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28.2.10

The Descent: Part 2


























Comecemos pelo essencial: esta parte dois de 'A descida' era, tal como 90% das sequelas, completamente dispensável. É pior em todos os aspectos que o filme original (um pequeno clássico, na minha opinião) e não lhe acrescenta rigorosamente nada.

Posto isto, diga-se que também não é uma desgraça. Do original, o realizador Jon Harris (o responsável pela montagem do filme anterior, que que se estreia aqui na realização) retém um saudável espírito série B (talvez um pouco excessivo - até os actores me pareceram fracotes!) e, exceptuando duas ou três incursões piadéticas escusadas, mantém um nível de tensão razoável e dá-nos mesmo uma cena muito boa - em que uma das personagens, para se salvar, tem que cortar o braço de outra à machadada, o que lhe demora uma eternidade, provando a conhecida máxima hitchcockiana de que dá um trabalhão matar alguém. Consegue, ainda, um final surpreendente.

Concluindo: quem se abster de o ver, não perde nada, na verdade; mas quem o fizer, não corre grande risco de se aborrecer excessivamente.

The Descent: Part 2, Grã-Bretanha, 2009. Realização: Jon Harris. Com: Shauna Macdonald, Natalie Jackson Mendoza, Krysten Cummings, Gavan O'Herlihy, Joshua Dallas.

26.2.10

Uma outra educação

















Jenny tem 16 anos, uma vida rotineira nuns subúrbios da Londres do pós-guerra, e além de bonita é boa aluna e candidata óbvia a um lugar em Oxford. Mas um dia aparece na sua vida David, um homem mais velho que a seduz mostrando-lhe o que o dinheiro pode oferecer: bons carros e bons restaurantes, mas também concertos e viagens a Paris. Uma vida mais glomorosa, em suma. Claro que a vida é mais complicada do que isto, e este episódio vai ter o valor de 'uma educação' para Jenny.

'Uma outra educação' é realizado pela dinamarquesa Lone Scherfig ('Italiano para principiantes', 'Wilbur quer matar-se') e tem argumento de Nick Hornby (baseado nas memórias da jornalista Lynn Barber).

E este é, precisamente, um 'filme de argumento e actores', se não arrebatador, pelo menos bastante competente e interessante. Não há aqui qualquer menosprezo pela realizadora: de forma discreta potencia a sua matéria-prima, contorna o telefilme, e dá-nos uma fita bastante recomendável.

An Education, Grã-Bretanha, 2009. Realização: Lone Scherfig. Com: Carey Mulligan, Peter Sarsgaard, Alfred Molina, Olivia Williams, Dominic Cooper, Rosamund Pike, Emma Thompson, Cara Seymour, Matthew Beard, Sally Hawkins.

25.2.10

10 filmes da vida de...

...José Bértolo, 22 anos, estudante de línguas, literaturas e culturas. É autor dos excelentes blogs Tio Vânia e Melodrama.


















Vredens dag (1943), Carl Theodor Dreyer
Bruxas somos nós todos.

Letter from an unknown woman (1948), Max Ophüls
A complexidade, o rigor e o requinte por detrás deste argumento.

Sunset Boulevard (1950), Billy Wilder
[ler aqui o mesmo que já todos disseram]

A streetcar named desire (1951), Elia Kazan
Sexualidade bruta e destrutiva; relações de poder; «I have always depended on the kindness of strangers».

Imitation of life (1959), Douglas Sirk
Histérico, belo, inteligente.

L’eclisse (1962), Michelangelo Antonioni
Monica Vitti e Alain Delon a fazer de pontinhos numa cidade que os devora. Não há filme com par romântico mais belo (exceptuando A place in the Sun).

Le mépris (1963), Jean-Luc Godard
A música do Delerue e o rabinho da Bardot.

Die bitteren Tränen der Petra von Kant (1972), Rainer Werner Fassbinder
Não é só o melhor filme sobre auto-comiseração. É mais. Deliciosamente complexo.

Todo sobre mi madre (1999), Pedro Almodóvar
A cor, as actrizes, os risos e as lágrimas.

In the mood for love (2000), Wong Kar Wai
Já o vi imensas vezes. Nele vi imensos filmes diferentes. Experimenta também!
(Também Happy together (1997), do mesmo realizador: filme singelo, sobre o voo de dois passarinhos.)

Todas as semanas (mais ou menos!) um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado será anunciado em breve.

24.2.10

Um homem sério
















Num dos meus contos preferidos incluído em 'Tertúlia de mentirosos', uma recolha de 'contos filosóficos do mundo inteiro' efectuada por Jean-Claude Carrière (argumentista, entre outros, de vários filmes de Bunuel), acontecem todas as desgraças possíveis a um pobre camponês que labuta honesta e arduamente todos os dias para sustentar a família. Até que um dia, o pobre homem, desesperado, pergunta a Deus que mal lhe fez. Ao que este responde tranquilamente: 'Tu não me fizeste nada. Mas de vez em quando enervas-me'.

Esta será mais ou menos a lógica deste filme ilógico, em que acontecem uma série de coisas ao pacato professor de física Larry Gopnik (muito bom Michael Stuhlbarg) , sem que este vislumbre a sua causa: a mulher trocou-o pelo melhor amigo, um aluno tenta-o subornar primeiro e chantagear depois, os seus superiores recebem cartas anónimas contra ele, etc., etc. Nada disto faz muito sentido, nem para ele nem para o espectador, que se sente igualmente perdido e apático no meio destes e de outros episódios do género. Terá algo a ver com o prólogo, em que um homem (um antepassado de Gopnick?) é amaldiçoado por receber em casa um dybbuk (uma alma errante)? Não sabemos.

Pressentimos que o filme está cheio de referências judaicas e bíblicas (e possivelmente autobiográficas) mas, pelo menos eu, nem as apanhei nem me senti muito tentado a fazê-lo. Das personagens secundárias (os filhos, o cunhado), aos episódios que se vão sucedendo, tudo me pareceu colado a cuspo, sem um fio narrativo - ou o que quer que seja - que leve o filme a algum lado.

Não sendo um filme, digamos, 'sério' como 'Este país não é para velhos', 'Um homem sério' também não é uma comédia (nem sequer das menores como 'Destruir depois de ler'), nem um filme 'místico' a la 'Barton Fink'. Ou talvez seja um pouco disto tudo, mas em solução diluída.

No final, só fiquei com uma certeza: é o filme dos manos mais entediante que alguma vez vi.

A Serious Man, E.U.A./Grã-Bretanha/França, 2009. Realização: Ethan e Joel Cohen. Com: Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Fred Melamed, Sari Lennick, Aaron Wolff.

20.2.10

La piscine
















Reparei neste filme graças a um post do Cine-Australopitecus, e uma recente visita a uma exposição sobre Romy Schneider, lembrou-me que a actriz foi muito mais que a célebre Sissi.

Em 'La piscine' ela é Marianne, uma bela mulher (e que bela era Romy Schneider) que passa umas férias de Verão em França, preguiçando-se com o seu namorado (Alain Delon) pela magnífica piscina da casa emprestada por uns amigos, até que a chegada de um antigo amante (Maurice Ronet) e da sua filha adolescente (Jane Birkin) cria uma série de tensões a quatro de mau augúrio.

'La piscine' começa em ambiente vagamente Antonioniano ou Zurliniano, em que prevalece um erotismo discreto e belo, mas às tantas passa, algo desconcertantemente, para uma espécie de policial trágico, onde domina o ciúme, essa força poderosa e destruidora entre todas.

Aliás, o policial foi o género onde se distinguiu o realizador Jacques Deray (incluindo vários filmes com Delon), que foi contemporâneo da Nouvelle Vague, mas que se via a si próprio como um mero realizador de filmes de entretenimento (apesar de ter sido assistente de nomes como Luis Buñuel ou Jules Dassin). Teve diversos filmes muito populares (incluindo este), mas hoje está indubitavelmente mais esquecido que os realizadores da Nouvelle Vague. Não obstante, a julgar por este excelente 'La piscine', vale bem a pena descobri-lo.

La Piscine, França, 1969. Realização: Jacques Deray. Com: Romy Schneider, Alain Delon, Maurice Ronet), Jane Birkin, Paul Crauchet.

18.2.10

10 filmes da vida de...

...José Oliveira, autor do muito cinéfilo e combativo blogue O touro enraivecido.


















City Girl, F.W. Murnau, 1930

U samogo sinego morya, Boris Barnet, 1936

She Wore a Yellow Ribbon, John Ford, 1949

Forty Guns, Samuel Fuller, 1957

Les yeux sans visage, Georges Franju, 1960

Sanshô dayû, Kenji Mizoguchi, 1965

La Maman et la Putain, Jean Eustache, 1973

Route One USA, Robert Kramer, 1989

Vale Abraão, Manoel de Oliveira, 1993

Juventude em Marcha, Pedro Costa, 2006

Já muitos disseram o ridículo que é fazer uma lista dos melhores de sempre, sejam filmes, livros, qualquer coisa. E é verdade. Se me passou pela cabeça encetar qualquer coisa do género, só o tentei (o interessante é que é sempre uma tentativa) na medida em que sirva de uma espécie de história pessoal. Jamais teria a pretensão de dizer quais os melhores filmes jamais feitos, mesmo se com a caução do “gosto”. Se escolho o Murnau em vez de um Griffith ou de um Stroheim, de um Pabst ou de Borzage ou um Lang, é só porque o lirismo e a poesia dele me fez acreditar, quando o vi, que o cinema só poderia ser aquilo, e que aquilo era a arte que mais me interessava. O mesmíssimo para o inultrapassável e comovente Nicholas Ray. Ou o russo Barnet, que pode ser menos importante historicamente do que Eisenstein ou Vertov, mas que para mim atingiu alturas e levou o cinema para o campo do onírico e do sonho como se calhar jamais alguém ousou. De Ford nada preciso justificar, todo o essencial do cinema americano (ele e Hawks, Hitchcok, Preminger) mas também todos os grandes estetas e cineastas do plano nasceram com ele. Ozu, outro dos grandes preferidos, ou os Straub, são dessa bela família. Ou Kramer e Costa, o que o cinema foi e o que pode ser. A resistência e o olhar limpo. Depuração, ascetismo e hieratismo, mas convocando qualquer coisa da ordem do sagrado e do impronunciável é o que Oliveira nos dá a cada obra. O mesmo para Mizoguchi, o qual a definição de Domarchi: “uma inexorável doçura” diz tudo; e daqui poderia convocar toda a grande arte oriental, a arte dos grandes mistérios. Mistério, temeridade, assombramento e desconhecido é o que me mostrou Franju e o seu cinema das trevas; de onde poderia derivar para todos os grandes mestres do horror, do aventureiro e do fantástico, de Browning ou Tourneur até Burton. Depois, os intempestivos, os temperamentais, os iconoclastas e estertores. Fuller, que virou ao contrário o classissimo e fez do cinema o campo de todas as guerras e logo de todas as vidas. Daí para Welles, Rossen, Peckinpah ou Siegel é um passo da medida do “eu” de cada um. Eustache e o cinema como arquivo de vida é a escolha mais pessoal, a mais afectiva, pois se jamais a palavra foi utilizada de modo tão central, tão delicada e tão “escandalosa”, é daqui que me lembro de toda a nouvelle vague, de Renoir ou Dreyer, Vigo ou Bresson, Rohmer ou Monteiro. Cinema resolutamente ligado à vida, de uma moral de ferro: a realidade ardentemente respeitada e captada, sem golpes baixos. Depois também Garrel, Wahrol, Carax, Pialat e muitos mais. E claro que muitos filmes ditos série-b ou sem dinheiro e “profissionalismo”, feitos do dia para a noite, podem ser tão fundamentais e ter tanto fogo como qualquer um dos citados e dos imensos esquecidos – Joseph H.Lewis, Ulmer, Walsh, Boeticher, Arnold, Aldrich, Rousseau, Ginsberg, Benning e muitos mais. E pronto, desta vez foi o que saiu.

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é o José Bértolo.

10.2.10

Brevemente
















10 filmes da vida de...

9.2.10

Homens que Matam Cabras só com o Olhar



















Este filme é, digamo-lo desde já, uma palermice completa sem ponta por onde se lhe pegue (que inspirou, inclusive, o tradutor português na hora de "traduzir" o título).

O argumento, sobre a criação de uma força especial do exército americano constituída por soldados com poderes 'psíquicos', comandados por um hippie, é, aparentemente, baseado em factos reais. E, se um centésimo disto for mesmo verdade, então uma pessoa pasma uma vez mais com as barbaridades em que os americanos estão dispostos a desperdiçar dinheiro quando o tema é a Guerra. Maior desperdício só mesmo o de porem um actor fantástico, como Jeff Brigdges, a fazer, once again, de hippie charrado; e o do tempo do espectador, claro.

George Clooney - grande actor, já agora - ainda carrega o filme às costas durante uma catrefada de tempo, mas às tantas percebemos que aquilo não vai mesmo a lado nenhum e não há Clooney que nos salve. É, aliás, difícil de perceber que raio viu ele neste argumento para o produzir e interpretar (dando a realização ao seu parceiro de 'Boa noite e boa sorte', Grant Heslov), logo ele que até entrou nessa - e essa sim - grande farsa sobre a guerra que era 'Três Reis', do entretanto desaparecido em combate David O. Russell .

The Men Who Stare at Goats, E.U.A./Grã-Bretanha, 2009. Realização: Grant Heslov. Com: George Clooney, Ewan McGregor, Jeff Bridges, Kevin Spacey, Stephen Lang, Robert Patrick.

7.2.10

Tudo Pode Dar Certo





















Depois de 4 filmes na Europa, onde se incluem uma obra-prima (Match Point) e uma quase-obra-prima (Vicky Cristina Barcelona), Woody Allen voltou à sua Nova Iorque e aos seus intelectuais.

A diferença é, que em vez do típico intelectual burguês e bem instalado, interpretado por Woody Allen ou por um seu avatar, aqui temos uma espécie de Big Lebowski niilista dos intelectuais, que se passeia de calções e roupão enquanto destila o seu pessimismo, desprezo e ódio pela humanidade. E - maior interesse do filme - Boris, é esse o seu nome, é interpretado pelo grande Larry David. E, claro, a personagem tem tantas das idiossincrasias de Larry (ou da sua persona), desde logo o aguçadíssimo lado politicamente incorrecto. O que é aqui de Woody (que escreveu o argumento) e o que é de Larry não se distingue muito bem, e este é sem dúvida o lado que agarra o espectador, principalmente o que for fã dos dois.

Porque, de resto, o argumento é daqueles que Woody Allen escreve com uma perna atrás das costas e não prima lá muito pela originalidade (eu já estou um bocado farto das histórias em que o resmungão está no seu canto a dizer mal de tudo o que mexe e a clamar que o deixem em paz, enquanto lhe caem no colo belas mulheres a quererem-no resgatar para a vida - por mais irónico que isto possa ser apresentado).

Evidentemente que nos tempos que correm um Woody a meio gás (ou até a um quarto de gás) não é nada que se possa desprezar mas, como um filme também é feito das expectativas que criamos, este deixou-me um leve mas persistente travo de desilusão.

Whatever Works, E.U.A./França, 2009. Realização: Woody Allen. Com: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Michael McKean, Conleth Hill, Ed Begley Jr..

3.2.10

Anticristo


















Mais uma vez o Rei do Marketing planeou um filme ao milímetro para chocar, para se falar dele. Mas eu, infelizmente, só vi um desfilar de lugares comuns sobre culpa e sexo, sobre a natureza como espaço catártico mas impiedoso, com metáforas tão subtis como uma corça com um feto morto pendurado - e tudo embrulhado em montes de treta pseudo-terapeutica e psicologia de pacotilha a rodos. E cenas de sexo violento à fartura, é claro. E ainda um prólogo de uma foleirice indescritível. Ah, e não esquecer que tem uma fotografia "poética".

Já achei Von Trier pedante ('Europa'), insuportável ('Ondas de Paixão'), ridículo ('Dancer in the Dark') e demagogo ('Dogville'). Desta vez achei-o apenas infinitamente bocejante.

Antichrist, Dinamarca/Alemanha/França/Suécia/Itália/Polónia, 2009. Realização: Lars Von Trier. Com: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg.

1.2.10

Invictus














No ipsilon desta semana, John Carlin, autor do livro 'Playing the Enemy', que inspirou este filme, diz que talvez o facto de Clint Eastwood ter tratado tantas vezes ao longo da sua carreira o tema da vingança, tenha sido precisamente o que o atraiu neste projecto. É uma ideia sedutora: ao contrário de tantas personagens encarnadas por Eastwood, do vingador solitário, Mandela aguentou 27 anos num buraco às mãos dos algozes do Apartheid e saiu de lá focado no perdão e na reconciliação, nunca na vingança - precisamente por não ser um lonely ranger, mas antes um homem que pôs sempre o interesses nacional à frente de tudo. Um herói dos nossos tempos, sem dúvida. Mas, claro, não o tipo de herói que à partida seja bom material para um biopic, a não ser para puxar pela lágrima ou para a hagiografia. Qualquer psicopata sinistro a la Idi Amin é naturalmente mais interessante para um ficcionista.

Eastwood não seria a escolha mais óbvia para filmar esta história sobre Mandela, sobre Francois Pienaar, sobre a nova África do Sul, sobre racismo e reconciliação, mas também John Ford não seria a escolha óbvia para filmar 'As vinhas da ira', e algum do desconforto que por aí vemos em relação a 'Invictus' será do mesmo género do sentido à altura em relação a Ford.

Eastwood não conseguiu contornar todas as dificuldades inerentes ao projecto e, ao contrário de Ford no caso citado, fazer uma obra prima - nem sequer reinventar o biopic, esse género sensaborão por excelência - mas dá-nos um sólido filme humanista, um retrato justo e rigoroso de um homem excepcional, e põe-nos, de passagem, a apreciar um jogo de rugby durante largo tempo (desporto que dirá tão pouco à generalidade dos portugueses como à dos americanos). Dificilmente alguém teria feito melhor.

Invictus, E.U.A., 2010. Realização: Clint Eastwood. Com: Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Julian Lewis Jones, Adjoa Andoh, Patrick Mofokeng, Matt Stern, Leleti Khumalo.