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30.4.07

10 filmes da vida de...

... Nuno Pires, 24 anos, realizador, autor do blogue Dans la ville blanche.
Esta lista não pretende apresentar as minhas "obras primas do cinema", mas sim filmes que têm um valor especial para mim, pelo que representam ou representaram no meu percurso enquanto homem, realizador e cinéfilo.



Magnolia, de Paul Thomas Anderson
É o filme mais recente desta lista mas tenho de começar por ele. Magnolia foi a obra que despertou a minha vontade de fazer cinema, quando a vi, aos 18 anos. Se não tivesse visto este filme naquela altura, acredito que a minha vida teria sido outra. Anderson criou uma sinfonia sobre a humanidade como já não existem no cinema contemporâneo. Trágica, arrepiante, salvadora. "Save me", canta Aimee Mann na última cena... Também foi com este filme que descobri a obra da Aimee Mann, que continuo a acompanhar com admiração.

Sunrise, de Murnau
Depois do mais recente, o mais antigo. Nem são precisas palavras para justificar esta escolha. Sunrise é provavelmente a história de amor mais forte da história do cinema, forte pela simplicidade do seu argumento e pela complexidade da sua realização. Tive a oportunidade de o estudar durante alguns meses, criando assim uma relação muito íntima com esta obra.

Le Mépris, de Jean-Luc Godard, e Otto e Mezzo, de Federico Fellini
Duas declarações de amor ao cinema, dois filmes sobre a eterna solidão do cineasta e as dificuldades com que tem de lidar — dificuldades internas (mentais, psicológicas) e externas (nomeadamente perante a figura do produtor). Dois filmes que falam por mim, que falam de mim...

La Cérémonie, de Claude Chabrol
A obra mais conseguida de Chabrol, na minha opinião. Um filme que condensa os temas de eleição de realizador: a luta burguesia/proletariado, o ambivalência aparências/realidade, o crescimento do mal em meios fechados que são a aldeia e a família. Cada plano é uma lição de cinema na grande tradição hitchcockiana.

Rear Window, de Alfred Hitchcock
Falando dele, Hitchcock é sem dúvida um dos grandes mestres que admiro desde a infância. É quase impossível distinguir um filme na sua obra. O primeiro filme que me lembro de ter visto foi The Birds (é, aliás, o primeiro filme de que me lembro), mas penso que foi Rear Window que sempre me fascinou mais, pelo tema do voyeurismo, pelo James Stewart, pela Grace Kelly, por aquele cenário fechado no qual se desenrola tudo, da vida até à morte.

Dans la ville blanche, de Alain Tanner
Dans la ville blanche fazia parte do corpus de filmes da minha tese de Mestrado, que escrevi um ano antes de vir viver para Lisboa. Filme sobre a solidão, sobre a vontade de desaparecimento e o esquecimento de si próprio, mas também sobre cinema, influenciou em grande parte a minha mudança e o início da minha nova vida.

Sur la plage de Belfast, de Henri-François Imbert
Outro filme importante a nível pessoal, é este documentário de Henri-François Imbert. Neste filme, Imbert conta a sua investigação para entregar a um família desconhecida uma película Super 8 que ele descobriu numa câmara, numa feira de antiguidades. Partindo de um facto menor, Imbert constrói um poema. Um gesto de altruísmo, uma viagem de iniciação que despertou em mim o desejo de fazer documentários, fazendo-me perceber a força do real.

Chikamatsu monogatari, de Kenji Mizoguchi
João Bénard da Costa diz que este filme faz parte das cinco obras de arte mais belas de todos os tempos, e acho que concordo com ele. Vê-lo foi uma experiência transcendente, espiritual, absoluta.

Banshun, de Yasujiro Ozu
Acabo com o mais significativo para mim. Descobri o universo de Ozu há pouco tempo, mas tornou-se rapidamente o meu cineasta de eleição. É muito difícil destacar um único filme numa obra tão constante e consistente, mas este talvez seja o que mais encontrou eco no meu coração. Esta história, tão simples, de uma jovem mulher (a deslumbrante Setsuko Hara) que não quer casar para ficar a viver com o pai, é um magnífico exemplo da arte de Ozu na maneira de pintar o quotidiano. Um quotidiano muito específico da sociedade japonesa, mas que Ozu consegue tornar universal. Quando vejo um filme de Ozu, tenho quase a sensação de fazer parte daquela família, de conviver com aquelas personagens. Se pudesse entrar num filme de Ozu, não pensaria nem um segundo: saltava para dentro do ecrã.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é Sérgio Alpendre

26.4.07

Até já

Aqui há tempos, à guisa de auto-elogio, estive para pôr aqui o seguinte anúncio:

- Neste blogue não se auto-anunciam aniversários do mesmo
- Neste blogue não se põem vídeos do youtube para encher chouriços

Um amigo avisado, alertou-me para o facto de tão antipática missiva me roubar três quartos da minha meia dúzia de leitores, pelo que desisti da ideia. E ainda bem, pois assim posso mesmo pôr aqui um vídeo do youtube sem ficar mal (e quem sabe - com a idade uma pessoa vai ficando mais mole - um dia auto-anunciar o aniversário do tasco - para isso tinha que descobrir a data, claro).
Fiquem então com Miranda July. Até já.

23.4.07

10 filmes da vida de...

...Cláudia aka Wasted Blues, 27 anos, jornalista, menina da rádio, cinéfila. É autora do blogue Wasted Blues. Uma lista afectiva e desordenada:



The Wizard of Oz, de Victor Fleming (1939)
O meu primeiro filme no cinema. Aquele a que eu volto de tempos a tempos porque tudo nele é feel good e deliciosamente kitsch. Porque às vezes tenho saudades de Oz.

Les Amants du Pont Neuf, de Leos Carax (1991)
Do realizador maldito Leos Carax. É um filme indefinível, com uma magia visual tanto inquietante como comovente. É a história de um amor surreal, um poema sobre o intangível de dois seres diferentes. E é tão inesperado e importante, quando somos surpreendidos por um final feliz.

Vivre Sa Vie, de Jean Luc Godard (1962)
Mudou a minha forma de ver e sentir o Cinema. Aquele rosto filmado como Dreyer filmou a sua Joana. A paixão, a filosofia que se faz sem saber, o silêncio que diz tudo, a certeza da palavra certa, o final abrupto... e aquele plano, quando Nana vê a condenação à morte de Joana, que é de uma beleza esmagadora. Tudo aqui é tragicamente perfeito.

Vertigo, de Alfred Hitchcock (1958)
Tinha de escolher um Hitchcock. Mas é muito complicado escolher apenas um. Onde está Vertigo, podia estar Rear Window ou Notorious. Mas escolho essa obra sobre um homem fascinado por uma mulher perdida entre o presente e o passado. Um filme de vertigens, obsessão e onírico.

Splendor in the Grass, de Elia Kazan (1961)
É um filme belo, intenso, inebriante, frontal, sem receios. O poema de William Wordsworth, que lhe serve de inspiração, diz tudo. Há um antes e um depois. Neste caso, o amor entre Deanie e Bud. Neste caso também, a vida... porque nada será como antes.

City Lights, de Charlie Chaplin (1931)
Foi o bater de pé de Chaplin ao cinema sonoro. Quando todos se rendiam ao som, o vagabundo selou os lábios e deu-nos um dos seus mais belos filmes.

Persona, de Ingmar Bergman (1966)
Outro filme que mudou a minha forma de ver o Cinema. Arrepiei-me quando vi dois rostos tornarem-se num só. Filme sobre as nossas máscaras, sobre o que somos e o que representamos.

Rio Bravo, de Howard Hawks (1959)
A obra que me apresentou os Westerns. E pensar que esta obra-prima surgiu por despeito. Hawks e Wayne odiaram High Noon, de Fred Zinnemann, e 8 anos depois deram-nos Rio Bravo. Se High Noon é a luta de um homem só, Rio Bravo é o elogio ao companheirismo e cumplicidade.

Manhattan, de Woody Allen (1979)
Seriam suficientes os primeiros minutos para incluir Manhattan em qualquer lista. A suprema declaração de amor de Woody à sua cidade, num magistroso preto e branco, ao som dos acordes de Rhapsody in Blue, de George Gershwin. Inesquecível.

Sunset Boulevard, de Billy Wilder (1950)
Filme de fantasmas, vivos e mortos. Filme sobre o Cinema e uma época em que as suas estrelas eram consideradas deuses. Sunset Boulevard, Mulholland Drive, INLAND EMPIRE… estranhos mundos oníricos e negros na Cidade dos Sonhos.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é Nuno Pires

22.4.07



"Cinema is the ultimate pervert art. It doesn’t give what you desire; he tells you how to desire".

"We have a perfect name for fantasy realized: it's called nightmare" .












Se procuramos na realidade algo mais real que a realidade ela própria, então temos que olhar para a ficção cinematográfica. Esta é a lição que a superstar intelectual da actualidade nos transmite neste documentário. Para isso serve-se de muito Hitchcock, muito Lynch, mas também de Walt Disney, de Matrix ou de Aliens, entre muitos outros.
Zizek é carismático, telegénico, acessível (mais ainda que nos seus livros) e apaixonado pelos filmes de que fala, tornando estas duas horas e meia verdadeiramente fascinantes, mesmo para quem não tem qualquer noção das teorias Freudianas (embora ajude ter algum conhecimento da matéria). A não perder.

20.4.07

Missão solar



'Missão solar' é um filme que aponta em várias direcções e, na minha opinião, falha-as todas.
Desde logo falha no mais básico: o conjunto de actores é péssimo e tem cenas supostamente tocantes que são dum amadorismo confrangedor. Dois exemplos: quando uma das tripulantes de Icarus II (até o nome da nave soa pretensioso) declara que é contra a morte de um dos outros tripulantes, fazendo um discurso empolgado (enquanto olha para a câmara) do tipo "sei que esperam o meu voto, mas o meu voto só pode ser não!', temos um digno exemplo da expressividade de uma aluna de 10 anos a fazer o seu primeiro papel no sarau da escola; ou quando outra tripulante morre com uma pequena flor na mão, símbolo da vida, numa metáfora subtilíssima...
Depois, 'Missão solar' desperdiça uma ideia simples e intrinsecamente verdadeira, que por si só tem sustentado tantos filmes de terror: que a principal causa de desgraça de um grupo exposto a uma situação de extrema dificuldade e pressão, é interna, ou seja é a desunião do grupo, a irracionalidade das pessoas que se viram umas contra as outras em vez de cooperarem para combater o inimigo externo comum. Aqui tudo é tratado vagamente, superficialmente, não conseguimos entrar dentro de uma única personagem, desde o início que parecem todas profundamente egoístas e ilógicas, tanto mais de estranhar quando se trata de um grupo de cientistas supostamente muito bem preparados para uma missão de alto risco e dificuldade. E quando há a peregrina ideia de enfiar na nave um elemento externo, aí o filme descamba totalmente, sendo-nos servida uma mistura intragável de metafísica primária com (mau) filme de terror série Z .
Resumindo: como filme de FC versão terror é totalmente inócuo; como filme de FC versão metafísica não vai além do 'somos todos feitos de pó e não devemos brincar aos Deuses', ainda por cima apresentado de uma forma atabalhoada e grosseira; como devaneio visual é um sub-sub-2001, apostando quase tudo numa má banda sonora intrusiva e numa montagem agressiva mas pouco imaginativa. Nem por um segundo nos consegue envolver naquele imaginário algo místico que o espaço nos inspira pelo menos desde 2001, algo que um filme de certo modo falhado como 'The fountain' consegue, para o bem e para o mal.
Tão fácil é enumerar os defeitos de 'Missão solar', que o leitor até poderá ficar com a ideia que é um filme péssimo ou até um grande falhanço. Mas nem sequer isso é: é apenas um filme aborrecido e pouco original.
Sunshine, Grã-Bretanha, 2007. Realização: Danny Boyle. Com: Cillian Murphy, Chris Evans, Rose Byrne, Michelle Yeoh, Cliff Curtis, Benedict Wong, Troy Garity, Hiroyuki Sanada.

19.4.07

Semiologia da imagem clónica



E só mais uma, para terminar (prometo!) esta maré de citações das extraordinárias memórias de Buñuel:

"Detesto o pedantismo e o jargão. Já me aconteceu rir até às lágrimas ao ler alguns artigos dos Cahiers du Cinéma. Na cidade do México, tendo sido nomeado presidente honorário do Centro de Capitación Cinematográfica pela Escola Superior de Cinema, um dia fui convidado a visitar as suas instalações. Apresentam-me quatro ou cinco professores. Um deles é um jovem bem vestido, corando de timidez. Pergunto-lhe que disciplina ensina. Ele responde: 'a semiologia da imagem clónica'.
Apeteceu-me assassiná-lo".

Filmes da vida de...

...Luis Buñuel!


(clique na imagem para a aumentar. Pode-se divertir a tentar identificar os retratados!)

"Gosto de Paths of Glory de Kubrick, Roma de Fellini, O couraçado Potemkine de Eisenstein, A grande farra de Marco Ferreri, monumento hedonístico, grande tragédia da carne, Goupi mains rouges de Jacques Becker e Jeux Interdits de René Clément. Gostei muito dos primeiros filmes de Fritz Lang, Buster Keaton, os Irmãos Marx, O manuscrito encontrado em Saragoça, romance de Potocki e filme de Has que vi três vezes e que é excepcional, e que mandei Alastrite comprar para o México, em troca de Simão do deserto.

Gosto muito dos filmes de Renoir até à guerra e de Persona de Bergman. De Fellini gosto também de A estrada, de As noites de Cabiria, La Dolce Vita. Nunca vi Os inúteis e tenho pena. Em contrapartida, em Casanova saí da sala muito antes do fim.

De Vittorio de Sica gostei muito de Sciuscà, Umberto D e Ladrões de bicicletas, onde ele conseguiu transformar uma ferramenta de trabalho numa vedeta. Foi um homem que conhecei e de quem me sentia muito próximo.

Gostei muito dos filmes de Erich von Stroheim e de Stenberg. Na altura achei Vidas Tenebrosas soberbo.

Detestei Até à eternidade, um melodrama militarista e nacionalista que infelizmente teve muito sucesso.

Gosto muito de Wadja e dos filmes dele. Nunca o conheci mas há muito tempo, no festival de Cannes, ele declarou publicamente que os meus primeiros filmes lhe deram vontade de fazer cinema. Lembra-me a admiração que eu próprio sentia pelos primeiros filmes de Fritz Lang e que determinou o rumo que dei à minha vida. Acho admirável esta continuidade secreta que há entre os filmes, entre os países. Um dia, Wadja enviou-me um postal assinado ironicamente 'O seu discípulo'. Este caso é particularmente comovente porque considero admiráveis os filmes dele que vi.

Gostei de Manon de Clouzot e de Atalante de Jean Vigo. Fiz uma visita a Vigo durante a rodagem. Lembro-me de um homem fisicamente fragilizado, muito novo e muito amável.

Entre os meus filmes preferidos figuram o filme inglês Dead of the night, delicioso conjunto de várias histórias de terror e White shadows in the south seas, que me pareceu muito superior a Tabu de Murnau. Adorei Portrait of Jennie, com Jennifer Jones, uma obra desconhecida, misteriosa e poética. Declarei nalgum sítio o meu amor por esse filme e Selznick escreveu-me a agradecer.

Detestei Roma, cidade aberta de Rosselini. Achei que o contraste fácil entre o padre torturado e, na sala contígua, o oficial alemão bebendo champanhe com uma mulher no colo era um procedimento repugnante."

'O meu último suspiro', Luis Buñuel

17.4.07

Os méritos do álcool



"Se tivesse de enumerar todos os méritos do álcool, nunca chegaria ao fim. Em 1978, em Madrid, após um desentendimento sério com uma actriz, desesperava para chegar ao fim da rodagem de 'Este obscuro objecto do desejo'. Serge Silberman, o produtor, decidiu parar o filme, o que representava perdas consideráveis. Assim, estavamos os dois num bar, bastante abatidos e, de repente, mas só depois do segundo dry-martini, tive a ideia de pôr duas actrizes a representar o mesmo papel, algo que ninguém fizera até então. O Serge agarrou logo na ideia que eu lhe atirara como uma piada e o filme salvou-se, graças a um bar. "

'O meu último suspiro', Luis Buñuel

O explicador



"Em Saragoça, além do tradicional pianista, cada sala tinha o seu explicador, um homem que, de pé, ao lado do ecrã, ia comentando em voz alta o que se passava. Dizia por exemplo:
- Então o Conde Hugo vê a sua mulher passar de braço dado com outro homem, que não é ele. E agora, senhoras e senhores, vão ver como ele abre a gaveta da escrivaninha para pegar no revólver e assassinar a esposa infiel!

O cinema trazia uma forma narrativa tão nova e tão pouco habitual que a grande maioria do público tinha muita dificuldade em compreender o que se passava no ecrã, como os acontecimentos se encadeavam de um cenário para o outro. Habituámo-nos inconscientemente à linguagem cinematográfica, à montagem, às acções simultâneas ou sucessivas, e mesmo aos flashbacks. Naquela altura o povo decifrava a custo uma linguagem nova.
Daí a presença do explicador."

'O meu último suspiro', Luis Buñuel

16.4.07

10 filmes da vida de...

...Tiago Ribeiro (aka Peeping Tom), 28 anos, autor do blogue Mil e tal Filmes para ver antes que apanhe a Peste. Lista com uma ordem indefinida:



Raging Bull, de Martin Scorsese
Scorsese encarou "Raging Bull" como o "tudo ou nada" na sua carreira, possível obra derradeira depois do esmagador insucesso de "New York, NewYork", e o que daí resultou foi uma vertigem de auto-destruição como raramente se viu no cinema. Formalmente espantoso, De Niro no papel da sua vida, "Raging Bull" é uma sinfonia de som e imagem à beira da implosão.

Close-Up, de Abbas Kiarostami
Pensava que depois de ter visto "Taste of Cherry", nada mais na obra deKiarostami me poderia espantar tanto. "Close-Up" é uma incisiva reflexão sobre o poder transcendental do cinema, um melodrama existencial, uma hipnotizante lição sobre a dignidade humana. Jogando sobre as variantes de"falso" e "verdadeiro", Abbas, em vez de nos confundir, apenas nos imerge ainda mais na estória. Os últimos minutos são antológicos, mais comoventes que 200 "tearjekers".

M, de Fritz Lang
Filme actualíssimo, por mais anos que passem. É só comparar a trama de "M"com as imagens das multidões histéricas à saída dos tribunais, presentes nos telejornais, para vermos que o filme seminal de Lang não ganhou uma única ruga. Peter Lorre, com os seus olhos de boneco animado, parece ainda estarno cinema mudo, mas com apenas três anos de sonoro, Fritz já estava noutro patamar de excelência técnica do que os seus colegas americanos. Todo o julgamento na cave é memorável, indicador preciso da nojenta hipocrisia dasmassas humanas. Genial.

Psycho, de Alfred Hitchcock
"The..the...bathroom". A hesitação de Norman Bates é a antevisão do horror que aí vem. Alusões sexuais, a solidão, o oportunismo, a culpa: é Hitch "allthe way", combinado com uma mestria técnica inultrapassável, ou como uma sucessão de planos aparentemente anódinos de um sabonete e de água a sair de um chuveiro podem instaurar imediatamente o campo da ameaça. Alfred realizouum dos mais profundos estudos da natureza humana, e o mais perverso de tudo, é que o fez sob a capa de filme "de género", atraindo um enorme sucesso de bilheteira.

Hana-Bi, de Takeshi Kitano
Num momento, vemos Beat Takeshi, calmo e contemplativo, a beber um copo; no segundo seguinte, está ele a espetar um pauzinho no olho de um bandido. Estas bruscas mudanças de tom são uma das marcas mais identificativas de Kitano, a par de um humor absurdo. Em "Hana-Bi", o nipónico acrescentaria um notável lirismo à sua gama de recursos, sobretudo utilizado nas melancólicas cenas com a sua mulher (a magnífica banda sonora de Joe Hisaishi também tem muito a ver com isto). A reter: uma sequência em slow motion, e uma sucessãode planos de figuras pictóricas, excertos brilhantes de uma obra maior.

Night Of The Hunter, de Charles Laughton
Filme mítico, de culto, singular até ao tutano. Obra única do grande actor Charles Laughton, negra fábula sobre a infância acossada pela ganância dos adultos, "Night of The Hunter" é um prodígio experimental, sem nunca abandonar a âncora narrativa. Lembro-me, sobretudo, de uma sessão religiosa trabalhada sobre moldes expressionistas, mais parecendo estarmos a ver um comício no Inferno. Robert Mitchum, maquiavélico e delicioso na sua falsa candura, e Lilian Gish como a "avózinha" resistente: não há por onde dizer mal deste filme.

Great Dictator, de Charles Chaplin
Se Nanni Moretti afirmou que não era sua intenção ridicularizar Berlusconi,Chaplin não faz outra coisa senão isso em relação a Adolph Hitler. Aquele discurso inicial, paródia cacofónica do imperialismo dos discursos do Fuhrer, é ainda mais político do que o exuberante final, momento em que ofilme se desprende de si próprio, e só vemos o cidadão Chaplin como mensageiro humanista. Momento antológico sobre momento antológico, "Great Dictator" introduz o sonoro na filmografia de Charles, e significa também aprimeira pedra no longo caminho que daria ao seu exílio de terras americanas. Nunca mais se viu igual.

Triumph Des Willens, de Leni Riefenstahl
Antes da ridicularização, a apologia. Ou não? Se a cineasta alemã sempre desmentiu a convergência com as ideias nazis, "Triumph Des Willens" parece,à primeira vista, não lhe dar razão. "Apenas uma questão estética", disse ela, e é assim que eu olho para este magnífico filme, endeusamento de pessoas não tanto por aquilo que dizem, mas mais como o dizem. E se nunca se colocou em questão, pelo menos de forma tão veemente, a propaganda comunista nos filmes de Eisenstein, porquê desprezar por completo a suposta propaganda Nazi de "...Willens", mesmo tão fabulosamente trabalhada? Já lá vão mais desetenta anos, altura mais do que suficiente para uma maior distanciação.

Playtime, de Jacques Tati
O mundo é uma comédia, diz-nos" Playtime". Visão crítica mas felizmente não demagógica sobre o caos urbano e a impessoalidade que daí advém, aobra-prima de Tati é um filme conceptual como raramente houve e haverá. Antes do final carnavalesco, a irrisão terá o seu cume numa inacreditável longa sequência num restaurante, louco "tour de force" a propósito doprovincianismo de uma certa burguesia. Foi feito há quarenta anos, mas tem o look de amanhã. A ver, pelo menos, 10 vezes por ano.

Recordações da Casa Amarela, de João César Monteiro
Começa num magistral travelling pela zona ribeirinha de Lisboa, e termina com um Nosferatu renascido nos esgotos da capital. Monteiro começava a "dar-nos trabalho" com a sua primeira encarnação de João de Deus, dandy iconoclasta, amante de pintelhos e de boa comida, cujo sonho é "marchar sobre São Bento!". Acessível como não seriam os outros dois tomos da trilogia, "Recordações da Casa Amarela" presenteia-nos com uma Lisboa picaresca, alterna brejeirice do povo com a celestialidade de Holderlin, espeta-nos com o bacalhau de Quim Barreiros e as sinfonias de Mozart. Quanto a mim, o melhor filme português de todos os tempos.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. A próxima convidada é a Cláudia (Wasted Blues).

14.4.07

A atiradora


Kate Mara , em 'O atirador'

13.4.07

O atirador



Já aqui confessei que sou fã de um certo tipo de thrillers que nem sei muito bem definir, algo difuso que abarca desde filmes policiais a filmes de suspense. Neste campo não sou muito exigente: não vou à espera de ver nenhuma 'Intriga Internacional'. Desde que tenha um actor competente (ponto importante! um canastrão tipo Van Damme deita tudo a perder), a companhia feminina não deslustre e as cenas de acção sejam despachadas, eficazes e não tenham explosões em câmara lenta com musica de Vangelis, já me dou por satisfeito. Nem exijo muito ao argumento, apenas que não atrapalhe.
'O atirador' cumpre os três primeiros requisitos: Mark Wahlberg dá muito boa conta do recado, temos duas belas actrizes, Kate Mara no género cheerleader e Rhona Mitra num género mais sofisticado (por sinal duas actrizes que conhecia de 'Nip/Tuck'), e as cenas de acção não desiludem nem em quantidade nem em qualidade, pesem embora alguns exageros a la Rambo. Onde a porca torce o rabo é no argumento e mais uma vez temos um problema típico: o realizador leva o McGuffin a sério. Há uma série de lugares-comuns que ainda passam, como uma trapalhada sobre uns interesses americanos na Etiópia (África está na moda em Hollywood!) ou mesmo uma alusão a Abu Ghraib metida à pressão. Agora para os pavorosos 20 minutos finais, que defendem a originalíssima teoria que a democracia (pelo menos a Americana) está ferida de morte, que tudo são interesses e corrupção, que os poderosos se safam sempre, e que a única maneira que o cidadão comum, íntegro e patriota, tem de se defender é fazendo justiça pelas próprias mãos, bom, para isso já não há pachorra.
Volta Dirty Harry que estás perdoado!
Shooter, E.U.A., 2007. Realização: Antoine Fuqua. Com: Mark Wahlberg, Michael Pena, Danny Glover, Kate Mara, Elias Koteas, Rhona Mitra.

12.4.07

The Killers



As palavras são de Colin McArthur, no seu livro Underworld USA/O filme policial: "em The Killers, feito a partir do conto homónimo de Hemingway, estamos perante uma situação com que o crítico de cinema sonha, mas que raramente acontece: a mesma matéria-prima trabalhada por dois realizadores, ambos de forte personalidade, dando origem a dois filmes bem originais e distintos. O conto foi adaptado ao cinema por duas vezes, em 1946 por Robert Siodmak e em 1964 por Don Siegel. Cada uma das duas versões reflecte bem o mundo do seu criador: escuro, torturado e delirante no caso de Siodmak; frio, elegante e repleto de luz na visão de Siegel".

De realçar que o excelente conto de Hemingway em que ambos os filmes se baseiam não é mais do que uma sugestão de enredo: um homem espera calmamente num quarto de hotel que dois assassinos contratados o vão matar. Coube a Anthony Veiller, argumentista da primeira versão, inventar o porquê da não fuga deste homem ou, por outras palavras, inventar-lhe um passado. Sendo Siodmak um mestre do noir, não será estranho que tudo esteja relacionado com uma femme fatale (nada mais nada menos que Ava Gardner), sendo a trama deslindada por um detective dos seguros.
A versão de Siegel é uma variação desta história, centrando (naturalmente!) as atenções nos assassinos, representados pela extraordinária dupla Lee Marvin/Clu Gulager. Aliás todo o elenco desta segunda versão é magnífico, incluindo ainda Ronald Reagan (e que estranho é vê-lo num filme!) e, no papel da vítima - representada por Burt Lencaster no filme de Siodmak, e que aqui ganha muito mais relevo - temos... John Cassavetes.

Vale bem a pena ver os dois filmes de enfiada (e quem não conheça o conto de Hemingway, que o leia): não há muitas formas melhores de ter uma lição de cinema.

9.4.07

10 filmes da vida de...

...Paulo Ferrero, 43 anos, licenciado em economia, viciado em cinema. É autor do blogue Cine-Australopitecus.



1. 2001-Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick
Um filme soberbo e profundamente actual, quer na técnica cinematográfica, quer no enredo, com base em Arthur C.Clarke. O filme da minha vida, visto no écran mágico do Tivoli, depois da cortina azul se abrir. Kubrick, sempre.

2. Blade Runner, de Ridley Scott
Bastaria a frase «if only you could see what I've seen with your eyes» para que fosse um dos meus preferidos. É o melhor Ridley Scott e Vangelis fez o resto. Mas atenção: sou fã da versão oficial, com narrador.

3. Excalibur, de John Boorman
O melhor filme feito sobre a lenda de Artur, e a despedida do Monumental, acompanhada por Wagner. Podia ter sido melhor? Não.

4. Brazil, de Terry Gilliam
Desparafusada parábola sobre a sociedade dos nossos dias, hiper-burocratizada e tele-comandada, onde uma mosca caída sobre uma máquina-de-escrever funciona como um grão de areia na engrenagem. Todos nós devíamos ter algo do sonhador Sam Lowry. Música espantosa de Ary Barroso.

5. Citizen Kane, de Orson Welles
O mais perfeito dos filmes, não tanto enquanto argumento mas enquanto realização. Welles mais egocêntrico e soberbo que nunca. Rosebud estará sempre em nós, por mais que nos esforcemos por fazer de conta.

6. Faust, de F.W. Murnau
Goethe teria adorado ver que o cinema de Murnau é arte maior. O expressionismo em quintessência, num jogo de sombras e assombrações não apenas do Mudo mas do séc.XX. Assombroso.

7. Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola
"O" filme sobre o Vietnam. E um Brando omnipresente apesar de só aparecer poucos minutos. Coppola em grande forma nesta sua extraganza inesquecível.

8. Metropolis, de Fritz Lang
A geometria e a lente de Lang, juntamente com o argumento futurista de Thea. Um filme que deve ser visto de tempos a tempos, para recordar.

9.Ivã, O Terrível, de Sergei Eisenstein
O melhor de Eisenstein, o que quer dizer o melhor da estética, da montagem e do que é genuinamente russo. Tem alguns planos imortais, e um Cherkasov impressionante.

10. Branca de Neve e os Sete Anões, produzido por Walt Disney
A quintessência do desenho animado, o melhor de Disney, a pureza das imagens, da história e das personagens. O triunfo da cor.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é Peeping Tom.

6.4.07

300



É verdade que '300' possui uma certa, não direi gravidade, mas uma certa maturidade que não é muito comum neste tipo de blockbusters. E se isso o eleva acima dos habituais teen movies decalcados de jogos de PC, também é certo que não tem muito para oferecer para além da sua imponente faceta visual, apoiada em sólida artilharia técnica (com destaque para a excelente fotografia), apresentando ambientes e personagens faustosamente barrocos, que culminam num Xerxes (o actor Brasileiro Rodrigo Santoro) versão Drag Queen...
De resto parece que tem levantado bastante celeuma, por fazer a apologia da guerra, por ser fascista, por ser pro-Bush, por ser anti-islâmico, ou não sei que mais. Mas eu acho que não tem espessura para ser nada disto - é entretenimento minimamente competente e ponto final.
300, E.U.A., 2006. Realização: Zack Snyder. Com: Gerard Butler, Lena Headey, Rodrigo Santoro, Dominic West, David Wenham, Vincent Regan.

4.4.07

INLAND EMPIRE



Uma actriz (Laura Dern) é seleccionada para participar num filme. Aí contracena com um actor (Justin Theroux) com fama de mulherengo. Este é avisado para não se envolver com ela, ou o seu marido far-lhe-á coisas terríveis. A primeira das três horas de 'Inland Empire' é basicamente ocupada com este filme dentro do filme, com os dois actores, com o realizador (Jeremy Irons), com outra pessoa envolvida mas filmagens (Harry Dean Stanton). Apesar de algumas cenas - uma mulher num quarto, umas pessoas com cabeça de coelho que participam numa estranha sitcom, uma pessoa que é entrevista nos estúdios, uma vizinha com dons proféticos - e alguns detalhes - aqueles quartos mobilados como só o são nos filmes de David Lynch - parece que estamos a assistir a um 'Lynch' narrativo. Mas, a partir de uma dada altura, 'realidade' e ficção, passado e presente, presente e futuro, começam a confundir-se e estas personagens desaparecem sem deixar rasto.
Ou nem tanto. Laura Dern é omnipresente durante todo o filme, mas quando é Nikki (a actriz), quando é Susan (a personagem do filme no filme), bom, isso nem sempre é claro. E para complicar interpreta ainda (pelo menos) mais uma personagem, alternando entre a Polónia e Hollywood (mais uma vez Hollywood, numa altura em que Lynch tem que vir filmar para a Europa e distribui ele próprio o filme nos E.U.A.). Ou será uma só personagem?
'Inland Empire' é descendente directo de 'Eraserhead', e tal como em 'Lost Highway', mais que em 'Mulholland Drive', as pontas soltas, os nós por desatar, as lacunas deixadas para a imaginação do espectador preencher são mais que muitas. Os túneis no espaço-tempo são o pão-nosso-de-cada-dia de Lynch. É um lugar-comum dizer que mais que assistir a um filme, com Lynch vamos experimentar (no sentido de, mas mais do que, sentir) algo. Mas é verdade, continua a ser verdade. Várias vezes dei comigo a divagar, quase alheado da tela, e sempre voltei a ser para ela atraído por uma imagem estranhamente iluminada, por um som inesperado, por uma cena desfocada, por um close-up assombroso. Até ao último segundo do genérico final (e não convém perde-lo de forma alguma) somos surpreendidos, somos abanados.
Mesmo que eu continue a preferir um filme como 'Mulholland Drive' em que os espaços em branco podem ainda assim ser preenchidos de modo a fechar o círculo, não há como negar o fascínio de um objecto como 'Inland Empire'. Como disse um dia um crítico, uma pessoa experimenta muitas sensações durante um filme de Lynch, mas nunca a de aborrecimento. E 'Inland Empire' é, como li algures na net, Lynch at his Lynchest.
INLAND EMPIRE, E.U.A., 2006. Realização: David Lynch. Com: Laura Dern, Justin Theroux, Jeremy Irons, Karolina Gruszka, Harry Dean Stanton, Grace Zabriskie.

2.4.07

10 filmes da vida de...

...Hugo Alves, 25 anos, jurista por formação, advogado de profissão, a fazer um Mestrado em Direito. Leitor compulsivo e cinéfilo inveterado, é o autor do muito cinéfilo - e combativo - blogue Amarcord.



Otto e Mezzo, de Federico Fellini
É o filme máximo, homenagem ao Cinema, viagem ao Universo de Fellini (restando saber se é um retrato honesto ou artificial), mas, principalmente, é o abraçar sôfrego da vida tal como ela é: desde o mais abjecto ao mais belo, onde tudo está envolto num tom onírico e onde a banda sonora de Nino Rota é o complemento perfeito das imagens do outro mágico: Fellini.

Le Samouraï, de Jean-Pierre Melville
Mais do que um filme de gangsters, Melville usa de toda a sua arte para nos dar um retrato abstracto e depurado da imensidão do espaço urbano e da solidão na selva de betão. Jeff Costello, o Samouraï, é, de certo modo, uma espécie de retrato do isolamento de todos nós na selva urbana.

La maman et la putain, de Jean Eustache
O filme em que Eustache traça o retrato das gerações pós-Maio de 1968 e, simultaneamente, exploras as fronteiras e limites das relações amorosas. isto enquanto perscruta a miríade de variações que uma simples palavra pode ter. Desde o palavrão ao mais requintado e erudito adjectivo.

Rocco e i suoi fratelli, de Luchino Visconti
Visconti regressa, formalmente, ao terreno de formação, mas fá-lo num tom de tragédia operática onde os 4 irmãos de Rocco se vão passeando por Milão, algures entre a crença no futuro próspero da vida na grande urbe e o sentimento telúrico, o chamamento da terra e o desenraizamento que domina alguns deles. Para além do mais, dificilmente se esquece o abraço à morte de Nadia ou o passeio desencantado de Luca, ao som de Bello paese mio¸ enquanto acaricia os cartazes onde está estampado o rosto do seu irmão Rocco.

Pierrot le fou, de Jean Luc Godard
Aqui temos a síntese de todo o Godard, desde o ll faut vivre dangereusement de À bout de souffle, passando pela declaração de amor a Karinna de Le mépris. Mas há, também, o constante jogo de citações, a homenagem ao cinema e, também, uma das mais trágicas histórias de amor, pautada pela inesquecível banda sonora de Antoine Duhamel. Em Pierrot le fou, o simples acto de existir dói. E isso é de uma beleza trágica, mas sublime.

Bitter Victory, de Nicholas Ray
É o filme onde a emoção, desde o primeiro ao último frame, impera, colocando, através do “duelo” entre Leith e Brand, a cobardia em exame. Mais do que um filme de guerra, Bitter Victory, é um pequeno tratado sobre alguns dos traço negativos da humanidade. Ademais, tem um dos momentos mais sublimes de Cinema que conheço: aquele em que Leith é engolido por uma tempestade no deserto bradando I always contradict myself.

Sansho Dayu, de Kenji Mizoguchi
Aqui Mizoguchi oferece-nos uma fábula sobre a redenção e um tratado sobre a compaixão. Pelo próximo, pelos semelhantes. Por todos. É um filme permeado de elipses, sendo a mais bela e pertubora aquela em que nos apercebemos do suicídio da irmã de Zushio que, chorando, desloca-se lentamente para um lago. Coloca umas pedras nos bolsos e, quando a câmara regressa, só vemos o leve balançar das águas. Este é o filme onde todos os homens são espectros que só ganham corpo quando Zushio, já redimido, os liberta. Pura poesia e humanismo, em estado puros.

Baisers Volés, de François Truffaut
Resulta difícil escolher um filme do ciclo Doinel (este é o primeiro que vi…). Em Baisers volés, tal como na música de Trenet, somos dominados pelo tom agridoce e levemente surreal em que os amores de Antoine e Christine se deixam enlear, contagiando-nos, fazendo-nos sonhar e, claro, perguntar Que reste-t-il de nos amours?

Lawrence of Arabia, de David Lean
Ver o contraste entre a imensidão do deserto, o extenso areal que tudo rodeia e engole, e o rosto transido de El Aurens, fitando o horizonte distante nos deixam boquiabertos e sem palavras, tal como a sua obstinação e o constante quebrar de regras. É um filme sobre um sonho e sobre a sua realização (tal como, em certa, medida Fitzcarraldo, de Werner Herzog, um dos meus outros filmes preferidos).

Zorba the Greek, de Michael Cacoyannis
Um belo retrato da amizade e do amor, que me fez redescobrir a aplicação pura do super-homem de Nietzsche, mas, também, me deu a conhecer o universo de um escritor extraordinário: Nikos Kazantzakis. Acresce ainda que a dança final é absolutamente inesquecível, tal como o é a interpretação de Anthony Quinn e as várias peripécias que Zorba desencadeia por Creta.

Concluo lembrando que esta é uma lista afectiva. Idolatro autores como Ozu, Bergman, Antonioni ou Bresson. Mas esta é a lista, passe a expressão, do coração e não da razão.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é Paulo Ferrero.

1.4.07

O bom Alemão



Ao longo da sua irregularíssima filmografia, Steven Soderbergh tem-se movido entre os filmes puramente experimentais (como o péssimo 'Full Frontal') e aqueles bem ancorados no mainstream (como o anódino 'Erin Brockovich' ou o francamente mau 'Ocean's Twelve'). Os mais interessantes, no entanto, são aqueles que estão num meio-termo, ou se quisermos, aqueles em que o realizador melhor sintetiza estas suas facetas. Falo de filmes como 'Traffic' ou o óptimo remake de 'Solaris'.
'O bom Alemão' estará mais perto de um filme como 'Ocean´s Eleven': tal como este é um divertimento inteligente e sofisticado, mas é-lhe superior por ser mais denso. Sendo um exercício de estilo, filmado a preto e branco, ao estilo dos filmes de guerra da década de 40, com piscadelas de olho que vão desde 'O terceiro homem' a 'Casablanca', nunca o virtuosismo (inegável) do realizador abafa o ambiente a la film noir que se respira por todos os poros. George Clooney é o anti-herói que passa o filme feito saco de pancadas, Cate Blanchett é a mais improvável (e não totalmente convincente) das femme fatal e Tobey Maguire mostra que ainda existe um actor para lá do homem-aranha. E por trás do McGuffin, menos confuso que o habitual, fala-se da culpa do cidadão anónimo nos crimes da sua pátria. Está Soderbergh a falar apenas da Alemanha do pós-guerra? Cada um que interprete como entender.
The Good German, E.U.A., 2006. Realização: Steven Soderbergh. Com: George Clooney, Cate Blanchett, Tobey Maguire, Jack Thompson, John Roeder, Dave Power.