Recent Posts

31.1.10

Bem-Vindo a Zombieland

















'Zombieland' é uma divertida e despretensiosa comédia de zombies, que vai buscar o seu modelo mais ao road movie que aos filmes apocalípticos. Os zombies aqui são quase figurantes, pretexto apenas para as piadas e para pôr na estrada os pares Jesse Eisenberg /Woody Harrelson e Emma Stone/Abigail Breslin (sendo que há um claro desiquilíbrio a favor do par de actores masculino, muito mais carismático).

É o lado 'busca pessoal' das personagens que interessa ao realizador, ignorando o lado 'crítica social' com tanta tradição nos filmes de zombies menos mainstream (o zombie como representante do estranho, do irracional, do Outro em suma). Mas nem essa busca, motivada pela ansiedade de integração numa 'família', de que todas a personagens sofrem, é levada muito a sério, sendo a procura de uma boa piada o objectivo numero um. E aqui o filme cumpre bem os seus desígnios: é bem filmado, inteligente e divertido q.b., e termina num tour de force passado num parque de diversões, que merece figurar nas antologias do género. Last but not least proporciona ainda um cameo completamente desmiolado ao nosso actor favorito.

Em suma, é o filme ideal para ver num Domingo à tarde chuvoso. (sempre tive vontade de usar esta frase)

Zombieland, E.U.A., 2009. Realização: Ruben Fleischer. Com: Woody Harrelson, Jesse Eisenberg, Emma Stone, Abigail Breslin, Amber Heard, Bill Murray, Derek Graf.

28.1.10

Tout Truffaut















"The relationship that seemed to exist between François Truffaut and his audience may be hard to explain to anyone who came to his films on video, or perhaps even to those who will see them for the first time during "Tout Truffaut," the complete retrospective of the director's work that opens Friday at New York's Film Forum and will tour 11 other cities. In the '60s and early '70s (the period in which I became a serious moviegoer), movie audiences greeted each new Truffaut film as a visit from a beloved friend. Maybe it had something to do with the feeling that they had grown up alongside Truffaut's alter ego, Antoine Doinel, played by Jean-Pierre Leaud in the director's first feature, "The 400 Blows" (1959), and in four subsequent features and one short. Perhaps they looked at the freedom and passion of "Jules and Jim" (1961) and -- ruinous though the passion depicted in that film is -- saw a vision of everything they wanted out of life. Or perhaps it was just that, at his greatest, Truffaut seemed the most tender of all filmmakers."

Continue a ler aqui este magnífico artigo sobre Truffaut.

26.1.10

Descubra a diferença















Pack Pier Paolo Pasolini

Colecção Pasolini



Solução: A diferença são 44,44€. E  ainda leva de bónus, além da 'Trilogia da vida', 'Porcile' e 'Ostia'.

25.1.10

Nas nuvens
















'Nas nuvens' tem um lado de critica ao capitalismo, um lado de comédia romântica e um lado de parábola sobre - não é bem sobre a solidão, como eu ia dizer - sobre ser-se avesso a compromissos, talvez.

Enquanto 'lado Michael Moore' safa-se bastante bem, mostrando com humor e eficácia o lado cego e inumano do Capitalismo (nomeadamente o made in USA), embora a personagem de Anna Kendrick não seja inteiramente credível (nunca percebemos bem como é que aquela rapariga voluntariosa mas ingénua convenceu tão depressa o patrão a seguir as suas ideias). Enquanto comédia romântica consegue o principal - dar-nos um par cuja química funciona (Vera Farmiga é fantástica e é bom Hollywood achar que uma mulher de 36 anos pode ser bonita). Quanto à tal questão dos compromissos, enfim, como o dizer, o filme é bastante reaccionário. A moral é mais ou menos: só é feliz quem tiver 1) um marido (ou mulher); 2) meia dúzia de filhos; 3) um cão. Mesmo a fuga ao happy end, que já vi elogiada, não é mais do que levar isto às últimas consequências: quem tanto desprezou a santa instituição da família (Ámen), não terá direito a ela mesmo depois de ver a Luz e de se arrepender.


Claro que ao mesmo tempo há um evidente lado irónico nisto tudo: o de ser George Clooney, o playboy e solteirão mais cobiçado de Hollywood, a representar o papel do solteirão e executivo de sucesso Ryan Bingham, que só se excita com milhas aéreas e cartões dourados, até que um dia vê uma vida solitária à sua frente. Mas não é de crer que Clooney tenha visto Bingham como o seu Fantasma dos Natais Futuros.
 
Up in the Air, E.U.A., 2009. Realização: Jason Reitman. Com: George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick, Jason Bateman, Amy Morton, Melanie Lynskey, J.K. Simmons.

22.1.10

Top 15 Filmes de Terror - 1º

1.
Os olhos sem rosto
Les Yeux sans visage, Georges Franju, 1959

Geralmente o 'filme de terror' não é um género que associemos ao cinema francês. Mas não é por qualquer tipo de provocação que ponho em primeiro lugar este filme realizado pelo co-fundador da Cinemateca Francesa, Georges Franju. 'Os olhos sem rosto' é uma obra-prima única no género.

O argumento, inspirado nos filmes 'série Z' dos anos 30 e 40, é uma requintada variante do clássico cientista louco, que neste caso pretende transplantar o rosto de uma jovem na sua filha, desfigurada num acidente. A novidade é o tom poético e extremamente cuidado com que esta história de horrores é tratada, para o que muito contribui a extraordinária fotografia do mestre Eugen Schufftan (que ganhou o Oscar de melhor fotografia com 'The Hustler' e fotografou também 'Metropolis' de Lang e 'Napoleon' de Gance, além de filmes de Max Ophüls e Pabst, por exemplo).

Esta brilhante fusão de 'low' e 'high art' - que um crítico sintetizou como parecendo 'Jean Cocteau a filmar Edgar A.Poe' - foi, tal como os seus contemporâneos 'Psycho' e 'Peeping Tom', muito criticada à altura pelo seu conteúdo, mas também aqui o tempo se encarregaria da sua reabilitação. Há mesmo quem tenha lido este filme como uma espécie de 'actualização' do Dr.Mabuse, depois de serem conhecidos todos os horrores do Nazismo que aquele prenunciara. E é bem visto.

5º ao 2º
10º ao 6º
15º a 11º

21.1.10

Top 15 Filmes de Terror - 5º ao 2º

5.
A Semente do Diabo
Rosemary's Baby, Roman Polanski, 1968


Mais uma obra-prima do terror em que tudo se passa ao nível da sugestão (repare-se que nunca chegamos a ver o bebé do título original). Rosemary é vítima do Diabo ou apenas dos seus pesadelos induzidos pela culpa Católica? Eis uma das maiores provas do génio de Polanski, realizador que hoje em dia anda nas bocas do mundo por infelizes razões extra-cinematográficas.

4.
O despertar dos mortos-vivos
Night of the Living Dead, George Romero, 1968


Esta obra de estreia de Romero não é o primeiro filme de zombies, mas é seguramente o mais influente, definindo as regras que todos seguiriam depois. Há quem defenda que esta fita série B, filmada a preto e branco, misturando um estilo documental com gore e humor, foi o primeiro filme de terror a reflectir a sensação de mal-estar da sociedade sua contemporânea (o Vietname, o racismo, etc.). Como cereja em cima do bolo, tem o final mais cínico da história do cinema.

3.
Os Pássaros
The Birds, Alfred Hitchcock, 1963


Há quarenta e tal anos que os espectadores se perguntam, ao assistir a este filme: 'Porque é que os pássaros atacam?'; pergunta que Hitchcock deixa implacavelmente sem resposta. É um mal 'sem culpa', o que angustia e desorienta o espectador, que não tem qualquer tábua racional a que se agarrar.
Por isso, este que é talvez o filme em que Hitch mais se aproximou do filme de terror 'convencional', é uma das suas mais fascinantes e enigmáticas obras.

2.
Psycho
Psico, Alfred Hitchcock, 1960


Ao contrário da maioria dos meus confrades hitchcockianos, sabe-se lá porquê Psycho não estava entre os meus filmes preferidos de Hitch, até que uma revisão recente o pôs no seu devido lugar: no topo da sua obra, ou seja, entre os melhores filmes da história do cinema. E, como quase todos os filmes de Hitch, presta-se a múltiplas leituras, agradando a todos os públicos, desde os amantes de filmes de suspense/terror pipoqueiros, aos mais exigentes exegetas. Zizek, por exemplo, em 'Lacrimae Rerum' teoriza sobre o facto de, caso tivesse sido Frank Gehry a construir o Motel Bates, não teria havido a necessidade de Norman matar as suas vítimas...

20.1.10

Top Filmes de Terror - 10º ao 6º

10.
A Descida
The Descent, Neil Marshall, 2005


Citando-me a mim próprio: "O realizador Neil Marshall aprendeu com os mestres que em situações de desespero, tanto ou mais que o inimigo externo, o maior adversário que se depara a um grupo é a tensão que se cria entre os seus elementos". É isso mesmo. Um grande filme de terror dentro do velho espírito série B, com um elenco totalmente feminino.
 
9.
A Pantera
Cat People, Jaques Tourneur, 1942


Realizado sem um único efeito especial, aqui tudo se baseia  em jogos de luz e sombra e no poder da sugestão. Será a bela Irena Dubrovna (Simone Simon) uma mulher-felina, ou apenas uma mulher recalcada na sua sexualidade, que tem medo de consumar o casamento? Tourneur prefere que seja a imaginação do espectador a decidir, em vez de explicitar a violência sexual latente, como faria Paul Schrader no seu remake sem sentido de 1982.

8.
A Vítima do medo
Peeping Tom, Michael Powell, 1960


Pessimamente recebido a quando da sua estreia, com críticas insultuosas e histéricas, este filme quase que acabou com a carreira de Powell, sendo apenas resgatado do esquecimento muitos anos mais tarde graças ao esforço de fãs como Martin Scorcese.
É ainda hoje um filme impressionante, sobre Marl Lewis, um assassino-documentarista, que mata mulheres enquanto as filma. Mark foi vítima na infância das experiências sádicas do seu pai psicanalista, e é inegável a simpatia que o realizador, apesar de tudo, sente por esta personagem complexa ( Powell, numa entrevista, chegou a compará-la ao transtornado assassino de M, de Lang).
E talvez esta identificação, que passa para o espectador, tenha sido o que tanto perturbou as almas sensíveis da altura.

7.
O sexto sentido
The Sixth Sense, M.Night Shyamalan, 1999


Pouco há a acrescentar sobre esta famosíssima primeira obra de Shyamalan, à altura com 29 anos de idade. Apenas dizer que esta história de fantasmas foi a que mais hesitei em incluir no género 'filme de terror'. Mas depois achei que não só fazia sentido, como até seria dos mais arrepiantes filmes deste top.

6.
Carrie
Carrie, Brian de Palma, 1976


O crítico Adrian Martin definiu 'Carrie' como 'um operático melodrama de terror que mistura família gótica, fenómenos sobrenaturais e filme de teens'.
A obra de Stephen King tem dado origem a excelentes adaptações cinematográficas ('The Shining', 'Christine', 'Misery',...) e esta é das mais poderosas, muito por graça do talento do seu realizador (aquela sequência do baile...), um fã de Hitchcock que entraria com este filme para a primeira divisão do cinema americano, e, claro, da sua fabulosa actriz. Voltando a Martin: 'Sissy Spaceck é assombrosa no papel principal. O seu rosto e corpo contorcem-se como um efeito especial vivo para exprimir as insuportáveis contradições da experiência de Carrie; veja-se a alarmante mutação da jovem esquecida no baile em Rainha da Morte'.

19.1.10

Top Filmes de Terror - 15º a 11º

15.
O Gabinete do Dr.Caligari
Das Kabinett des Doktor Caligari, Robert Wiene, 1919


Provavelmente é defeito meu, que até sou um grande fã de cinema mudo, mas dificilmente encaro um clássico do mudo (digamos, um 'Nosferatu') como um filme de terror. Talvez no meu inconsciente o terror esteja demasiadamente associado a 'séries B', a low budgets, a códigos muito específicos, em que as obras de arte do mudo dificilmente se encaixam. Mais que medo, encantamento é o que sinto. Mas o fascínio que o imaginário deste filme exerceu sobre mim, com o cientista louco, o sonâmbulo meio morto-vivo, o argumento inesperadíssimo, não se esbateu até hoje e está indelevelmente associado ao género. E nem só de arrepios e saltos na cadeira vive o terror.

14.
O Regresso do mal
Halloween, John Carpenter, 1978


Eis um dos filmes de terror mais influentes de sempre, que deu origem a não sei quantos slasher films de terceira categoria. Claro que Carpenter não tem culpa disso, e as suas armas para nos angustiar são o suspense e o voyeurismo (à Hitchcock) e não o gore que os horror teen movies adoptariam depois. Pegar numa pacata cidade e abalar a sua 'normalidade' é um must do cinema americano. 'Halloween' é um dos exemplos mais conseguidos.

13.
Anjo ou demónio
Ôdishon (Audition), Takeshi Miike, 1999


'Kiri, kiri, kiri' (algo como 'mais fundo, mais fundo') murmura docemente a bela Asami enquanto perfura com agulhas os olhos do seu apaixonado Aoyama, numa espécie de vingança feminista demente que encerra violentamente um filme que durante uma hora parecia um melodrama suave.
Realizado pelo hiperactivo Takeshi Miike, um ano depois do sucesso mundial de Ringu, de Hideo Nakata, é talvez a melhor prova da vitalidade do cinema japonês no género terror. Ninguém que veja este filme se esquecerá dele, garanto.

12.
A máscara da morte vermelha
The Mask of the Red Death, Roger Corman, 1964


Visualmente deslumbrante, com um uso fantástico das cores e da luz (a fotografia é de Nicholas Roeg), com o grande Vincent Price a comandar as operações como o satânico Principe Prospero, esta é a minha preferida das excelentes adaptações que Corman fez de Poe - e é, para muitos, a sua obra-prima.

11.
Aquele Inverno em Veneza
Don't Look Now, Nicholas Roeg, 1973


Baseado num conto de Daphne du Maurier (a autora de 'A pousada da Jamaica', 'Rebecca' ou 'Os pássaros', todos adaptados por Hitchcock), 'Don't look Now' passa-se numa Veneza inquietante e poética, para onde um casal se muda para tentar recuperar da morte da filha. Roeg cria um ambiente verdadeiramente angustiante, à medida que o homem vai ficando obcecado com a ideia de que vê a filha, que morreu afogada, a vaguear pela cidade, culminando com uma cena que merece estar presente em qualquer antologia de finais arrepiantes.
Curiosamente, à altura,  o filme ficou famoso foi por uma muito realista cena de sexo entre o casal (Donald Sutherland e Julie Christie) - é sabido que sexo no cinema era só entre amantes, as crianças 'legitimas' eram trazidas por cegonhas.

18.1.10

Brevemente
















Os meus 15 filmes de terror preferidos.

(A maior dificuldade tem sido definir o que é um filme de terror. Procurarei não alargar demasiadamente o conceito.)

16.1.10

O gosto dos outros


Já referi algures que prefiro ver tops e preferências de realizadores que de críticos de cinema, pois geralmente estes são mais 'politicamente correctos', por assim dizer, preocupam-se sempre com o que não deixam de fora.
Por exemplo: o que é que os cineastas que admiro vão ver ao cinema? Eis duas respostas nada previsíveis com que me deparei recentemente:

Vasco Câmara - O que é quem tem visto, então, que o tem deixado entusiasmado?
Jacques Audiard - 'Deixa-me entrar', Still Life'... e há filmes que me tocam por razões fetichistas, como 'Frozen River', que é um filme muito anos 1970...

[ípsilon, 31.12.2009]



R.P.Tendinha - Quais os filmes que viu ultimamente que gostou mais?
Michael Haneke - Dou muito valor aquilo que o Bruno Dumont tem feito, apesar de não ter visto ainda o seu último filme.

[Premiere, Janeiro 2010]



P.S: Também gostei mais de ver as listas da década dos convidados da Cahiers du Cinema que a lista da própria Cahiers. Pode conferi-las no blog do Sérgio Alpendre, aqui.

P.P.S.: Aqui Haneke também confessa que 'disfruto mucho con Woody Allen'! [descoberto via O homem que sabia demasiado]

15.1.10

O Laço Branco


























Este vencedor da Palma de Ouro em Cannes e dos prémios Europeus de cinema, é mais uma radiografia pessimista do ser humano tirada pelo austríaco Michael Haneke (e parece-me importante referir a sua nacionalidade).

'O Laço Branco' é filmado num preto e branco que o próprio cineasta apelidou de 'realista', com actores desconhecidos e com uma austeridade e sobriedade verdadeiramente protestantes. Passa-se numa aldeola alemã, em vésperas da Primeira Grande Guerra, onde uma série de crimes (sobre crianças, mas não só) vêm perturbar a ordem estabelecida (a ordem do Barão, do Pastor, das entidades paternais em geral). E, claro, tem dado origem a toda a espécie de interpretações, desde logo que seria um filme sobre a génese do Nazismo (ou, mais genericamente, do mal).

Eu admiro o cineasta Haneke, maniacamente rigoroso, embora sempre distante, mas tenho alguns problemas com o argumentista Haneke (embora não contrarie, de forma alguma, o seu pessimismo arreigado). E são os mesmos problemas que tenho com Lars Von Trier: parece-me frequentemente que me estão a 'impingir' algo, uma qualquer lição de moral, que querem perturbar o 'burguês' que há no espectador (o problema está no 'impingir'). E parece-me, por vezes, que a 'forma', impecável no caso de Haneke, esconde alguma simplicidade do discurso. É uma sensação mais difusa no cineasta austríaco (que admiro, repito) que no dinamarquês (que abomino), mas ainda assim está lá (também me lembrei, já agora, de Shyamalan  - 'A Vila', desde logo - que irrita muito boa gente, mas não a mim, curiosamente).

Seja como for, não faz parte daquela maioria de filmes que entram a cem e saem a duzentos - é um filme que perturba, que fica - e por isso entrará obrigatoriamente nas contas do final do ano.

Das Weisse Band - Eine Deutsche Kindergeschichte, Áustria/Alemanha/França/Itália, 2009. Realização: Michael Haneke. Com: Christian Friedel, Ernst Jacobi, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Fion Mutert, Burghart Klaussner, Maria-Victoria Dragus, Josef Bierbichler, Susanne Lothar, Roxanne Duran, Miljan Chatelain, Eddy Grahl.

11.1.10

Eric Rohmer (4/4/1920 - 11/1/2010)














Morreu hoje, aos 89 anos, um dos maiores realizadores da história do cinema, Eric Rohmer. Contabilizando o número impressionante de obras-primas que nos deixa, talvez até se possa dizer, na minha opinião, que era o maior cineasta em actividade.

Por cá saíram recentemente em dvd os 'Contos das 4 estações' e as 'Comédias e Provérbios', que se vieram juntar aos 'Seis contos morais', três packs obrigatórios em qualquer dvdteca que se preze. Depois de Truffaut, que morreu precocemente, é o primeiro dos grandes da Nouvelle Vague que nos deixa.

10.1.10

Estrela Cintilante

















John Keats, um dos maiores poetas do Romantismo, morreu de tuberculose com apenas 25 anos, não tendo obtido em vida reconhecimento nem do público nem da crítica.

Jane Campion centra-se aqui nos três anos finais da sua vida, em que habitava em casa do seu amigo Charles Armitage Brown (de quem é dado um retrato impiedoso, não obstante ser dos raros contemporâneos a reconhecer o talento de Keats) e onde conheceu e se apaixonou por uma vizinha de 18 anos, Frances (Fanny) Brawne. Na verdade foi Fanny a primeira a apaixonar-se e é ela a verdadeira protagonista deste filme: apresentada de início como uma jovem despreocupada que só pensava em roupas e bailes, depressa a conheceremos como uma mulher viva, inteligente (nunca duvidou da qualidade da obra do seu amado, que leu e criticou com propósito) e determinada, que não hesitou em ignorar militantemente as convenções da época em nome do seu amor por Keats (que, não desmerecendo a imagem de bom poeta, não tinha um tostão furado e por isso dificilmente poderia casar com ela).
 
Ao deslocar o foco para esta paixão, Campion, mesmo sem atingir grandes arroubos, consegue contornar algumas das limitações habituais dos biopics (o didactismo, o tom televisivo) e dá-nos um retrato melancólico e de uma elegância inatacável de uma época, e da paixão de um homem e de uma mulher excepcionais. Grande mérito para este conseguimento têm os principais actores: Ben Whishaw compõe convictamente um Keats inteligente e divertido, apesar da doença e do temperamento, além de ter uma bela voz para declamar os seus (de Keats, bem entendido) poemas; e Abbie Cornish, Fanny, é a alma do filme, sacando um papelão. Das três estrelas em cinco que eu daria a 'Estrela cintilante' se aqui houvesse lugar a notas, uma seria inteirinha para ela.

Bright Star, Grã-Bretanha/Austrália/França, 2009. Realização: Jane Campion. Com: Abbie Cornish, Ben Whishaw, Paul Schneider, Kerry Fox, Edie Martin, Samuel Barnett, Antonia Campbell-Hughes.

7.1.10

Um Profeta



















Malik El Djebena chega à prisão com 19 anos, sem saber ler nem escrever (literal e metaforicamente). Mas tem várias qualidades: aprende depressa, é orgulhoso, adapta-se que nem um camaleão e sabe fazer das fraquezas forças. Para a Máfia Corsa que domina a cadeia ele é o Árabe que faz os trabalhos menores, para os Árabes ele é um Corso. Ele diz sempre que não trabalha para ninguém: apenas para si próprio. A seu tempo todos perceberão isso.

Audiard (o realizador de 'De tanto bater o meu coração parou') filma esta história de aprendizagem num tom seco e eficaz, características também da sua personagem principal (o estupendo Tahar Rahim) e, quase somos tentados a dizer, documental - embora só seja 'documental' (ou 'realista') quando lhe convém. Basta dizer que Djebena nunca deixa de ver fantasmas.

'Um profeta' é muita coisa: é um filme de prisão (e é preciso coragem para pegar num género moribundo), é um filme de gangsters, é um filme social - sobre a França, sobre os Árabes, sobre o racismo. E safa-se muitíssimo bem em todas estas vertentes. É um dos grandes filmes por cá estreados em 2009.

Un Prophète, França/Itália, 2009. Realização: Jacques Audiard. Com: Tahar Rahim, Niels Arestrup, Gilles Cohen, Reda Kateb, Adel Bencherif, Hichem Yacoubi.

Córtex Frontal

Também Joana Amaral Dias anda a listar os seus (50) melhores filmes da década  00. Até agora já conseguiu incluir um que eu não só nunca vi, como do qual nunca tinha ouvido falar ('Equilibrium', de Kurt Wimmer).

E quem põe num top  'Donnie Darko' e 'The Royal Tenenbaums', só pode mercer a especial estima cá da casa.

5.1.10

O Sindicato dos Polícias Iídiches























Há uma lei antiga e implacável que qualquer aspirante a cinéfilo aprende cedo: a que determina que 99% das adaptações à tela  de livros da sua estima serão uma boa porcaria. Tem também um corolário: não há cinéfilo que, não obstante, deixe de aguardar com expectativa e por vezes com nervoso miudinho a tal próxima adaptação.

Vem isto a propósito da ansiedade que me invadiu quando descobri (está escrito na badana do livro, mas nem reparei) que os irmãos Coen estão a adaptar o viciante 'O sindicato dos polícias Iídiches', de Michael Chabon.

Neste caso, porém, tenho atenuantes. Não só os manos fizeram um excelente trabalho com McCarthy e 'Este país não é para velhos', como não imagino ninguém mais adequado do que eles para levar à tela este irónico noir, passado num Alasca imaginário povoado de judeus (foi lá, e não em Israel, que arranjaram refugio após a 2ª Grande Guerra), e que Rogério Casanova descreveu como sendo um "pastiche simultâneo de Raymond Chandler e Lenny Bruce e cuja metáfora central é um problema de xadrez concebido por Nabokov".

3.1.10

À l'Aventure




















''À L'Aventure' é a última parte da trilogia de Brisseau dedicada à 'sexualidade feminina' e, seguramente, a menos interessante de todas.

Brisseau mantém todas as obsessões e fantasias sexuais dos filmes anteriores e acrescenta à festa um psiquiatra, como pretexto para tecer ligações entre sexualidade e inconsciente, entre o orgasmo e estados místicos, com sessões de hipnose pelo meio, êxtases provocados por regressões a vidas anteriores e coisas no género. Como se não bastasse acrescenta um plot paralelo em que um taxista (ex-professor de física e ex-aluno de meditação na Índia) nos vai explicando a teoria da relatividade e tecendo comparações entre a imensidão do universo e a insignificância e pequenez do homem...

Escusado será dizer quanto todo este misticismo soa a cliché, a psicologia de pacotilha, a filosofia de... taxista. Parece tudo um pretexto requentado para o voyeurismo do cineasta, que desta vez é salvo apenas in extremis dum erotismo softcore a la 'Orquídea Selvagem' pelo seu grande rigor na mise en scéne. Brisseau é um cineasta e isso salva qualquer coisa (este argumento nas mãos de um tarefeiro daria sem dúvida origem a um desastre de proporções calamitosas), mas não muito. Eu cheguei a duvidar se não me estaria a escapar qualquer tipo de ironia, mas infelizmente penso que o realizador se leva mesmo a sério. Tudo espremido, no final só me ficou a imagem da bela Carole Brana.

P.S.: Como se nota, este blog inicia o ano sob o signo francês. É provável que assim continue por mais uns posts, mas agora com filmes estreados por cá, pode o caro leitor estar descansado.

À l'Aventure, França, 2009. Realização: Jean-Claude Bisseau. Com: Carole Brana, Arnaud Binard, Nadia Chibani, Lise Bellinck.

1.1.10

Tokyo!
















M.Merde!


Parece que os filmes em segmentos voltaram a estar na moda, nomeadamente os que levam uma cidade por título e pretexto.
'Tokyo!' é sem dúvida um dos mais interessantes, desde logo por ter 3 segmentos muito equilibrados, não havendo qualquer elo fraco.

Começamos com o de Michel Gondry, baseado numa graphic novel de Gabrielle Bell, que começa em tons realistas (um jovem casal procura casa e emprego em Tóquio) e acaba em tons surreais. Muito interessante.

A seguir entra Leos Carax, que não deixa os seus créditos por mãos alheias e nos dá o episódio mais bizarro do trio: um lunático que fala uma linguagem esquisita, emerge dos esgotos para aterrorizar a população de Tóquio. O seu nome é, nem mais nem menos que Merde, e diz que obedece ao seu Deus, que o envia para os países que mais detesta. No final é-nos prometida uma sequela em Nova Iorque ("Merde in USA")...

Para o final fica o melhor segmento deste filme em crescendo. É realizado pelo coreano Joon-ho Bong (o realizador de 'The Host/A criatura') e o seu protagonista é um hikikomori, termo que se refere uma daquelas especificidades japonesas, neste caso a pessoas que se recusam a sair de casa e se isolam totalmente da sociedade. É todo um retrato do Japão que nos é dado através de um melancólico homem que se aventura a sair de casa pela primeira vez em 10 anos, depois de se ter apaixonado por uma entregadora de pizza que desmaia à porta de sua casa aquando de um terramoto...

No final, ficamos surpreendidos com dois aspectos raros neste tipo de filmes: a curiosa unidade formal dos três segmentos, e o papel efectivo que o 'elemento Japonês' tem em todos eles, não se limitando nenhum a tomar Tóquio como mera paisagem.

Tokyo!, França, Japão, Alemanha, Coreia do Sul, 2008. Realização: Michel Gondry ('Interior Design'), Leos Carax ('Merde'), Joon-ho-Bong ('Shaking Tokyo').