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31.5.07

O emprego do tempo



O affair Romand é um daqueles casos fascinantes em que a realidade ultrapassa a ficção.
No dia 9 de Janeiro de 1993, Jean-Claude Romand, um respeitável pai de família, médico na OMS, matou a tiro a mulher, os 2 filhos e os pais, tendo em seguida tentado suicidar-se. Quando as autoridades começaram a investigar o caso, descobriram que toda a vida deste homem era uma gigantesca e inacreditável farsa: não era médico (nunca chegou a acabar o curso) e não trabalhava na OMS nem em qualquer outro lado: pura e simplesmente passava os dias em parques de estacionamento ou a deambular de um lado para o outro... Sobre o pretexto de investir o dinheiro em Genebra, recebia dinheiro do sogro e depois da amante, e era assim que sustentava a família, que não suspeitava de nada (nem sequer a mulher). Quando a situação se tornou insustentável e estava prestes a ser desmascarado (depois de quase 2 décadas de logro!), levou então a cabo toda esta mortandade.

Baseando-se nas investigações sobre este caso e na correspondência trocada com Romand, entretanto a cumprir pena de prisão perpétua após a gorada tentativa de suicídio, o escritor, argumentista e realizador Emmanuel Carrère escreveu um livro fascinante, uma espécie de 'romance de não ficção' a la Capote, intitulado ‘O adversário’. Em 2002 surgiu o filme homónimo de Nicole Garcia, muito fiel ao livro, e que proporcionou uma espantosa interpretação a Daniel Auteuil, no papel do melancólico e ausente Jean-Claude.

Mas o primeiro filme a basear-se neste caso foi ‘O emprego do tempo’, de 2001, que é na realidade uma variação do tema. É muito menos fiel aos factos reais (a personagem não é um médico e o final da história é completamente diferente, deixando algo perplexo quem a conhece), mas paradoxalmente, se não o soubéssemos, considerá-lo-íamos mais verosímil. Enquanto em 'O adversário' Romand vive toda a sua vida adulta na mentira, sem saber muito bem porquê (contou que uma vez, na faculdade, faltou a um exame e disse depois que tinha passado; a partir daí nunca mais voltou à 'realidade'), neste filme a questão é pegada de outra forma. Vincent é despedido e não quer ou não tem coragem de o contar à mulher. Diz então que se despediu e arranjou outro emprego. Nos meses que se seguem percorre a trajectória que conhecemos: os dias vazios, o alheamento, a mentira, os pequenos embaraços e humilhações a que vai sendo sujeito.

Cantet transpõe perfeitamente esta história para o seu universo (é também o autor de 'Recursos humanos', que faz par com 'O emprego do tempo' na edição da Atalanta) e, não obstante já ter lido o livro de Carrère e visto o filme de Garcia, senti-me outra vez invadido pela estranha melancolia que esta personagem uma vez mais inspira. Nunca ficamos indiferentes perante pessoas que passaram para o outro lado, que um dia deixam de se sentir integradas na máquina.
L'Emploi du temps, França, 2001. Realizador: Laurent Cantet. Com: Aurélien Recoing, Karin Viard, Serge Livrozet, Monique Mangeot.

30.5.07

Piratas das Caraíbas: nos confins do mundo


(tentei, mas não consegui, arranjar uma foto da única cena interessante do filme: um monólogo de Johnny Depp, acompanhado apenas do seu galeão, numa paisagem toda branca, literalmente no meio do nada; um insólito momento de beleza teatral no meio deste desenho animado)

E mais uma vez se confirma a velha máxima das sequelas: é sempre a descer.
Pirates of the Caribbean: At World´s End, E.UA., 2007. Realização: Gore Verbinski. Com: Johnny Depp, Orlando Bloom, Keira Knightley, Geoffrey Rush, Chow Yun-Fat, Bill Nighy, Jonathan Pryce, Keith Richard.

29.5.07

10 filmes da vida de...

...atomo!, Designer de Multimédia e Ilustrador, 32 anos, com uma curiosidade cinéfila levada à obsessão, editor do Bitlogger.

Uma selecção destas é sempre injusta e quase nunca reflecte o que vou vendo actualmente e não inclui inúmeras obras que aprecio de forma apaixonada. Mais do que fazer uma selecção coerente e que reflecte quaisquer géneros que prefira, escolhi estes 10 favoritos (sem qualquer ordem de preferência) de uma lista de mais de 50 ‘essenciais pessoais’ que me causa amargura de também não caberem aqui.

Como nota de rodapé, gostaria também de dizer que nestes dez filmes também a banda sonora teve uma importância grande na escolha e, já agora, que a linguagem algo pontuada por conceitos ‘psicanaliticos’ não foi intencional (embora seja estranha).



Vertigo (Alfred Hitchcock, 1958)
Seria fácil incluir na lista qualquer dos ‘filmes americanos’ de Hitch, mas optei por este devido às constantes revisitações obsecadas. Para além de qualquer interesse na narrativa imediata de Vertigo, retenho mais aqui os constantes jogos sádicos a que Hitch submete o espectador (e claro as suas personagens) e sobretudo as pulsões interiores que são taboos e que poucas vezes foram mostradas desta forma no Cinema, subtis mas inquietantemente presentes.

Carnival of Souls (Herk Harvey, 1962)
Harvey, com uma carreira pouco extensa e muito dedicada ao chamado cinema efémero, recicla aqui toda a extensa e gigantesca herança que o Expressionismo imprimiu no Cinema Americano (e que ainda se continua a sentir, em bons e maus exemplos) e do chamado American Gothic para criar um filme inovador e que ainda hoje causa arrepios.
Todos os pormenores da 'alma perdida' que protagoniza o filme, dos gestos mais quotidianos à pura alienação mortal, fazem deste filme um dos mais hipnóticos exemplos do cinema (dito) fantástico, que me atrai sobretudo devido à mestria técnica de Harvey, que nunca precisa de recorrer a efeitos especiais elaborados para fazer o espectador cair em transe.

À Bout de Souffle (Jean-Luc Godard, 1960)
De certa forma uma reflecção sobre o Film Noir (poucos são ainda os estudiosos que injustamente atribuem a vital importância ao filme criminal francês do pré-II Guerra Mundial no género), o Acossado é também aquilo que mais gosto no Godard dos 60s: um permanente voyerismo pela geração da nouveaux Paris (mais nova do a do mestre) e a desculpa de filmar uma história para referenciar (e ‘reverenciar’) as inúmeras referências culturais e pop de uma geração de teóricos.

Sayat Nova (aka Colour of Pomegranate, Sergei Parajanov, 1968)
Contando a história do trovador e poeta arménio do século XVIII, Parajanov construiu um dos filmes mais estilizados e artisticamente precisos que há memória em toda a história do Cinema (desculpem o pedantismo).
Cada frame deste filme é uma obra de arte que oferece ao espectador não a narrativa 'realista' da vida de Sayat Nova (que estava na intenção do Regime Soviético quando contractou Parajanov para tal), mas o simbolismo poético que compõem uma biografia. Pura poesia visual.

Faster, Pussycat! Kill! Kill! (Russ Meyer, 1965)
Este deve ser o mais singular filme de Meyer, aquele onde as suas avantajadas vixens, sempre representadas através do desejo masculino, se tornam aqui no próprio gerador desse mesmo ‘objecto’ desejado, num ‘jogo de espelhos’ que revela as pulsões masculinas mais primais.

Tentando desculpar-me desta descrição algo barroca, em Faster Pussycat!, para lá do aço dos automóveis (sempre um símbolo fálico e simultaneamente americano) e da carne abundante das personagens femininas, fica um excitante retrato de uma violência caricatural quase indomável, presente na personagem de Varla (a actriz de culto Tura Satana), que tem o seu apogeu nos 70s e que agora serve de ‘muleta’ a todos estes recentes revivalismos dos clássicos dos filmes de grind house.

Scorpio Rising (Kenneth Anger, 1964)
Um dos filmes mais ambíguos do cinema independente americano (e também um dos que mais amores e ódios gerou), Scorpio Rising é a minha obra favorita de Anger, sobretudo pela forma como consegue criar uma imagem icónica, recriando todo o sentido do termo cultura pop americana e sobretudo o que era de facto rebeldia visual, e que agora é apenas um cliché camp.

Usando técnicas (e um formato) cinematográficas apenas repetidas muito mais tarde com a ascensão do videoclip musical (já nos 80s), Scorpio Rising, na sua curta meia hora de duração, é uma espantosa reflecção sobre a cultura popular americana, sempre presente nos chamados biker films. Usando as mesmas pulsões que The Wild One (László Benedek, 1953), Anger entrega aqui uma despudorada visão sobre um dos mitos heróicos americanos, criando um espantoso catálogo de fetichismos cinematográficos (e outros).

Lost Highway (David Lynch, 1997)
Com a invocação de Meshes in the Afternoon (Maya Deren, 1943... outro que ficou de fora), Lynch começa aqui a sua final consolidação de uma linguagem visual em ‘camadas’ e elipses narrativas (a chegar a um excelente e ‘barroco’ amadurecimento), pegando no Cinema Clássico para criar o que será (e já é) a nova forma de narrativa visual, consolidada com Mulholland Drive e Inland Empire.

One, Two, Three (Billy Wilder, 1961)
Não existe um único filme de Wilder que não devesse estar nesta lista. Para evitar citar The Seven Year Itch, Sunset Blvd., Double Indemnity ou The Apartment, todos escolhas 'fáceis' de justificar (são favoritos desde o final da infância), escolhi este fabuloso e corajoso exercício de sarcasmo com um sentido visionário sobre o que estava a passar na Berlim dividida após a II Grande Guerra. Como em quase todos os filmes de Wilder, nunca as palavras foram tão cortantes, nesta estranha fábula multinacional, onde o slapstick verbal asume contornos quase perigosos. Tal como na altura da estreia este é ainda o mais ‘incómodo’ filme de Wilder, como aqueles que estava presentes numa célebre exibição da versão uncut deste filme na Cinemateca Portuguesa aqui a uns anos se lembram, com uma estranha batalha verbal entre várias facções (não só cinéfilas) na plateia.

Yojimbo (Akira Kurosawa, 1961)
Mais ‘modesto’ que a obra-prima Sete Samurais (será?) Yojimbo é uma das obras mais completas que me lembro. Temos um realismo que não tem vergonha de mostrar comédia e a tragédia humana, o anti heroismo marcadamente ‘Kurosawiano’, um icon do ‘novo’ western (Mifune) e a continuação do quebrar com o passado imperialista japonês, com a sua humanização dos heróis e uma desacralização dos simbolos. Tecnicamente, como qualquer filme de Kurosawa nos 50s e 60s este filme é também um catálogo soberbo de inovações filmicas, que dá um gozo especial ver (e ouvir).

Laura (Otto Preminger, 1944)
Tal como Vertigo, aqui Preminger (outro autor fetichista), conta um estranho conto de necrofilia, onde todas as palavras, gestos e objectos parecem ter duplos sentidos. Conduzidos pela magnífica e ácida personagem Waldo Lydecker (uma das minhas personagens favoritas de sempre), somos levados por uma estranha viagem voyerista de pulsões freudianas onde a personagem do título, com o estranho nome de Laura Hunt (a espantosa Gene Tierney) faz revelar os cantos mais escondidos e estranhos do desejo humano e onde as máscaras psicológicas possuem vida própria.

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é esponja, aka Allen Douglas.

27.5.07

O último rei da Escócia



O grande Forest Whitaker é motivo suficiente para me levar ao cinema, de modo que aproveitei a vinda tardia deste filme a uma sala próxima para finalmente o ver. Whitaker tem de facto mais uma grande presença, mas "O último rei da Escócia" tem mais motivos de interesse. Gostei especialmente do modo como anda à volta do lado sombrio de Idi Amin, começando por mostrar o seu lado sedutor e magnetizante, e só pouco a pouco nos ir revelando o seu verdadeiro eu, primeiro as suas excentricidades, as suas inconstâncias, a sua infantilidade, e só depois, finalmente, a sua loucura e malignidade. É muito inteligente esta forma como o argumento está construído, dando ao espectador o ponto de vista do ingénuo e algo leviano Dr.Garrigan (um dos argumentistas é Peter Morgan, o mesmo de 'A Rainha').
O documentarista Kevin Macdonald (neto de Emeric Pressburger), estreia-se assim da melhor maneira na ficção, não obstante algum excesso de poluição sonora, um mal comum nos filmes passados em África, em que os realizadores teimam em carregar na banda sonora.
E o título, um verdadeiro achado, é desde já candidato a melhor do ano,
The Last King of Scotland, Grã-Bretanha, 2006. Realização: Kevin Macdonald. Com: James McAvoy, Forest Whitaker, Kerry Washington, Gillian Anderson, Simon McBurney.

26.5.07

John Wayne



Se me perguntarem pelos actores da minha vida, John Wayne, que nasceu faz hoje 100 anos, não será um dos primeiros nomes que me ocorrerá.
Mas a verdade é que num certo tipo de papeis foi o maior, e teve a sorte ou o engenho de ser dirigido por alguns dos melhores (Ford e Hawks, claro, mas também DeMille e Nick Ray entre muitos outros).

Não é por acaso que está em 2 dos 10 filmes da minha vida.

24.5.07

10 filmes da vida de...

...Pedro Soares aka dermot, 24 anos, (quase) arquitecto de formação, cinéfilo por obsessão e autor do blogue Royale With Cheese por carolice.

Escolher (apenas) 10 filmes que tenham mudado a minha vida é uma situação ingrata, porque dez filmes num universo de milhares de filmes é uma gota num oceano. É como ter que escolher entre o pai e a mãe. Mas como sou um tipo corajoso decidi aceitar o desafio que o Harry Madox me lançou.
Estas listas dependem sempre de muita coisa. Se fossem só três filmes, era capaz de ser mais fácil. Assim, muitas escolhas vão depender do momento, das emoções ou de meros caprichos. Se esta lista fosse feita amanhã ou até mesmo daqui a 5 minutos seria, certamente, diferente.
Ressalvo ainda um pormenor: tirando o primeiro lugar, todos os outros não obedecem a nenhuma ordem qualitativa ou algo do género.

Pulp Fiction
No cinema, Quentin Tarantino é o meu Deus e Pulp Fiction a Bíblia. Se fizesse uma analogia com o futebol, o Tarantino seria o meu José Mourinho e Pulp Fiction o Chelsea. Acho que já perceberam onde quero chegar. Pulp Fiction não é um dos filmes da minha vida; é o filme da minha vida. Duvido que haja mais algum filme capaz de fundir a nouvelle vague, a cultura pop e o cinema xunga e dar-lhe um aspecto novo e original. Tarantino é o Godard dos anos 90!

Laranja Mecânica
Este é um daqueles marcos da minha adolescência, que mudou radicalmente a minha maneira de ver o cinema. Violência, sexo e Beethoven, eis uma combinação que nunca pensei que resultasse tão bem, tão... poeticamente. É, provavelmente, o filme mais iconoclasta desta lista.

Triologia O Padrinho
É certo que o terceiro tomo desta triologia não tem a categoria dos dois primeiros (argh, detesto o Andy Garcia), mas a epopeia não ficava completa sem este filme. Contudo, os dois primeiros são filmes perfeitos e arrisco mesmo a dizer que são os filmes mais bem escritos de sempre. Marlon Brando é genial, Al Pacino soberbo e Robert de Niro perfeito.

O Bom, o Mau e o Vilão
Sou um admirador inveterado de westerns de todo o tipo: clássicos, spaghettis e alternativos. Confesso que estive a um passo de escolher “Lágrimas Do Tigre Negro” – não é todos os dias que se vê um western tailandês, com cowboys de olhos em bico, cenários pintados a papel crepe e melodrama trágico a la telenovela mexicana –, mas se não optasse por “O Bom, O Mau E O Vilão” não me ia sentir bem comigo mesmo. Expoente máximo do western spaghetti, obra-prima de Ennio Morricone e Clint Eastwood melhor do que nunca – a melhor introdução possível ao western.

Um Coração Selvagem
Penso que é quase um lugar-comum encontrar um filme de David Lynch na lista dos filmes favoritos dos cinéfilos mais novos. Eu não sou excepção e o filme é “Um Coração Selvagem”. Não sou particular apreciador da fase surrealista de Lynch – nessa coisa de surrealistas, quem me tira o Jodorowskyn tira-me tudo. “Um Coração Selvagem” foi o filme que me revelou que o cinema também era artístico e... diferente de tudo aquilo que costumava alugar no clube de vídeo. E Sailor Ripley é capaz de ser o nome mais porreiro de sempre para um protagonista.

Parada de Monstros
Foi “Parada De Monstros” que arruinou a carreira de Tod Browning, acusado pela América conservadora de ser um sencacionalista barato. Sensacionalismo barato são os filmes de cowboys com anões ou os filmes de artes-marciais com shaolins amputados. Isto é um dos mais fantásticos filmes de sempre e continua hoje tão actual como há cinquenta anos atrás. Browning filma uma mão-cheia de aberrações de circo, mas os verdadeiros monstros são os homens ditos “normais”. Agora que penso nisso, é o que Guillermo Del Toro tem andando a fazer nos seus últimos filmes...

Harold e Maude
Em “Doidos Por Mary”, Cameron Diaz diz às tantas que “Harold E Maude” é a maior história de amor do cinema. Concordo piamente. Esta espécie de “Romeu E Julieta” subversivo, que une um rapaz depressivo com uma velhota esquisita que frequenta funerais é um filme divertido, bizarro, comovente e até romântico. E a banda-sonora de Cat Stevens deve ser a única coisa de jeito que ele fez na sua vida.

A Semente do Diabo
Qualquer um dos filmes da triologia dos apartamentos poderia estar aqui nesta lista. No entanto optei por “A Semente Do Diabo” por várias razões: pela banda-sonora que ainda hoje me causa arrepios na espinha; pela Mia Farrow que fica muito bem de cabelo curto; e por ser o primeiro grande filme de terror psicológico.

Casablanca
Este é o cliché desta lista. No entanto, não poderia deixar de o incluir. Não vale a pena dizer muito sobre “Casablanca”, toda a gente já o viu ou já ouviu falar dele. E deve ter sido o primeiro filme a preto e branco que vi, do princípio até ao fim, totalmente absorvido e fascinado com o que via.

Desperado
É provavelmente a surpresa desta lista. Mas faz todo o sentido que aqui esteja. Tarantino disse uma vez que “se quiseres fazer um filme de acção, então tens de fazer o melhor de sempre”. E foi isso que Robert Rodriguez fez. Já tinha feito um bom filme de acção, o “El Mariachi”, e por isso agora tinha que fazer o melhor de sempre. E é assim que surge “Desperado”, um Antonio Banderas cheio de estilo que se desvia dos tiros inimigos com grande graciosidade, dizima sozinho um exército inteiro e ainda toca viola. Só não apanha as balas com os dentes porque para isso já existe “O Super-Polícia”...

Menção Honrosa: This Is Spinal Tap
Vou tomar a liberdade de incluir nesta lista uma menção honrosa. É que depois d eter terminado, fiquei a pensar que esta lista deveria ter uma comédia. É que toda a vida vi comédias, desde que comecei a ver cinema. Por isso, não fazia sentido não incluir nenhuma. Por isso, ia escrever ali em cima “Top Secret!”, mas, misteriosamente, os meus dedos escreveram antes “This Is Spinal Tap”. E quem sou eu para contestar o meu inconsciente?. “This Is Spinal Tap” é um mockumentário hilariante sobre uma banda de rock’n’roll fictícia, que parodia de forma inteligente todos os clichets do rock. É um dos filmes que eu gostaria de ter feito um dia.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é o atomo!

22.5.07

Still life-Natureza morta



Velho sonho de Mao, só em 2006 a barragem das três gargantas foi concretizada. Tem um reservatório com 600km de comprimento, foi preciso demolir cidades inteiras para a construir, e estima-se que terão sido deslocadas qualquer coisa como um milhão e duzentas mil pessoas. Jia Zhang-Ke serve-se deste empreendimento colossal para nos dar um filme eminentemente social, atento às enormes mudanças que a China está a atravessar.
Um homem tenta encontrar, 16 anos depois, a sua mulher, que vivia numa das cidades demolidas, para rever a filha. É um pobre mineiro, que na época tinha comprado a mulher, mas esta fugira. Por outro lado uma mulher tenta encontrar o marido, que fora trabalhar para a zona da barragem: não sabe dele há dois anos, suspeita que ele tem outra mulher, e ela própria quer o divórcio e partir para uma nova vida. São representantes de duas Chinas diferentes, uma quase medieval, a outra mais moderna, de funcionários do partido, com uma outra vida, mas ambos irremediavelmente afectados pela enorme transformação económica e social que o seu país está a sofrer.
Se como documento realista e de serena análise social 'Natureza morta' é um filme importante e interessante, como drama sobre seres humanos de carne e osso é distante e gélido. Zhang-Ke só se interessa pelos seus personagens enquanto representantes ou vítimas de algo e só numa cena ou outra (nomeadamente nos breves encontros dos dois casais) nos deixa entrever alguma centelha de calor humano. Mas talvez este distanciamento apenas reflicta a frieza e desumanidade do burocrático sistema comunista-capitalista da China actual.
De resto o filme é belissimamente filmado e fotografado, mas mesmo que o admire, não me tocou.
Sanxia haoren/ Still Life, China/Hong Kong, 2006. Realização: Jia Zhang-ke. Com: Tao Zhao, Sanming Han, Hong Wei Wang.

21.5.07

Zodiac



'Zodiac' é a história de uma obsessão. Desde logo de David Fincher, que a transfere para os seus personagens, o jornalista Paul Avery/Robert Downey Jr., o inspector David Toschi/Mark Ruffalo e o cartoonista e investigador amador Robert Graysmith/Jake Gyllenhaal (é aliás muito interessante a passagem de testemunho entre as personagens principais). Fincher dá-nos um relato minucioso, hiper-detalhado e asfixiante das investigações à volta dos assassínios do Zodíaco, um serial killer que aterrorizou a área de S.Francisco na década de 60 (ambiente que Fincher, então criança, testemunhou). Mais do que uma fotografia da sociedade americana dessa época (os hippies, etc., etc.), mais até que uma análise do comportamento obsessivo, Fincher procura (e consegue) envolver-nos no ambiente de paranóia, de obcecação, de isolamento de tudo o resto, que os seus personagens sentem e que os vai destruindo a todos. Para isso serve-se de dois dos seus maiores trunfos enquanto realizador, a construção de ambientes e o ritmo imparável, e deixa de fora os seus maiores defeitos, aquela estridência e obsessão com o truque final que até são a sua imagem de marca.
Como resultado, obtém aquele que é, de caras, o seu melhor filme.
Zodiac, E.U.A., 2007. Realização: David Fincher. Com: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Robert Downey Jr., Anthony Edwards, Chloë Sevigny, Brian Cox, Dermot Mulroney, John Carroll Lynch.

16.5.07

10 filmes da vida de...

... o terceiro homem.
Dez filmes que me vieram à cabeça ... nos minutos seguintes pensei que poderia fazer mais uma quantas listas com dez filmes inesquecíveis. Mas foram estes que saíram à frente:



The Third Man ( O Terceiro Homem), Carol Reed, 1949
Um filme completo, cuja primeira visão foi mágica e obrigou a sucessivas revisões

Blue Velvet (Veludo Azul), David Lynch, 1986
Define muito do mistério de Lynch. "O mundo é um lugar estranho, não é?". Banda sonora memorável

The Treasure of Sierra Madre (O Tesouro de Sierra Madre), John Huston, 1948
Humphery Bogart num exercício perfeito, aventura e drama, sobre a corrupção humana

I Know Where I'm Going (Sei para Onde Vou), Michael Powell and Emeric Pressburger, 1945
Powell é um dos favoritos e este foi um dos filmes que descobri tardiamente. Uma 'love story'

Viridiana, Luis Bunuel, 1961
A perversão de Bunuel em pleno, com o catolicismo na mira

The Big Heat (Corrupção), Fritz Lang, 1953
A violência e a culpa levadas ao extremo, com cenas de "arrepiar" para os anos 50

Bonnie & Clyde , Arthur Penn, 1967
A melhor maneira de tratar uma lenda

The Quiet Man (O Homem Tranquilo), John Ford, 1952
Ford e Wayne numa combinação atípica, com comédia e drama na Irlanda

The Night of the Hunter ( A Sombra do Caçador), Charles Laughton, 1955
Obra-prima absoluta

One from the Heart, (Do Fundo do Coração), F. F. Coppola, 1982
Coppola fez vários filmes geniais: escolho este por motivos especiais relacionados com a primeira vez que o vi. Foi uma espécie de magia. Que perdura

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é dermot

14.5.07

Quebra de confiança



Não é fácil dizer mal de 'Quebra de confiança'. Tem um excelente naipe de actores (Chris Cooper, Ryan Phillippe, Laura Linney), uma magnífica fotografia (de Tak Fujimoto, que já trabalhou com Shyamalan ou Jonathan Demme, por exemplo), um argumento interessante, baseado num caso real de um traidor de dentro do FBI, e uma realização discreta e com um certo travo clássico. E no entanto...
Comecemos pelo argumento, pois penso que aqui se centram algumas das brechas do filme. Este estrutura-se num jogo do gato e do rato: de um lado o veterano e experiente agente Hanssen (Cooper), suspeito de passar informação à União Soviética, do outro o novato candidato a agente, Eric O'Neill (Phillippe). A missão deste é desmascarar o primeiro, missão tão difícil quanto Hanssen é precisamente um experimentado e competente agente de espionagem e contra-espionagem, não sendo facilmente iludido. Para o conseguir O'Neill joga com os pontos vulneráveis do seu chefe, decorrentes da imagem que ele construiu: profissionalmente um homem poderoso e importante, que só não subiu ainda mais na carreira devido à sua integridade, e em privado um católico devoto e intransigente. Naturalmente que a ideia é boa: servir-se da vaidade e do ego de alguém frio, inacessível e manipulador, para tentar furar essa carapaça, mas na prática parece tudo um pouco lasso e, nos momentos chave, Hanssen demonstra sempre uma ingenuidade pouco credível perante o seu inexperiente funcionário.
Por outro lado, o subplot da mulher de O'Neill, da dificuldade que um agente de uma organização como o FBI tem em conciliar a sua profissão com a familia, também é algo banal e pouco desenvolvido, não tendo a bela Caroline Dhavernas grande personagem para defender.
Dir-se-á que isto são pormenores, e são-no, mas contribuem para uma certa quebra de confiança do espectador no filme; tal como a realização, que tem o tal travo clássico que já referimos, mas a que falta aquele golpe de asa dos grandes realizadores para elevar o filme acima de uma certa monotonia competente.
Numa época de Homens Aranhas, apetece sinceramente simpatizar com um filme como este, que nem é de desprezar, mas não podemos deixar de pensar que está cada vez mais a desaparecer um certo savoir-faire que existia em Hollywood, que cada vez é mais difícil encontrar surpresas fora da meia dúzia de realizadores do costume...
Breach, E.UA., 2007. Realização: Billy Ray. Com: Chris Cooper, Ryan Phillippe, Laura Linney, Caroline Dhavernas, Gary Cole, Dennis Haysbert, Kathleen Quinlan, Bruce Davison.

11.5.07

The Hot Spot/Ardente sedução

Os meus começos foram modestos. Tendo vivido numa pequena cidade do interior até aos 18 anos (e continuando a passar lá largas temporadas durante os 5 anos seguintes), para além da TV (2 canais) só havia duas hipóteses de ver filmes: ou ir ao cinema local, o Spock (1 sala, claro) ou recorrer ao clube de vídeo, o Felina (mais tarde abriu também o Charlot). Escusado será dizer que não havia Internet: nada de Amazons nem de emules. Certamente que já havia critica de cinema nos jornais, mas sinceramente não me lembro; se havia, eu não a lia. Não tinha qualquer ideia do que fosse isso de cinefilia e se clássicos via eram os que passavam na televisão, talvez uns Hitchcocks ou uns westerns (infelizmente a minha memória para estas coisas é muito má – admiro profundamente aquelas pessoas que se lembram do primeiro filme que viram, aos 4 anos). Assim sendo, e uma vez que o Spock não ia muito além dos Karates Kids (que se podiam eternizar em cartaz), a solução era vasculhar o Felina, escolhendo eu os filmes basicamente ao calha.
O único sintoma da cinefilia que estava para vir, penso eu, era o facto de sempre ter preferido rever um filme de que havia gostado do que andar atrás da ‘última novidade’ (relativa, claro está; os filmes deviam chegar à terrinha com uns 6 meses de atraso).


O filme que mais vezes vi por essa altura, o que acabava sempre por trazer quando nada mais me agradava na visita ao Felina, era ‘The Hot Spot’, que por cá recebeu o encantador título ‘Ardente sedução’. A fita é realizada por Dennis Hopper, de quem eu na altura de certeza nunca ouvira falar, devendo-se provavelmente o meu critério de selecção ao facto de a star ser Don Johnson, à época bastante famoso devido a Miami Vice (série que, diga-se, pouco tinha a ver com o excelente filme de Michael Mann).
Nunca mais vi o filme até hoje, mas tenho a certeza de que se o revisse ainda gostaria dele. Embora eu não o soubesse, ‘The Hot Spot’ é uma espécie de neo-noir. Don Johnson é Harry Madox (hélas!), um vigarista de segunda classe, sedutor, misterioso e vivaço, que vai parar a uma terriola no meio de nenhures, na América profunda. Aí arranja emprego num stand de automóveis, mas o que tem debaixo de olho é o banco local. Claro que uma ave rara destas em tal lugarejo depressa arranja sarilhos com saias, e Madox quando dá conta está dividido entre duas mulheres: uma é a mulher do seu patrão (Virginia Madsen, que só revi recentemente em Sideways), sedutora, manipuladora, feita da mesma massa que ele – uma perfeita femme fatale, em suma; a outra é a inocente e virginal contabilista da empresa, uma muito jovem e bela Jennifer Conelly, num dos seus primeiros papéis - reconheço desde já que se devia a ela muito do encanto que para mim este filme tinha (aliás abro um parêntesis para dizer que os únicos sítios onde este filme hoje em dia é lembrado é em sites tipo Mr.Skin, devido ao” great up-close on her breasts”) . Sendo, como já disse, um film noir, está bem de ver qual das duas ganha a batalha pelo bom do Madox…
Dennis Hopper só realizaria mais uma longa-metragem, a carreira de Don Johnson no cinema nunca chegaria a arrancar, Virginia Madsen entrou numa espécie de limbo até anos recentes e apenas Jennifer Connelly partiria para voos maiores. Mas aqui tudo bateu certo e a química foi perfeita. Não há filme de que eu tenha mais memórias.
The Hot Spot, E.U.A., 1990. Realização: Dennis Hopper. Com: Don Johnson, Virginia Madsen, Jennifer Connelly, Charles Martin Smith, William Sadler, Jerry Hardin.

9.5.07

Climas



Nas férias de Verão um casal discute por uma coisa de nada, e passado pouco tempo ele diz-lhe que é melhor separarem-se. Vai cada um à sua vida. No Outono ele deambula por Istambul, não consegue acabar uma tese, procura uma antiga amante, planeia umas férias a só num clima mais ameno. Quase no final do filme, no Inverno, resolve ir tentar recuperá-la.
É só isto, o argumento de 'Climas'. Acrescente-se que os esparsos diálogos do filme não vão além de assuntos triviais. Tem-se falado muito de Antonioni a propósito do turco Nuri Bilge Ceylan, mas aqui o ambiente é, não diria mais caloroso que é excessivo, mas mais próximo, apesar de tudo. É mais fácil identificarmo-nos com estas personagens, muito de carne e osso, incluindo o seu lacónico e opaco protagonista (interpretado pelo próprio realizador, tal como a sua mulher interpreta a outra metade do casal). Há muito tempo que não via um filme em que sentisse tanto a vida como ela é. As irritações, os sentimentos mal expressos, o orgulho, o egoísmo, as coisas mal resolvidas. Os pequenos nadas que inquinam uma relação.
'Climas' tem ainda um final estupendo e é, de longe, o melhor filme estreado este ano que vi até à data.
Iklimler, Turquia/França, 2006. Realização: Nuri Bilge Ceylan. Com: Ebru Ceylan, Nuri Bilge Ceylan, Nazan Kirilmis, Mehmet Eryilmaz, Arif Asçi, Can Ozbatur.

8.5.07

10 filmes da vida de...

...Sérgio Alpendre, 38 anos, cinéfilo doente desde 1989. É jornalista e editor da Revista Paisà, publicação bimestral de cinema.

DEZ ENTRE OS VÁRIOS FILMES QUE MUDARAM MINHA VIDA

A escolha é meramente circunstancial, movida pela paixão e pelo sabor de revisões e redescobertas. Eu já havia feito uma lista semelhante para o blog do Chico Fireman. Mas, como já se passaram uns dois anos, me arrisco novamente. Quando eu repetir cineastas, tomarei o cuidado de não repetir os filmes, a não ser quando for inevitável. Claro que algumas escolhas são por demais manjadas. Poderia citar só diretores pouco mencionados, ou diretores esquecidos – e teria muitos que preenchem esses requisitos e são tão merecedores quanto os escolhidos abaixo. Mas se eu for pensar unicamente no critério abalo sísmico interno, os que escolhi representam melhor os meus quase vinte anos de cinefilia compulsica. Aos muitos diretores do coração que ficaram de fora: Lang, Preminger, Ford, Hawks, Resnais, Rohmer, Romero, Eastwood, Scorsese, De Palma, Welles, McCarey, Tsai, Kiarostami, Mizoguchi, Ozu, Kiyoshi Kurosawa... e tantos outros, a menção carinhosa nesta introdução. Aos leitores que quiserem (re) descobrir alguns desses filmes, minhas mais sinceras palavras de incentivo.
* perdoem a escolha pelo título em português que os filmes tiveram no Brasil.


Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence, 1974) – de John Cassavetes
Durante muito tempo tinha uma preferência escancarada por Faces, mas uma nova série de revisões da obra deste diretor inigualável me fez equiparar este filme ao preferido solitário de outrora. Cada vez que Gena Rowlands mostrava sua maneira peculiar de amar, eu me vejo em lágrimas. E assim acontece a cada revisão.

Amor de Perdição (1978), de Manoel de Oliveira
Manoel é dos meus três diretores preferidos. Um dos outros é Cassavetes, e não me perguntem o terceiro, pois muda a cada dia, tantos merecedores de um lugar privilegiado em meu coração. A primeira vez que vi este filme, a sala acarpetada estava com o ar condicionado quebrado. Foi um martírio. Mas também uma das sessões mais intensas da minha vida cinéfila. Na segunda vez, o projetor estava quebrado, e ocorria interrupção a cada vinte minutos para troca dos rolos. A sessão demorou mais de seis horas, mas foi novamente uma experiência intensa, semelhante à que passei descobrindo O Sapato de Cetim, do mesmo diretor. Quando apertei a mão de Manoel de Oliveira, numa de suas passagens por São Paulo, mal pude falar. Fiquei emudecido, tamanha a minha admiração pelo cinema desse senhor tão culto e tão simples.

O Anjo Exterminador (El Angel Exterminador, 1962), de Luis Buñuel
Descoberta do início da cinefilia, que ainda se mantém no panteão. Esse mudou minha vida no sentido de que algumas inquietações religiosas e filosóficas (sim, nessa época meu cérebro ainda era capaz de tê-las) me pareceram muito bem traduzidas em imagens. Ou seja, adorei Buñuel desde o início por que ele me fez compreender melhor a mim mesmo e ao meu espírito.

Verão Violento (Estate Violenta, 1959), de Valerio Zurlini
Junto com Dois Destinos, um dos filmes que mais mexeu comigo. Primeiro pelo plot-point inesquecível do abraço da criança em Trintignant, que iria mudar a vida dele e da mãe da criança. Segundo, pelo genial final do primeiro ato, com a dança de olhares entre as pessoas que dançavam no casarão. Não conheço quem tenha tratado com tanta sensibilidade a falta de reciprocidade nos flertes, e o ciúme dos não correspondidos.

O Desprezo (Le Mépris, 1963), de Jean-Luc Godard
Poderia ser Pierrot le Fou, Weekend, O Pequeno Soldado, Passion, Prenom Carmen, Éloge D’Amour... todos geniais. Esse eu conheci em VHS, numa cópia adulterada pela Globovideo, com cores esmaecidas e sem o formato scope, além de ter dois rolos trocados. Mesmo assim, bateu forte, e já naquela época considerei uma obra-prima. Depois revi em cinema (duas vezes) e DVD (mais uma vez), e ainda acho que preciso rever mais umas vionte vezes para captar tudo que o filme pode me passar.

As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (Die bitteren Tränen der Petra von Kant, 1972), de Rainer Werner Fassbinder
Para uma aula que ministrei recentemente, fiz ampla revisão da obra de um dos meus diretores preferidos. Ainda me divido entre esse e Roleta Chinesa, Num Ano Com Treze Luas e O Desespero de Veronika Voss. Mas Lágrimas Amargas, para mim, retrata muito bem a diferença entre cinema e teatro. Fassbinder conhecia muito bem essa diferença, e o que ele realiza aqui, uma adaptação de peça de teatro de sua autoria, é cinema em estado bruto, entregando o que nenhuma outra arte poderia entregar: o balé dos olhares, maliciosos, invejosos, despeitados, aventureiros, recalcados, humanos, enfim.

Recordações da Casa Amarela (1989), de João Cesar Monteiro
Pode até ser média com o amigo blogueiro de Portugal. Mas da trinca de grandes cineastas portugueses, Monteiro ainda ocupa lugar de destaque (Pedro Costa pode se igualar a ele, mas nunca se superar). Nenhum filme entre os que ficaram de fora superam este primeiro episódio das aventuras do iconoclasta (como o diretor) João de Deus, visto em uma sala minúscula de São Paulo, e nunca esquecido, permanecendo como a melhor obra a herdar a verve dadaísta de Luis Buñuel.

Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), de Billy Wilder
Outro que permanece no pódio, desde o início da cinefilia. Wilder tem outros tantos filmes sensacionais, mas nenhum me fez ficar sem poder andar por alguns minutos, preso, estatelado na poltrona da antiga cinemateca de Pinheiros, São Paulo. Lembro que ao final eu soltei um suspiro, que foi correspondido por um olhar de cumplicidade de um estranho que também havia se impressionado com o filme, e levantava, com dificuldades, na fileira da frente.

A Grande Ilusão (La Grande Illusion, 1937), de Jean Renoir
É óbvio, assim como seria escolher A Regra do Jogo, mas é inevitável. Renoir pode ter outros filmes igualmente soberbos (French Can Can, Une Partie de Campagne, O Rio Sagrado), mas a frase “ a natureza não tem fronteiras”, dita naquele momento, naquele contexto, é coisa de grandes.

Limite (1931), de Mário Peixoto
Chamar de poesia em imagens seria muito batido? Penso que sim. Mas não conheço outra tradução para o que é esse filme. Aquelas imagens parecem captadas por uma outra coisa que não uma câmera. Um olho marejado de lágrimas, talvez. Ou um olho de alguém que enxerga pela primeira vez.

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é o terceiro homem

Moretti

Hoje, depois das 19h na TSF, o entrevistado de Carlos Vaz Marques é Nanni Moretti.

6.5.07

Shortbus



'Shortbus' parece-se com muita coisa e não se parece com nada. É desde logo herdeiro dos já famosos filmes-mosaico tipo 'Magnolia', de um certo tipo de cinema independente americano mais underground, mas deve também muito a alguma da melhor ficção televisiva actual ('L World', por exemplo). Por outro lado as suas (muitas) cenas de sexo explicitas (hetero e homossexual, principalmente gay) afastam-no de quase tudo o que anda por aí.

Apesar desta obsessão com o sexo - todas as personagens passam a vida a fazer sexo ou a falar sobre sexo - este é um ponto de partida e não um ponto de chegada, sendo o filme acima de tudo sobre as carências das suas personagens, sobre a solidão, sobre a impossibilidade de ser feliz, a um, a dois, a três, sobre a dificuldade de comunicação. Não é por acaso que várias personagens filmam ou fotografam situações da sua vida ou da dos outros: é como se precisassem de um intermediário para apreenderem o mundo.

'Shortbus' não dispensa no entanto momentos de optimismo, de excesso, de devaneio, de uma certa exuberância anarquista, como quando irrompe pelo ecrã uma banda húngara, ou quando temos um numero tipo teledisco. Há uma grande liberdade para deixar as coisas fluírem, não há aquela necessidade de seguir um guião e contar uma história em x tempo, como nas séries televisivas. E há também um certo prazer voyeuristico do espectador, perante esta não muito dolce vita dos personagens, mas ainda assim com mais glamour do que a vida de quem tem que se preocupar com o preço das fraldas ou o empréstimo da casa.

Não fica muito claro o porquê das tais cenas de sexo explícito, mas... so what? Talvez tenham sido um ponto de partida, a ver o que dava a partir daí. E, pelo menos, 'Shortbus' é o melhor filme com sexo explícito que já vi.

Shortbus, E.U.A., 2006. Realização: John Cameron Mitchell. Com: Sook-Yin Lee, Paul Dawson, PJ DeBoy, Lindsay Beamish, Peter Stickles, Justin Bond, Raphael Barker, Peter Stickles.

4.5.07

Venus



'Venus' é um filme esquecível, com muitos momentos embaraçosos e quase nenhuns memoráveis. Mas há uma cena, quando os amigos de Maurice vêem o seu obituário no jornal, uma página inteira com a sua fotografia em destaque, a que nenhum cinéfilo pode assistir sem alguma comoção. A foto é de um jovem Peter O'Toole, aí por alturas de Lawrence da Arábia, e a personagem transforma-se completamente no seu actor. É o obituário de Peter O'Toole que estamos a ver, e isso não pode deixar de nos emocionar.
Venus, Grã-Bretanha, 2006. Realização: Roger Michell. Com: Peter O`Toole, Jodie Whittaker, Leslie Phillips, Richard Griffiths, Vanessa Redgrave.

2.5.07

Filmes de Abril

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês pasado. Classificação de 0 a 10.


O testamento do Dr.Mabuse, Fritz Lang, 1933 (10)
Liliom, Fritz Lang, 1934 (9)
Os assassinos, Robert Siodmak, 1946 (9)
Antoine et Colette (L'Amour à vingt ans), François Truffaut, 1962 (8)
Os assassinos, Don Siegel, 1964 (8,5)
O carniceiro, Claude Chabrol, 1970 (9)
Non ho sonno, Dario Argento, 2001 (6)
Em Paris, Christophe Honoré, 2006 (7,5)
The pervert´s guide to cinema, Slavoj Zizek, 2006 (8,5)
O bom alemão, Seteven Soderbergh, 2006
INLAND EMPIRE, David Lynch, 2006
300, Zack Snyder, 2006
O atirador, Antoine Fuqua, 2007
Missão solar, Danny Boyle, 2007