vez mais o principal 'consumidor' de cinema) descobrir uma enorme escritora.
Pride & Prejudice, Grã-Bretanha, 2005. Realização: Joe Wright. Com: Keira Knightley, Matthew MacFadyen, Donald Sutherland, Brenda Blethyn, Rosamund Pike, Simon Woods, Jena Malone, Judi Dench.

9.2.06

Munique



'Munique' é uma espécie de 007 filmado em tom documental. Há agentes secretos (da Mossad) com ordem para matar (palestinianos alegadamente envolvidos em crimes contra Israel), usando meios violentos e espectaculares (que incluem bombas escondidas debaixo de colchões ou entrar em países inimigos disfarçado de mulher). Há até, imagine-se, uma Bond girl. O que não há de todo é o glamour, a displicência, e a ausência de sentimentos do agente britânico. Aqui mata-se por uma causa (a retaliação ao rapto e assassinato de atletas Israelitas por parte do grupo radical palestiniano Setembro Negro), mas quem o faz tem dúvidas, cada vez mais dúvidas. E como em todos os filmes de Spielberg, fala-se de famílias: de carne e osso (Eric Bana, o lider do grupo foi abandonado pela Mãe num kibutz e o pai, um herói nacional, estava sempre ausente-como ele próprio em relação à filha recem-nascida) e metafóricas (a Mãe Pátria Israel, em nome de quem se mata).
Percebe-se que o filme tenha desagradado a Gregos e Troianos - aos Palestinianos porque sim, aos judeus porque não lhes é fácil ver outro judeu a filmar agentes da Mossad com dúvidas éticas, com problemas morais. Bana inicia o filme cheio de confiança e acaba-o num vazio existencial. De parcialidade penso que Spielberg não pode ser acusado, de pieguice, não raro o seu maior pecado, também não (basta ver a extraordinária cena do assassínio de Marie-Josée Croze). Não abdicando de ser um bom filme de acção, que o é, Munique é também um bom filme politico, algo certamente mais dificil.
Munich, E.U.A, 2005. Realização: Steven Spielberg. Com: Eric Bana, Daniel Craig, Ciaran Hinds, Mathieu Kassovitz, Hanns Zischler, Geoffrey Rush, Ayelet Zurer, Michael Lonsdale, Mathiew Amalric.

7.2.06

Elizabethtown


Não colocaria um post acerca de Elizabethtown não fora o alerta de Harry Madox acerca das críticas dissonantes que o filme teve aquando da estreia. Como já devem ter calculado Elizabethtown não me entusiasmou. O protagonista é um jovem executivo de um empresa de calçado desportivo que cai em desgraça depois do fracasso planetário de um novo modelo de sapatilhas que iria revolucionar o modo de caminhar. Belo começo e credível também! Como se não bastasse o presidente da empresa é um dos 34 boçais irmãos Baldwin. O jovem prepara-se para cometer suícidio - e essa seria a sorte do espectador - quando é interrompido por uma notícia que vai dar início à redefinição das suas prioridades. Vendo o filme não se percebe a utilidade deste prólogo no desenrolar da acção. O filme ganharia bastante se os primeiros 20 minutos fossem simplesmente cortados. Segue-se uma comédia romântica competente com alguns bons momentos dados principalmente por Susan Sarandon (a mãe do Jovem) em grande forma. Paradigmática das relações actuais é a longa conversa ao telemóvel entre o par romântico que se prolonga enquanto os dois conduzem durante o nascer do sol e que se adivinharia terminar num clímax com o encontro físico. A magia termina com o desligar de um botão e o filme vai-se arrastando até um final previsível. Ainda assim Elizabethtown é um filme pipoca um pouco acima da média. Recomenda-se a românticos incuráveis.
Elizabethtown, E.U.A., 2005. Realização: Cameron Crowe. Com: Orlando Bloom, Kirsten Dunst, Susan Sarandon, Alec Baldwin.

6.2.06

Primer


Primer foi realizado com meios escassos. Grande parte dos 7000 dólares despendidos foram usados para passar o filme do formato vídeo para 35mm. O dinheiro que sobrou não deve ter chegado para comprar uma claquete. Na sala de montagem a falta da marcação das cenas e um montador certamente sob o efeito de substâncias ilegais deram origem a um filme desconcertante. Ironia à parte, é obvio que o efeito de confusão no espectador é deliberado. Começamos por pensar que estamos a ver mais um filme que usa a técnica do flashback mas vamo-nos apercebendo que o passado e o presente são conceitos que não existem a partir do momento em que as personagens podem viajar no tempo e cruzarem-se com a sua versão passada ou futura no mesmo espaço. As várias versões temporais das personagens têm os mesmos meios e o mesmo inimigo: eles próprios. A Máquina de clones de Calvin & Hobbes veio-me à memória como meio do cérebro se desculpar com algum humor da incapacidade de encaixar a informação recebida num modelo conhecido. Passada quase uma semana depois de ter visto Primer ele continua a martelar cá num cantinho.
Primer, E.U.A., 2004. Realização: Shane Carruth. Com: Shane Carruth, David Sullivan.

4.2.06

Fantasporto 2006



Já está aí a programação do Fantas 2006. O destaque vai inteirinho para a RETROSPECTIVA EXPRESSIONISMO ALEMÃO, que engloba os seguintes filmes:

A Mulher na Lua (Ale/Ger) de Fritz Lang
Aurora (Ale/Ger) de F.W.Murnau
Der Golem (Ale/Ger) de Henrik Galeen, Paul Wegener
Dr Mabuse (Ale/Ger) de Fritz Lang
Fausto (Ale/Ger) de F.W. Murnau
M – Matou (Ale/Ger) de Fritz Lang
Metropolis (Ale/Ger) de Fritz Lang
Nosferatu (Ale/Ger) de F. W. Murnau
Os Nibelundos 1: A Morte de Siegfried (Ale/Ger) de Fritz Lang
Os Nibelungos 2: A Vingança de Cremilde (Ale/Ger) de Fritz Lang

Citações (I)



"Faltar ao trabalho com a justificação que é doente por cinema é mais que justificativo, não é?"

"não me perguntem pela neve (Estava no cinema.)"

3.2.06

Kiss Kiss, Bang Bang



'Kiss kiss, Bang Bang' pretende ser uma paródia aos trillers 'noir', cheios de reviravoltas, com loiras e muitos tiros. É assim, um filme auto-referencial, estando todo o seu programa exposto no titulo - é copiado dum livro da critica Pauline Kael, que por sua vez o tinha ido buscar à série 007.
O narrador (e principal protagonista) aborda directamente o espectador enquanto lhe vai narrando a história, por vezes parando as imagens, por vezes andando para trás, por vezes para a frente, comentando o que se vai passando, etc. Um chico-esperto, em suma, que depressa nos cansa com as suas intromissões. Mas, quanto a mim, este filme tem um problema ainda mais sério: embora ria de si próprio, ri-se sozinho, ou seja dificilmente o espectador esboça mais que um sorriso. Há uma cena paradigmática: o nosso herói pretendendo assustar um 'vilão', põe uma bala na pistola, roda o tambor e dispara. Naturalmente que mata o infeliz, e depois comenta angustiado que a probabilidade era uma em oito. E o espectador ri-se? Não, apenas boceja ligeiramente enquanto pensa, 'esta foi à Tarantino'. E, claro, Tarantino ele próprio, já tinha ido buscar 'estas' a muitos lados, desde os filmes orientais aos Blaxpoitation... Ou seja, quando um filme assume e faz questão de expor todas as suas referências, só há dois caminhos: ou reinventa o género (como Tarantino o fez), ou querendo parodiá-lo (como Shane Black pretende) necessita de muita imaginação e desenvoltura para levar o espectador a entrar no seu jogo. Não bastam cenas requentadas e piadas já gastas!
Feitas as contas, há um unico motivo pelo qual valerá a pena ver este filme: Robert Downey Jr., um actor espantoso que infelizmente passa mais tempo a fazer desintoxicações que a representar...
Kiss Kiss, Bang Bang, E.U.A., 2005. Realização: Shane Black. Com: Robert Downey Jr., Val Kilmer, Michelle Monaghan, Corbin Bernsen, Dash Mihok, Larry Miller, Rockmond Dunbar.