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29.4.05

Não há regra sem excepção...



...por isso vou quebrar aquela que é a regra nº1 deste blog: só falar de cinema! A culpa é do Puto que já sabia que eu não ia resistir ao desafio. Pois bem, cá vai a minha resposta ao questionário que contagiou meia blogosfera:

Não podendo sair do fahrenheit 451, que livro quererias ser?
A pergunta é esquisitíssima, mas como toda a gente tem respondido, vou fingir que também a percebi: uma qualquer antologia de poemas do Juan Luis Panero.

Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção?
Por tantas...

Qual foi o último livro que compraste?
'Os filmes da minha vida/Os meus filmes da vida' de João Bénard da Costa, na feira de livros manuseados da Assirio & Alvim.

Qual o último livro que leste?
Foram dois: 'Norwegian Wood' de Haruki Murakami e 'Notas sobre o cinematógrafo' de Robert Bresson (tenho que pôr um post sobre este!)

Que livros estás a ler?
'Conversas com Wittgenstein' de O.K.Bouwsma.

Que (5) livros levarias para uma ilha deserta?
Levava só 4: os 4 volumes das obras completas de Jorge Luis Borges.

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Passo só a 2 pessoas: à Xispinha e à Pipia. Porque são as únicas bloguistas que eu conheço (e que como nunca lêem este blog nunca vão responder!)

27.4.05

Sangue e ouro



Um critico do Daily Telegraph chamou a este filme o Taxi Driver iraniano. Está bem visto, mas para a imagem ficar completa temos que acrescentar umas pitadas do absurdo de Nova Iorque fora de Horas.
Hussein é um entregador de pizas, sendo o seu destino habitual os bairros ricos de Teerão. Durante estas deslocações, que efectua na sua motorizada noite fora, vai-se deparando com as mais diversas situações, desde ficar retido pela policia que está à espera da saída das participantes numa festa a decorrer no prédio onde ia fazer uma entrega, até ser convidado a partilhar a piza com o filho entediado de milionários emigrados nos EUA. Este contacto com um mundo que nunca alcançará, aliado às humilhações que sofre do dono de uma joalharia de luxo, vão aumentando o sentimento de frustração e revolta deste melancólico e narcotizado ex-combatente da guerra Irão-Iraque, levando-o à revolta. Jafar Panahi filma tudo isto no estilo lento e minucioso de Kiarostami (que assina o argumento), usando principalmente actores não profissionais como o fizeram Robert Bresson ou os neo-realistas, com quem não é descabido estabelecer comparações. Não será o filme mais original do ano, mas é dos mais bem filmados e a sua mistura de thriller, retrato social e fábula tem tudo para se tornar um clássico.

24.4.05

Assalto à 13ª esquadra



Gosto muito de filmes sobre policias, talvez porque seja o 'género' que hoje em dia mais se aproxima dos extintos westerns, dos quais sou um saudosista sem remédio. Esta aproximação filmes de policias/filmes de cowboys faz particularmente sentido em 'Assalto à 13ª esquadra' (o original), em que Carpenter se inspirou declaradamente num subgénero típico dos westerns em que um sheriff corajoso e meia dúzia de ajudantes tinham que defender o forte ou a terreola de um grupo de bandidos ou de índios, e muito particularmente na obra-prima de Hawks, Rio Bravo. Confesso que vi o filme de Carpenter (entretanto convertido num clássico série B) há longos anos e que a minha memória dele é muito difusa. Seja como for, e mesmo tendo sobre si o peso destas comparações, Jean-François Richet, mesmo não sendo um Jean-Pierre Melville, aguenta-se bem. O filme tem defeitos óbvios: não explora até ao limite o espaço claustrófobo da esquadra, insistindo em trazer desnecessariamente as personagens para o exterior, abusa da psicologia barata do policia traumatizado (mas em compensação goza que se farta com a psicóloga de serviço), e nem todos as personagens convencem, com destaque para a de Laurence Fishburne, o bandido imperturbável com voz de Othello. Mas tem também muitas qualidades: confirma o percurso de Ethan Hawke a caminho de se tornar um improvável herói de filmes de acção, consegue manter a tensão e o nosso interesse durante as 2 horas e, numa época de mega efeitos especiais, mantém um saudável ambiente de filme série B, não abusando para além do necessário da pirotecnia. Nada mau.

17.4.05

Head-On/A esposa turca



A omnipresente banda sonora deste filme é uma mistura de canções tradicionais turcas com musicas pop dos anos 80, desde os Depeche Mode aos Sisters of Mercy, reflectindo bem o espírito do filme. 'A esposa turca' começa em Hamburgo e acaba em Istambul, sendo os personagens emigrantes turcos da segunda geração, ou melhor, alemães de origem turca (tal como o realizador, Fatih Akin, e a maioria dos actores). Este balançar entre dois mundos está na génese do filme e contamina-o do princípio ao fim. Aliás pode-se dizer que há vários filmes dentro deste filme, o cómico, o absurdo, o trágico, o erótico. Estes vão-se sucedendo e cruzando à medida que nos vai sendo contada a história de Sibel e Cahit, dois suicidas potenciais que arranjam um casamento de conveniência para a primeira fugir à família conservadora. O filme é longo de mais, desequilibrado, por vezes insólito (ao longo do filme vão aparecendo, como uma espécie de separadores, imagens de uma orquestra nas margens do Bósforo, em Istambul, a interpretar canções melodramáticas turcas), mas tem uma energia e uma vida própria que o afastam definitivamente do género telefilme-sobre-emigrantes-e-choques-culturais, apesar de também ser um bom retrato do mundo fechado e conservador dos emigrantes turcos na Alemanha, tal como 'Ganhar a vida' o era dos emigrantes portugueses em França. É um filme que vale bem os 5 euros, mas não deixa de ser surpreendente que tenha vencido inúmeros prémios, incluindo o Urso de Ouro de Berlin 2004.

10.4.05

Livraria (II)













O título “1001 filmes para ver antes de morrer” diz tudo sobre o objectivo deste livro. Coordenado por Steven Jay Schneider, um crítico norte-americano, conta com textos escritos por quase 60 colaboradores de várias nacionalidades, sendo no entanto a grande maioria norte-americanos. Uma listagem destas é sempre discutível ou até polémica, mas 1001 filmes permitem uma margem suficiente para não deixar de fora (quase) nenhum grande clássico. O livro começa com ‘A viagem à lua’ de Georges Meliès [1902] (e porque não começar com o reconhecidamente primeiro filme -completo e estruturado- da história do cinema, a ‘Chegada de um comboio’ de Louis Lumiére ?) e termina com ‘Kill Bill 1’ de Tarantino [2003].
Os autores tentam atingir um equilíbrio entre filmes que se destacaram pelo seu sucesso comercial, pelo artístico, ou por serem representativos de um género (documentário, animação, etc.) ou movimento (blaxpoitation, por ex.). Assim sendo, não é de admirar que o realizador mais representado (de longe), seja um que conciliou o sucesso comercial com o reconhecimento artístico: Alfred Hitchcock, que tem direito a 18 entradas. O mesmo se pode dizer do segundo mais representado, Howard Hawks (11 entradas), repartindo o terceiro lugar, com 10 filmes cada, dois ‘autores’, Ingmar Bergman (primeiro europeu) e Stanley Kubrick, fechando a escassa lista dos ‘2 dígitos’. Bergman à parte, os realizadores em actividade mais representados são Steven Spielberg e Martin Scorcese, ambos com 9 filmes listados, tantos como John Ford e Luis Bunuel. Não creio que a história venha a ser assim tão generosa com eles, principalmente para com o primeiro…
Falando agora um pouco das nacionalidades representadas, refira-se que não há um único realizador Português seleccionado, o que não será surpresa para ninguém, penso: Manoel de Oliveira, muito bem cotado em certos círculos Europeus, não atingiu ainda assim o reconhecimento internacional de um Kiarostami (4 filmes) ou de um Angelopoulos (2 filmes), por exemplo, enquanto que João César Monteiro é demasiadamente idiossincrático e penso que mesmo desconhecido, para aparecer numa compilação deste género. Naturalmente a cinematografia mais representada é a Americana, seguida da Europeia, com autores como os já citados Bergman e Bunuel, mas também Godard, Fellini, Renoir e até Bresson e Dreyer, representados com entre 8 e 4 filmes. Por contraste, mestres japoneses como Ozu e Mizoguchi não têm direito a mais de 3 filmes, menos por exemplo, do que Paul Verhoeven - e até o cinéfilo mais empedernido poderia morrer descansado sem ter visto nenhum filme deste holandês! Seja como for, o tempo já fez a sua selecção, e não há nenhum grande realizador do passado que, melhor ou pior, não esteja representado. É mais interessante olhar para os realizadores em actividade, aqueles cuja selecção é mais arriscada. É, assim, curioso notar que um realizador que caminha a passos largos para se tornar um clássico, Clint Eastwood, apenas esteja representado por 3 filmes (mesmo se tivermos em conta que o livro é anterior a 'Mystic River' e 'Million Dollar Baby'), contrastando com os já referidos Spielberg, Scorcese ou mesmo Woody Allen (7 filmes). A ‘nova geração’ Americana está bem representada, com Tarantino (3 filmes), P.T.Anderson (2), Wes Anderson (2) e até Spike Jonze e David O.Russel (1 filme cada) – falta Sophia Coppola, mas à data ainda não tinha realizado a sua opus magna; a Europeia nem tanto, mas aqui os consensos são mais difíceis: a geração pos - Von Trier (4 filmes) e Almodôvar (3) está praticamente ausente, não estando presente nenhum filme de François Ozon, por exemplo. Isto aliado ao facto de só termos um Kusturika, reforça a sensação de que a Europa teve menor atenção…Em compensação, há uma atenção especial às emergentes cinematografias orientais, de Taiwan (Ming-liang, Edward Yang, Ang Lee), Japão (Miyazaki, Miike), Hong-Kong (Kar-wai), China (Chen Kaige, Zhang Yimou) ou Coreia do Sul (Sang-jin). Seja como for, a única grande ausência que me saltou à vista foi Nick Park, criador dos excelentes Wallace & Gromit, talvez por se inserir num género muito particular, as curtas-metragens de animação.
Mas passemos aos textos em si, que procuram fazer uma sinopse do argumento e uma análise critica do filme. Naturalmente que com 60 pessoas a escreve-los, os resultados são algo desiguais, embora resultem num todo razoavelmente homogéneo. Não se podendo atingir grande profundidade com 200 ou mesmo 500 palavras, as análises são de um modo geral leves mas interessantes, embora se abuse um pouco de expressões do género ‘um filme muito imitado, mas nunca ultrapassado’ ou ‘o melhor filme de sempre passado num talho’. Outra critica que se poderá apontar é o facto de por vezes o autor do texto não se mostrar particularmente entusiasmado com o filme que está a analisar, o que poderá levar o leitor a perguntar porque raio foi então seleccionado!
Concluindo, e apesar destes pequenos reparos, pode-se dizer que é um livro francamente aconselhável, dada a boa representatividade quer dos filmes mais importantes da história do cinema (não obstante cada leitor certamente lamentar a ausência de um ou mais dos seus filmes favoritos (*)), quer das tendências do cinema actual, bem como pelo interesse que a grande maioria dos textos desperta, mesmo sobre filmes que à partida não nos motivariam muito. São novecentas e tal páginas que se devoram a eito, e isso não é elogio de somenos!

(*) E este é um exercício que os cinéfilos não deixarão de fazer. Eu pessoalmente lamento(entre muitas outras) as ausências de 'Irmãos Inseparáveis' (Cronenberg), 'Lilith' (Robert Rossen) ou, já agora…'Duelo ao Sol'!

6.4.05

Saul Bellow



Morreu ontem, com quase 90 anos, aquele que era o meu escritor vivo preferido, Saul Bellow. Infelizmente só um livro seu foi adaptado ao cinema, Size the day (Agarra o dia), filme em que o próprio entra, mas que que nunca tive oportunidade de ver. Teve outras participações esporádicas em filmes, incluindo uma aparição como ele próprio em Zelig, de Woody Allen.

The Mother



A Mãe resulta de uma estranha associação – a do escritor Hanif Kureishi (A Minha Bela Lavandaria, Intimidade) ao realizador Roger Michell (Notting Hill, Manobra Perigosa).

Dentro da corrente do realismo Britânico, A Mãe não retrata as habituais dificuldades da classe operária mas centra-se numa família “típica” de classe média.

O filme parte de um acontecimento banal. May e Toots são um casal de idosos que se desloca a Londres para visitar os seus filhos Bobby e Paula. Toots falece e May recusa-se voltar para casa e tornar-se em mais uma idosa invisível. Os filhos têm uma fraca ligação afectiva com May, ela também não esconde que nunca quis o papel de dona de casa e de mãe que lhe foi imposto. Paula culpa a mãe pela falta de auto estima e indirectamente pela confusão da sua vida. May culpa o casamento e os filhos por uma existência fantasma. Pequenas disfunções normais portanto.

O que A Mãe traz de novo são as questões da sexualidade e do desejo por um corpo mais jovem, de uma senhora que podia ser nossa avó. Um assunto praticamente ignorado pelo cinema e por quase todos nós. Mesmo considerando que o realizador exagera na crueza de algumas cenas e que existem alguns assuntos familiares em que a ignorância é uma bênção por questões de higiene mental, A Mãe é um filme a não perder.

4.4.05

On dangerous ground/Cega paixão



Embora Nicholas Ray seja frequentemente citado como um dos maiores realizadores da história do cinema, os seus filmes são hoje pouco conhecidos. Tirando 'Rebelde sem causa' (por causa de James Dean) e 'Johnny Guitar' (mais citado que visto), quem é capaz de se lembrar de mais algum filme dele? A recente colecção de clássicos do Público pode ter contribuido um pouco para alterar este estado de coisas, ao lançar dois filmes do realizador, o excelente 'They live by night/Os filhos da noite' (1949) e este 'On dangerous ground' (1952).
Este filme é uma curiosa variação do film noir, uma vez que está de todo em todo ausente um dos elementos chave deste género: a femme fatale. Neste caso, o protagonista (um duro e cínico policia da cidade) não encontra a sua perdição ao apaixonar-se (por uma mulher cega do campo), mas sim a sua salvação. O filme é assim, também (ou principalmente) um melodrama, reforçado pelo evidente overacting dos dois actores principais (Ward Bond e Ilda Lupino) e pelo simbolismo das paisagens: depois da primeira parte passada na cidade, suja e escura, na segunda parte temos presente a alvura do campo, sempre coberto de neve, onde se dá o encontro redentor dos dois protagonistas.

3.4.05

The Life Aquatic with Steve Zissou



'The Life Aquatic with Steve Zissou' (passemos à frente o péssimo título português 'Um peixe fora de água') é o quarto filme de Wes Anderson, depois de 'Bottle Rocket' (1996) - que Scorcese recentemente disse ser um dos seus 10 filmes favoritos dos anos 90, 'Rushmore' (1998) e 'The Royal Tenenbaums' (2201). Pela primeira vez Owen Wilson não é co-autor do argumento com Wes Anderson (é-o Noah Baumbach), mas participa novamente como actor. Bill Murray participa pela terceira vez consecutiva (embora seja a primeira vez que é o actor principal) e Angélica Huston pela segunda vez. Além destes habitués, que já fazem parte da família, temos também Cate Blanchett, Willem Dafoe e Jeff Goldblum, reunindo-se assim um elenco impressionante.
Anderson baseia-se em Costeau (num misto de homenagem com paródia) para tratar o mesmo tema de sempre: a família. Tal como no anterior filme do realizador, temos uma família disfuncional (a tripulação do barco- o Team Zissou), que tem à cabeça um pai egocêntrico e desleixado, mas que quando as coisas começam a ir por água abaixo só pensa em salvar a sua família.
Se em 'The Royal Tenenbaums' Anderson tinha encontrado o equilíbrio certo entre a sua vontade de contar uma história e o lado retro e kitch que são a sua imagem de marca, neste filme o último aspecto ganha autonomia e o filme passa claramente para o outro lado do espelho, para um mundo muito próprio que existe na cabeça do realizador. Começando nas sapatilhas Adidas Zissou que o próprio calça (uma obsessão, depois dos fatos de treino Adidas vermelhos de Ben Stiller e dos filhos…), continuando numa personagem chamada Pelé dos Santos (interpretada pelo musico brasileiro Seu Jorge), um tripulante do Team Zissou que passa o filme a interpretar versões de David Bowie em português, o filme está cheio de pormenores bizarros, que incluem a própria maneira de filmar, parecendo que as cenas foram amputadas em 10 segundos na mesa de montagem, dando por vezes um aspecto desconcertante à narrativa, que parece que avança aos saltos e não continuamente.
'The Life Aquatic with Steve Zissou' não é uma obra-prima como 'The Royal Tenenbaums', mas é certamente o filme mais idiossincrático do ano e confirma Wes Anderson como um dos realizadores mais interessantes da actualidade.

1.4.05

Être et avoir



Não sou a pessoa mais indicada para escrever acerca deste filme/documentário.
Só tenho 3 recordações da minha escola primária, e são todas penosas:
- Apanhar uma reguada no primeiro dia de aulas por ter denunciado uma colega que estava a comer cerejas.
- Marcar um auto golo na única vez em que fui escolhido para a equipa de futebol.
- Levar na cabeça com a vara que o meu professor usava, quando o meu colega da frente se baixou, para não apanhar o correctivo que lhe era destinado.

Ser e Ter ganhou o Prémio Louis Delluc 2002 (para o melhor filme francês do ano), e foi um enorme sucesso de bilheteira. É um documentário em roda livre sobre a vivência dos alunos e do professor de uma pequena escola primária numa zona rural. Um aspecto que o diferencia é o de não querer defender um qualquer ponto de vista, mas o de mostrar as pequenas dificuldades, as angústias, os progressos, o processo de construção da personalidade, e principalmente a intimidade e a relação de respeito e confiança que se estabelece entre alunos e professor.
A câmara actua de forma quase invisível, a montagem é muito simples, limitando-se a sequenciar as cenas sem qualquer preocupação de ritmo ou de explorar emoções, e o tom de documentário só se nota numa pequena entrevista ao professor.
Esse efeito de “desformatar” as expectativas de quem vê cinema é a meu ver o seu maior mérito.