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29.5.08
28.5.08
Westerns à Italiana
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Unknown
Este mês andei a ver Westerns Spaghetti, garantidamente um dos géneros mais menosprezados da história do cinema – além do mestre fundador Sergio Leone, quem conhece outro realizador do género? Mesmo em guias tipo o Rough Guide to Film, e outros, aparecem realizadores de géneros tão exóticos como os filmes de zombies eróticos (um Jean Rollin, por exem
plo), mas jamais encontrei realizadores de westerns spaghetti, exceptuando Leone, cuja influência em muito extravasou o género (aliás a própria designação spaghetti é depreciativa; inicialmente houve quem os baptizasse de Horse Opera, mas não pegou!).
Mas há vida para além de Leone! Desde logo há o ‘outro Sergio’, Sergio Corbucci, que realizou os icónicos ‘O grande silêncio’ (que tem um dos finais mais tenebrosos para os "bons" que conheço) e ‘Django’ (onde Tarantino foi buscar a famosa cena da orelha cortada de ‘Cães danados’ e de que Takeshi Miike fez uma espécie de prequela japonesa!). Estes dois filmes, em traços largos, são descendentes directos de Leone e dos seus ‘heróis’ lacónicos e misteriosos. Mas houve variações.
Há mesmo quem considere que a decadência do género começou com os westerns ‘políticos’, passados durante a revolução Mexicana, mas eu confesso que dois dos meus exemplares preferidos se encaixam nesta categoria: ‘Companheiros' (com Franco Nero), de Corbucci e, acima de todos, uma pérola que cá se chamou ‘Mercenário’ (originalmente ‘El Chuncho, quien sabe?’ ou ‘A Bullet for the General’ – estes filmes, geralmente com castings internacionais, onde um Franco Nero coabitava com um Henry Fonda ou um Klaus Kinski, eram geralmente dobrados quer em inglês quer em italiano), de Damiano Damiani, com uma interpretação portentosa de Gian Maria Volonté.
“- São revolucionários ou bandidos?
– Há alguma diferença?
– Nenhuma”,
é um diálogo deste filme, entre um soldado mexicano e o impassível assassino americano El Nino (Lou Castel), que resume exemplarmente o cinismo destes ‘Westerns Zapata’, em que bandos de revolucionários/salteadores espalham o terror pela paisagem Mexicana (na realidade na paisagem espanhola de Almeria, onde a maior parte dos ‘spaghetti’ eram filmados – e aqui a paisagem e a banda sonora, principalmente quando do mestre Morricone, são tão importantes como as personagens ou o argumento - pelo que também não seria inapropriado chamar-lhes ‘westerns tortilla’, ou algo no género).
Na opinião de Leone, no entanto, o declínio veio com os westerns com veia cómica, noto
riamente os protagonizados por Terence Hill (que na realidade se chamava Mario Girotti), o famoso Trinitá, e o ex-nadador olímpico Bud Spencer (Carlo Pedersoli), que eu me lembro de ver na minha adolescência e a que ainda não tive coragem de voltar. No intervalo de 10 anos a que se submeteu antes de conseguir filmar ‘Era uma vez na América’, Leone produziu (e realizou três cenas cruciais, embora nos créditos da realização apenas apareça Tonino Valerii) um filme em que reflectia sobre este subgénero: ‘O meu nome é ninguém’, em que Terence Hill, nem mais nem menos, se assume como 'assassino'/herdeiro do veterano Henry Fonda, representando este o fim de uma época. É ainda assim um filme bastante divertido, que pode ser visto como o enterro de um género que entre 1960 e 1975 nos deu quase 600 filmes.
Nota: Aqui pode-se ler uma boa introdução ao género.
O mercenário, Damiano Damiani, 1966 (8,5)
Django, Sergio Corbucci, 1966 (8)
O grande silêncio, Sergio Corbucci, 1968 (8)
Companheiros, Sergio Corbucci, 1970 (8)
O meu nome é ninguém, Tonino Valerii, 1973 (7,5)
plo), mas jamais encontrei realizadores de westerns spaghetti, exceptuando Leone, cuja influência em muito extravasou o género (aliás a própria designação spaghetti é depreciativa; inicialmente houve quem os baptizasse de Horse Opera, mas não pegou!).Mas há vida para além de Leone! Desde logo há o ‘outro Sergio’, Sergio Corbucci, que realizou os icónicos ‘O grande silêncio’ (que tem um dos finais mais tenebrosos para os "bons" que conheço) e ‘Django’ (onde Tarantino foi buscar a famosa cena da orelha cortada de ‘Cães danados’ e de que Takeshi Miike fez uma espécie de prequela japonesa!). Estes dois filmes, em traços largos, são descendentes directos de Leone e dos seus ‘heróis’ lacónicos e misteriosos. Mas houve variações.
Há mesmo quem considere que a decadência do género começou com os westerns ‘políticos’, passados durante a revolução Mexicana, mas eu confesso que dois dos meus exemplares preferidos se encaixam nesta categoria: ‘Companheiros' (com Franco Nero), de Corbucci e, acima de todos, uma pérola que cá se chamou ‘Mercenário’ (originalmente ‘El Chuncho, quien sabe?’ ou ‘A Bullet for the General’ – estes filmes, geralmente com castings internacionais, onde um Franco Nero coabitava com um Henry Fonda ou um Klaus Kinski, eram geralmente dobrados quer em inglês quer em italiano), de Damiano Damiani, com uma interpretação portentosa de Gian Maria Volonté.“- São revolucionários ou bandidos?
– Há alguma diferença?
– Nenhuma”,
é um diálogo deste filme, entre um soldado mexicano e o impassível assassino americano El Nino (Lou Castel), que resume exemplarmente o cinismo destes ‘Westerns Zapata’, em que bandos de revolucionários/salteadores espalham o terror pela paisagem Mexicana (na realidade na paisagem espanhola de Almeria, onde a maior parte dos ‘spaghetti’ eram filmados – e aqui a paisagem e a banda sonora, principalmente quando do mestre Morricone, são tão importantes como as personagens ou o argumento - pelo que também não seria inapropriado chamar-lhes ‘westerns tortilla’, ou algo no género).
Na opinião de Leone, no entanto, o declínio veio com os westerns com veia cómica, noto
riamente os protagonizados por Terence Hill (que na realidade se chamava Mario Girotti), o famoso Trinitá, e o ex-nadador olímpico Bud Spencer (Carlo Pedersoli), que eu me lembro de ver na minha adolescência e a que ainda não tive coragem de voltar. No intervalo de 10 anos a que se submeteu antes de conseguir filmar ‘Era uma vez na América’, Leone produziu (e realizou três cenas cruciais, embora nos créditos da realização apenas apareça Tonino Valerii) um filme em que reflectia sobre este subgénero: ‘O meu nome é ninguém’, em que Terence Hill, nem mais nem menos, se assume como 'assassino'/herdeiro do veterano Henry Fonda, representando este o fim de uma época. É ainda assim um filme bastante divertido, que pode ser visto como o enterro de um género que entre 1960 e 1975 nos deu quase 600 filmes.Nota: Aqui pode-se ler uma boa introdução ao género.
O mercenário, Damiano Damiani, 1966 (8,5)
Django, Sergio Corbucci, 1966 (8)
O grande silêncio, Sergio Corbucci, 1968 (8)
Companheiros, Sergio Corbucci, 1970 (8)
O meu nome é ninguém, Tonino Valerii, 1973 (7,5)
Sydney Pollack (01/07/1934-26/05/2008)
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Para mim, era acima de tudo o actor de 'Maridos e mulheres' e de 'Eyes Wide Shut'. O que não é pouco.
26.5.08
Diário dos mortos
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Um grupo de estudantes universitários está a rodar um filme, trabalho de curso, quando ouve a notícia de que os mortos estão a ressuscitar e a atacar os vivos (*). Resolvem então dirigir-se, numa caravana, para a casa dos pais duma das raparigas, que quer ver se eles estão bem.
O estudante-realizador, namorado desta, nunca larga a câmara, e vai filmando a carnificina que se segue: 'é preciso documentar o que se está a passar', diz; 'a televisão só diz mentiras, temos que ser nós a contar a verdade sem filtros'; 'é nossa obrigação registar, temos uma câmara, temos internet, temos todos os meios', etc., etc.; a namorada vai dando umas achegas, entre o zangada e o fascinada, 'filma isto, se não filmares é como se não tivesse acontecido, certo?', etc., etc.
Não sei o que é mais irritante neste filme: se aderir à mania agora em voga de filmar com câmara à mão em registo de falso documentário ('Censurado' e 'REC', recentemente), se o facto de as personagens nos estarem a gritar de cinco em cinco minutos a 'MENSAGEM', sobre a actual sociedade de informação, a sociedade do youtube, dos blogues, dos milhões de câmaras, do excesso de informação, em suma.
Eu às tantas ainda pensei que Romero estivesse a ser irónico, que pretendesse ridicularizar um pouco o seu personagem, que se sente poderoso pelo facto de ter uma câmara e poder pôr a sua 'verdade' na internet: '78.000 visitas em 10 minutos', repete fascinado. Mas não há qualquer sinal de ironia: pelo contrário, Romero parece estar tão obcecado como as suas personagens em gritar-nos a sua opinião sobre o estado das coisas, sobre o cinema, sobre a televisão, sobre tudo.
Mas há infinitamente mais 'crítica social' no morbidamente estupendo plano final de 'A noite dos mortos-vivos', que na 1h30 de discursos deste 'Diário dos mortos'. É uma pena que o mestre do género não o tenha percebido.
(*) Porque é que as personagens dos filmes de zombies nunca viram um filme de zombies!? Nunca identificam o fenómeno quando ele aparece...
Diary of the Dead, E.U.A., 2007. Realização: George A. Romero. Com: Michelle Morgan, Josh Close, Shawn Roberts, Amy Lalonde, Joe Dinicol, Scott Wentworth, Philip Riccio, Chris Violette, Tatiana Maslany.
25.5.08
Cannes 2008
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'Entre les Murs', de Laurent Cantet, autor do excelente O emprego do tempo, foi o filme galardoado com a Palma de Ouro na 61ª edição do Festival de Cannes. Há 17 anos que a palma não ficava em casa.
Destaque ainda para o prémio de realização, entregue a Nuri Bilge Ceylan por 'Three Monkeys'.
Palmarés completo aqui.
Destaque ainda para o prémio de realização, entregue a Nuri Bilge Ceylan por 'Three Monkeys'.
Palmarés completo aqui.
23.5.08
Triângulo
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'Triângulo', que ganhou o prémio de melhor filme da secção 'Orient Express' no último Fantasporto, junta três dos mais conceituados e populares realizadores de Hong Kong (e só lá os dois adjectivos costumam andar juntos): Tsui Hark, Ringo Lam e Johnnie To. Mas não se trata de um vulgar filme de sketchs; pelo contrário, o método de rodagem foi invulgar: Tsui Hark realizou meia hora do filme, depois veio Ringo Lam com o seu argumentista, viu o que já estava feito e realizou mais meia hora e finalmente Johnnie To e respectivo argumentista fecharam a tasca.
Um espectador incauto até poderá nem notar as passagens de testemunho (não há qualquer sinal delas no filme), mas um olho mais treinado não as deixa passar: Tsui Hark distingue-se pela montagem difusa e imaginativa mas algo confusa; o filme normaliza-se um pouco quando chega Ringo Lam, que se centra mais num só episódio e organiza as coisas; e depois Johnnie To dá o seu toque mais estilizado e etéreo, e baralha tudo outra vez.
No final o resultado é algo indistinto e indiferente, pois nem o argumento nos prende, nem o filme tem um estilo próprio que nos seduza, deixando mesmo alguma sensação de confusão no espectador. Eu pessoalmente, estive sempre um pouco à espera de algo que nunca aconteceu (To é um favorito da critica, mas o seu fecho do filme não me convenceu: aparvalha um pouco a história e depois brinda-nos com uma coreografia final muito ao (seu) estilo western spaghetti que não acrescenta nada).
Resumindo: por vezes o total é inferior à soma das partes.
Tie saam gok/Triangle, Hong-Kong/China, 2007. Realização: Hark Tsui, Ringo Lam e Johnnie To. Com: Louis Koo, Simon Yam, Honglei Sun, Ka Tung Lam, Kelly Lin.
22.5.08
Goodnight Irene
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'Goodnight Irene' é um objecto estranho, desde logo devido a ser um filme 'bilingue': todas as personagens vão alternando o português e o inglês (sendo que as falas nesta língua são legendadas).
Alex, um solitário velho actor inglês, doente e mal-humorado, agora confinado a dar voz a audioguias turisticos, é abalado pela chegada de uma nova vizinha que o traz de volta para a vida, o leva a sair, a confraternizar. Até que um dia ela desaparece.
Esta é a primeira parte do filme, marcada pela forte presença dos seus actores, Robert Pugh, cuja voz poderosa pontua o filme, e Rita Loureiro, luminosa e algo misteriosa.
Além de se passar quase sempre em interiores, em casas velhas muito bem filmadas, a fotografia sépia de Miguel Sales Lopes dá-lhe um tom irreal e afasta-o completamente de qualquer cliché sobre a luminosidade de Lisboa, onde a acção decorre.
Depois vem a segunda parte. Após o desaparecimento de Irene, aparece uma nova pessoa na vida de Alex: Bruno, jovem serralheiro que também a busca, e que entra nas casas das pessoas para lhes furtar memórias, recordações. Aqui o filme fraqueja: talvez devido ao excessivo simbolismo desta personagem (que procura nas casas dos outros e em Alex as recordações de infância e o pai que não teve), talvez devido à presença de Nuno Lopes ser menos impressiva, talvez por se arrastar demasiadamente.
Esta é a primeira parte do filme, marcada pela forte presença dos seus actores, Robert Pugh, cuja voz poderosa pontua o filme, e Rita Loureiro, luminosa e algo misteriosa.
Além de se passar quase sempre em interiores, em casas velhas muito bem filmadas, a fotografia sépia de Miguel Sales Lopes dá-lhe um tom irreal e afasta-o completamente de qualquer cliché sobre a luminosidade de Lisboa, onde a acção decorre.
Depois vem a segunda parte. Após o desaparecimento de Irene, aparece uma nova pessoa na vida de Alex: Bruno, jovem serralheiro que também a busca, e que entra nas casas das pessoas para lhes furtar memórias, recordações. Aqui o filme fraqueja: talvez devido ao excessivo simbolismo desta personagem (que procura nas casas dos outros e em Alex as recordações de infância e o pai que não teve), talvez devido à presença de Nuno Lopes ser menos impressiva, talvez por se arrastar demasiadamente.
Há ainda uma espécie de epílogo, uma viagem a Espanha algo insólita e com episódios até bizarros. E às tantas ouvimos mesmo as vozes das personagens mas elas já não mexem os lábios: é como se o tal ambiente onírico, irreal, subconsciente, que esteve sempre entranhado ao longo do filme, viesse de vez à tona e tudo se passasse ao nível da imaginação de cada um.
O filme encerra com uma 'voz do além' explicativa que era desnecessária, e no final fica alguma sensação de desconcerto e até de frustração. Mas não há que negar a originalidade da proposta e o olhar de cineasta que Paolo Marinou-Blanco (um português que já andou por todo o mundo) indubitavelmente demonstra nesta sua primeira longa-metragem, em que também assina o argumento.
Goodnight Irene, Portugal, 2008. Realização: Paolo Marinou-Blanco. Com: Robert Pugh, Nuno Lopes, Rita Loureiro.
21.5.08
Café Bagdad
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Depois da ausência forçada de há duas semanas, amanhã, 5ª feira, entre as 15h e as 16h, o Café Bagdad está de volta.
Pedro P.Costa modera, e a Marta Catarino, a Patrícia Jerónimo e eu próprio vamos divagando. Esta semana eu defendo 'My Blueberry Nights', que não foi consensual, e todos elogiamos 'Paris, Texas', Wenders vintage de 1984.
Como sempre, na Rádio Clube do Minho (Braga, 92.9).
19.5.08
Tudo o que perdemos
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'Tudo o que perdemos’ é um filme adulto e sólido, que trata com sobriedade dois temas difíceis: a perda de um ente querido (marido/pai/amigo) e a recuperação da toxicodependência.
Como quem não quer a coisa, seguindo aptamemente um argumento tranquilo e praticamente sem ‘peripécias’, Susanne Bier vai levando a água ao seu moinho, apoiando-se nos seus excelentes actores, com destaque para Benicio Del Toro, que se safa bastante bem num papel propenso ao overacting.
Não sendo uma obra particularmente inovadora nem imprescindível, merece ainda assim uma olhadela, neste tempo de filmes infantilizados.
Como quem não quer a coisa, seguindo aptamemente um argumento tranquilo e praticamente sem ‘peripécias’, Susanne Bier vai levando a água ao seu moinho, apoiando-se nos seus excelentes actores, com destaque para Benicio Del Toro, que se safa bastante bem num papel propenso ao overacting.
Não sendo uma obra particularmente inovadora nem imprescindível, merece ainda assim uma olhadela, neste tempo de filmes infantilizados.
Things We Lost in the Fire, E.U.A./Grã-Bretanha, 2007. Realização: Susanne Bier. Com: Halle Berry, Benicio del Toro, David Duchovny, Alison Lohman, Omar Benson Miller, John Carroll Lynch.
17.5.08
Angel
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Este é um daqueles filmes em que eu nunca passaria num Pepsi Challenge. Numa prova cega, nem em cinquenta tentativas eu daria o palpite que este 'Angel' é obra do mesmo realizador de 'Sob a areia', 'Swimming Pool' ou '5x2'.
Nem consigo imaginar o que atraiu Ozon neste drama de época, acerca da ascensão e queda de uma irritante e megalómana rapariga das classes baixas que se torna uma escritora cor-de-rosa de sucesso.
Ozon, grande cineasta que nos seus anteriores trabalhos se distinguiu por combinar na perfeição um lado cerebral e analítico com um toque emocional subtil, não passa aqui de um decorativismo formal oco e que não leva a parte nenhuma, jamais nos conseguindo interessar quer pela sua patética personagem principal (interpretada pela desconhecida Romola Garai), quer pelos que a rodeiam. Dá-nos uma mão cheia de planos vistosos, uns tantos enquadramentos perfeitos e emula com gosto trajes e costumes da época, mas o resultado é francamente insípido e indiferente.
Grande desilusão.
Angel, Bélgica/Grã-Bretanha/França, 2007. Realização: François Ozon. Com: Romola Garai, Lucy Russell, Michael Fassbender, Sam Neill, Charlotte Rampling.
13.5.08
No vale de Elah
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Só agora vi este filme de Paul Haggis e concordo com a opinião generalizada: é bastante bom e bastava a portentosa interpretação de Tommy Lee Jones, toda em underacting, para valer a pena.
Filme seco e directo, como a sua personagem principal, mostra-nos o que a guerra faz aos miúdos que são para lá enviados como ‘soldados de elite’: potencia o pior que há neles, abala as balizas morais e éticas que eles tinham, torna-os piores pessoas. Isto sem retórica e sem os demonizar nem os desculpabilizar, equilíbrio difícil que é alcançado. Parecem-nos rapazes normais e até simpáticos, mas que nas situações extremas a que são expostos e para as quais não têm estofo nem preparação, como que escapam através da violência, do sadismo, do desprezo pelo ser humano que está do outro lado. Neste aspecto aproxima-se de ‘Censurado’, o retrato que De Palma nos deu o ano passado dos soldados no Iraque. Mas enquanto De Palma ‘ia’ para o Iraque, Haggis mostra-nos as marcas que ficam no após: filma os soldados na America, depois de terem regressado do Inferno. Claro que já não são as mesmas pessoas que eram antes, como Tommy Lee Jones dolorosamente descobre no retrato irreconhecivel do seu filho desaparecido, que vai construindo ao longo do filme.
Pelo meio, claro, fica um retrato negro da nação Americana em guerra, uma guerra que parece fazer cada vez menos sentido para cada vez mais gente.
Na tradição Hollywoodiana dos grandes filmes sobre o Vietname, começam a surgir agora os bons filmes sobre o Iraque.
In the Valley of Elah, E.U.A., 2007. Realização: Paul Haggis. Com: Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Susan Sarandon, Jason Patric, James Franco, Josh Brolin.
12.5.08
My Blueberry Nights — O Sabor do amor
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Wong Kar Wai faz uma vez mais aquilo que tão bem faz: pega em bocados de vidas, agarra numa canção (a magnifica ‘The Greatest’ de Cat Power) e filma tudo com aquelas cores e aquela câmara vagarosa que são sua imagem de marca. Desta vez o território geográfico são os Estados Unidos, um nada inocente trajecto Nova Iorque – Memphis – Las Vegas – Nova Iorque, mas o verdadeiro território onde o filme se passa é no universo de Wong Kar Wai, um universo de um romanismo exacerbado, de solidão e alguma alienação.
Desta vez não temos Maggie Cheung nem Tony Leung, mas temos um extraordinário elenco. Veja-se como os actores (os magnificos David Strathairn e Rachel Weisz) suportam o excessivo e carregado episódio de Memphis, em que um polícia alcoólico se recusa a aceitar que a mulher o deixou; e como na unica altura em que o filme parece perder um pouco o gás, no episódio de Las Vegas, da jogadora solitária, Natalie Portman o puxa de volta para cima. E como Norah Jones se dá tão bem com a camara.
E que dizer daquele final?
Pode-se argumentar que Kar-Wai anda a fazer mais do mesmo pelo menos desde 'Chungking Express', mas quando o ‘mais’ e o ‘mesmo’ são desta qualidade, quem se poderá queixar? A generalidade da crítica parece que já se cansou dele. Eu, pelo contrário, achei este filme a coisa mais próxima de uma obra-prima que vi estrear no grande écran nos últimos dois anos.
My Blueberry Nights, China/França/Hong-Kong, 2008. Realização: Wong Kar Wai. Com: Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz, Natalie Portman, Chan Marshall.
Pode-se argumentar que Kar-Wai anda a fazer mais do mesmo pelo menos desde 'Chungking Express', mas quando o ‘mais’ e o ‘mesmo’ são desta qualidade, quem se poderá queixar? A generalidade da crítica parece que já se cansou dele. Eu, pelo contrário, achei este filme a coisa mais próxima de uma obra-prima que vi estrear no grande écran nos últimos dois anos.
My Blueberry Nights, China/França/Hong-Kong, 2008. Realização: Wong Kar Wai. Com: Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz, Natalie Portman, Chan Marshall.
10.5.08
Jean Seberg - 1/3
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Unknown
Pela primeira vez em largos meses liguei a TV sem ser para servir de apêndice do leitor de dvd ou do PC. Objectivo: ver um documentário no canal 2 sobre Jean Seberg, actriz que há muito me fascina. O documentário era vulgar, mas a vida de Jean Seberg não o foi certamente.
Nasceu a 13 de Novembro de 1938 em Marshalltown, uma terriola no Iowa, na América profunda e WASP, berço de John Wayne e Ronald Reagan. Nunca foi uma All American Girl: aos 14 anos, em pleno feudo conservador, inscreveu-se numa associação que defendia as minorias e, pior, segundo confidenciou um antigo colega de escola, lia livros. Não admira que só lhe passasse pela cabeça fugir dali. O meio mais fácil? Ser actriz.
Era com o que sonhava na adolescência e o sonho tornou-se realidade duma forma incrível, parecendo a verdadeira encarnação do sonho americano: com apenas 18 anos, sendo uma completa desconhecida da província, foi escolhida por Otto Preminger entre 18.000 candidatas para ser Joana D’Arc em ‘Saint Joan’, filme baseado na peça de George Bernard Shaw. Esta escolha espantosa focou logo todos os holofotes sobre ela, mas para seu grande desgosto o filme foi um fracasso, e ao que consta ficou aterrorizada com o autoritarismo do realizador. Por obrigações contratuais, no entanto, rodou novo filme com Preminger, ‘Bonjour tristesse’, baseado na novela de Françoise Sagan: o filme foi outro fracasso e Seberg foi arrasada pela crítica.
2/3; 3/3
2/3; 3/3
Jean Seberg - 2/3
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Casou-se então pela primeira vez e foi viver para França. E acontece que nem todos os críticos da altura eram cegos, e houve um que a defendeu sempre: chamava-se François Truffaut e por essa altura, 1959, estava a escrever com o seu amigo Jean-Luc Godard o argumento do primeiro filme deste: ‘O acossado’. Seberg foi convocada para contracenar com Jean-Paul Belmondo e o resultado foi mais que uma ressurreição: foi a entrada directa para o panteão cinematográfico. A sua figura belíssima e arrapazada tornou-se icónica e Seberg um símbolo da Nouvelle Vague.
Infelizmente, a seguir não soube ou não conseguiu fugir do estereótipo, e os franceses só lhe deram papéis em filmes menores que exploravam a marca que Godard criara. Até que em 1964, Robert Rossen (que morreria pouco depois), a chamou a Hollywood para contracenar com Warren Beatty num dos filmes maiores da história do cinema: ‘Lilith e o seu destino’, onde tem uma interpretação espantosa no papel da esquizofrénica Lilith, e que Seberg confessaria ser o seu filme preferido de todos os que fez, porventura por tanto se identificar com a sua personagem. Nunca mais teria um papel nem um realizador à sua altura.
3/3
3/3
Jean Seberg - 3/3
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Entretanto em 1962 casara-se com o escritor e vencedor do Prémio Goncour, Romand Gary. Divorciar-se-iam em 1970, depois de uma relação tempestuosa, mas ficariam amigos para a vida. Se a irregularidade profissional e uma vida de apátrida entre a França e os Estados Unidos nunca a fizeram totalmente feliz, a sua vida pessoal começou a ficar cada vez mais complicada devido às suas actividades políticas que nunca abandonara. O seu envolvimento com o movimento negro radical Black Panther pô-la definitivamente na lista negra (passe a ironia) do FBI e tornou-se um alvo pessoal do sinistro Edgar G.Hoover. Tanto ou mais do que o apoio, inclusivamente financeiro, que ela dava ao movimento, o que mais chocava o hiper-conservador e sectário director do FBI era o facto de uma branca, actriz e estrela internacional ainda por cima, ‘andar metida’ com pretos. Quando Seberg ficou grávida em 1970, o FBI inventou o boato, rapidamente propagado pela imprensa, de que o pai da criança seria Raymond Hewt, um líder dos Black Panther. Por esta altura já Seberg andava paranóica – e com razão, pois era controlada ao segundo pelo FBI – e o facto de tomar overdoses de comprimidos para dormir durante a gravidez terá contribuído para que dois dias após o nascimento, a sua filha (branca, como ela mostrou numa conferência de imprensa...) tenha falecido.
Em 1972 casou-se com o realizador Dennis Berry (que após a sua morte se casaria com... Anna Karina!) e, para desgosto de muitos dos seus próximos, juntar-se-ia depois com o playboy argelino Ahmed Hasni, que rapidamente trataria de vender o apartamento de 11 milhões de francos de Seberg para abrir um restaurante em Espanha. O projecto gorou-se quando Seberg fugiu de volta para Paris, dizendo temer o amante.
Voltar-se-iam a juntar, no entanto, e foi ele quem deu participação do desaparecimento de Jean Seberg à polícia francesa no dia 28 de Agosto de 1979, sendo o seu corpo encontrado apenas 11 dias depois no interior do seu carro, num subúrbio parisiense, com um frasco de barbitúricos na mão e quase 8 gramas de taxa de álcool no sangue. O veredicto foi suicídio, mas até hoje nunca foi cabalmente esclarecida a sua morte. Numa conferência de imprensa Romain Gary denunciou a obsessiva perseguição que o FBI lhe fizera e houve quem fosse mais longe a associar o Bureau ao seu suposto suicídio, mas nunca nada foi provado. De igual modo Romain Gary e Dennis Berry chegaram a apresentar queixa contra Ahmed Hasni, e acabou mesmo por se constatar que este lhe tinha roubado dinheiro e valores, mas nunca se provou o seu envolvimento na morte da actriz.
Jean Seberg tinha 40 anos e os seus últimos filmes mostram uma mulher prematuramente envelhecida. Foi sepultada no Cemitério de Montparnasse, numa cerimónia que contou com a presença de Gary (que se suicidaria um ano mais tarde), Berry e personalidades como Sartre e Beauvoir, mas sem um único membro da sua família do Iwoa que nunca soubera lidar com a filha rebelde.
'Ela queria mudar o mundo sozinha', diz um velho parente no final do documentário. E uma conterrânea de Marshalltown acrescenta: 'Seberg fugiu de uma vida onde não poderia ser feliz, para uma vida onde dificilmente o poderia ser'.
8.5.08
Café Bagdad
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Devido à ausência no estrangeiro de um elemento do habitual trio de divagadores, hoje não há Café Bagdad. Estamos de volta daqui a 2 semanas, como sempre às 15h.
PS: Devido a problemas técnicos não foi possível colocar a última emissão no blogue da Rádio Clube do Minho. A ver se na próxima emissão tudo volta à normalidade.
PS: Devido a problemas técnicos não foi possível colocar a última emissão no blogue da Rádio Clube do Minho. A ver se na próxima emissão tudo volta à normalidade.
7.5.08
Bem-vindo ao turno da noite
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Unknown

‘Cashback’ é uma espécie de filme de nerds em que o protagonista não é um nerd.
Ben deixa de conseguir dormir quando acaba com a namorada. Fica a remoer naquilo - principalmente porque sente falta de sexo, talvez – e não consegue passar à frente. Para matar as noites de insónia resolve ir trabalhar para o turno da noite de uma loja de conveniência.
Ben deixa de conseguir dormir quando acaba com a namorada. Fica a remoer naquilo - principalmente porque sente falta de sexo, talvez – e não consegue passar à frente. Para matar as noites de insónia resolve ir trabalhar para o turno da noite de uma loja de conveniência.
Os seus colegas são um duo de idiotas especialistas em sexo imaginado, um pseudo-especialista em kung-fu, e um chefe pateta egocêntrico, pelo que Ben desenvolve uma estranha faculdade para se abstrair da realidade: ‘congela’ o tempo, e aproveita esses momentos de ‘paralisia’ para concretizar os seus sonhos. Quer seja para pintar a colega por quem se apaixonou (ele estuda arte e sonha ser pintor), quer seja para despir as clientes da loja (e na minha opinião esses nus - é inescapável falar deles - acabaram por trazer uma ‘fama’ injusta ao filme).
Se esses colegas broncos (a que se junta o melhor amigo de Ben) e algumas piadas fáceis aproximam ‘Cashback’ do justamente mal-afamado filme de nerds, também é verdade que o tom geral é mais do filme indie do rapaz à procura de si mesmo depois de um desgosto amoroso, assim na linha de um ‘Garden State’, se me faço entender.
Quase que aposto que é um filme que suscitará uma certa animosidade em muito boa gente (até fui espreitar ao Yahoo Movies e sem surpresa constatei que o Critics Reviews Average Grade é um muito fraco ‘C+’), mas a mim - e dou de barato que é todo construído à base de lugares comuns - pareceu-me despretensioso, bem filmado, bem interpretado e engraçado. É assim o cinema, por vezes: de um argumento que não promete muito, sai um filme que vale a pena ver.
(estreia quinta-feira)
Cashback, Reino Unido, 2006. Realização: Sean Ellis. Com: Com: Sean Biggerstaff, Emilia Fox, Shaun Evans, Michelle Ryan, Stuart Goodwin, Michael Dixon, Michael Lambourne, Marc Pickering.
4.5.08
Homem de ferro
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Robert Downey Jr. e Jeff Bridges: grande casting!
Confesso desde já que nunca li 'Homem de ferro'. Sou fraco conhecedor de BD e não costumo ligar peva às adaptações dos quadradinhos para o grande ecrã.
Neste caso, no entanto, a minha atenção foi despertada por vários motivos, sendo que o principal se chama Robert Downey Jr.. Faço parte daquela imensa minoria que o acha o maior desperdício de talento que há em Hollywood, e sempre que ele não está a desintoxicar e se dá ao trabalho de fazer filmes eu tento não os perder.
E, uma vez mais, o homem não me deixou ficar mal. 'Homem de ferro' começa por nos seduzir exactamente por causa de Robert. Só ele podia pegar nesta personagem bidimensional, do playboy fabricante de armas, genial e inconsciente, e transformá-la no super-herói com problemas de consciência, muito de carne e osso, com ar de miúdo traquina angustiado, que tem pena mas não pode fazer outra coisa, sempre um passo à frente de toda a gente por trás do seu ar aparentemente frágil e desamparado.
Acontece que as boas notícias não se ficam por aqui: os senhores do casting estavam verdadeiramente inspirados, e lembraram-se de ir buscar para vilão outro actor genial, que aparece menos do que merecia: Jeff Bridges. E, não sei se foi por contágio, também Gwyneth Paltrow está impecável no seu papel de 'Pepper' Potts, a fiel secretária de Tony Stark/Homem de ferro, e dá-nos o seu melhor papel desde os 'Tenenbaums'.
Um realizador que sabe dirigir tão bem estes actores não pode ser mau, e de facto Jon Favreau (que também é actor), merece aqui uma palavra de apreço extra: exceptuando os 15 minutos finais, mantém uma sobriedade inatacável, e o melhor elogio que lhe podemos fazer é que até nos esquecemos que estamos a ver um blockbuster para teens. Depois há o tal quarto de hora final, em que tem que justificar o orçamento e dar um doce aos adolescentes e pré-adolescentes que pagam a fita, com uma luta meio palerma e espalhafatosa entre o bom e o vilão, mas até isso lhe desculpamos.
É que para filme-pipoca, este 'Homem de ferro' não está nada mau. Mesmo nada.
Iron Man, E.U.A., 2008. Realização: Jon Favreau . Com: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Terrence Howard, Jeff Bridges.
2.5.08
Filmes de Abril
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Unknown
Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.

Pamplinas maquinista, Buster Keaton, 1927 (10)
Sabotagem, Alfred Hitchcock, 1942 (10)
A sua melhor missão, Billy Wilder, 1948 (10)
The Night and the City, Jules Dassin, 1950 (8)
Rififi, Jules Dassin, 1955 (10)
Sleuth, Joseph L.Mankiewicz, 1972 (10)
Carrie, Brian de Palma, 1976 (10)
Encontros imediatos de 3º grau, Steven Spielberg, 1977 (8)
Sonhos de ouro, Nanni Moretti, 1981 (9)
Aberto até de madrugada, Roberto Rodriguez, 1996 (7)
Ringu, Hideo Nakata, 1998 (7)
TwentyNine Palmes, Bruno Dumont, 2003
Em campanha, John Sayles, 2004 (8)
La Naissance des pieuvres, Céline Sciamma, 2007 (7)
Black Sheep, Jonathan King, 2007 (4)
O escafandro e a borboleta, Julian Schnabel, 2007
I'm Not There, Todd Haynes, 2007
REC, Paco Plaza e Jaume Balagueró, 2007
Uma segunda juventude, Francis Ford Coppola, 2007
88 Minutos, Jon Avnet, 2007
Boarding Gate, Olivier Assayas, 2007
O golpe de Baker Street, Roger Donaldson, 2008
Pamplinas maquinista, Buster Keaton, 1927 (10)
Sabotagem, Alfred Hitchcock, 1942 (10)
A sua melhor missão, Billy Wilder, 1948 (10)
The Night and the City, Jules Dassin, 1950 (8)
Rififi, Jules Dassin, 1955 (10)
Sleuth, Joseph L.Mankiewicz, 1972 (10)
Carrie, Brian de Palma, 1976 (10)
Encontros imediatos de 3º grau, Steven Spielberg, 1977 (8)
Sonhos de ouro, Nanni Moretti, 1981 (9)
Aberto até de madrugada, Roberto Rodriguez, 1996 (7)
Ringu, Hideo Nakata, 1998 (7)
TwentyNine Palmes, Bruno Dumont, 2003
Em campanha, John Sayles, 2004 (8)
La Naissance des pieuvres, Céline Sciamma, 2007 (7)
Black Sheep, Jonathan King, 2007 (4)
O escafandro e a borboleta, Julian Schnabel, 2007
I'm Not There, Todd Haynes, 2007
REC, Paco Plaza e Jaume Balagueró, 2007
Uma segunda juventude, Francis Ford Coppola, 2007
88 Minutos, Jon Avnet, 2007
Boarding Gate, Olivier Assayas, 2007
O golpe de Baker Street, Roger Donaldson, 2008
1.5.08
TwentyNine Palms
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Unknown

Godard disse que a partir de 'Viagem a Itália' os cineastas pereceberam que bastava um casal e um carro para haver matéria para um filme. Bruno Dumont pega nesta máxima, junta-lhe a tradição americana do road movie, e põe um casal a percorrer os desertos da Califórnia.
Durante 1h30 não se passa 'nada'. Nada a não ser os membros do casal a discutirem, a declararem-se apaixonados, a fazerem sexo (filmado de um modo mais ou menos explicito), a perderem-se na vasta paisagem americana, personagem de tantos filmes.
Dumont gere este tempo e este espaço com mestria e durante muito tempo parece-nos que é apenas isto que ele pretende: filmar as oscilações de uma relação, mostrar-nos as irritações que vão aparecendo, deixar o tempo passar e mostrar o desgaste que ele provoca.
Mas às tantas começam a aparecer sinais de as coisas não vão acabar bem - e quem não gostar de spoilers pode ficar-se por aqui e ir ver o filme.
Entranha-se uma espécie de pressentimento no espectador de que o ar está inquinado, que as despreocupações acabaram - mérito uma vez mais para o realizador, que instala esta tensão a partir de quase nada. E de facto, o filme dá uma volta tremenda e proporciona-nos uns 20 minutos finais brutais, dementes e desconcertantes. Como se tudo o que estivesse antes não fosse mais do que um prólogo para este clímax sinistro.
Não sendo uma obra-prima, 'TwentyNine Palms' é um filme que se distingue claramente da mediania e vale a pena descobrir através dele Bruno Dumont, realizador francês várias vezes premiado em Cannes, mas que não me lembro de ver nas salas portuguesas.
TwentyNine Palms, França/Alemanha/Estados Unidos, 2006. Realização: Bruno Dumont. Com: Katerina Golubeva, David Wissak. Edição DVD 2008 - Atalanta - Fnac.
